Choro em família

Corina tem 21 anos de idade, é flautista, produtora e irmã mais velha desse trio de meninas que ama tocar choro. Ela foi a primeira da família a dedicar-se a estudar música instrumental, optando, assim que conheceu, pelo choro. Lia, 19 anos, violonista 7 cordas, segue a tradicional escola de Dino 7 cordas. Elisa, 15 anos, bandolinista, clarinetista e compositora. Juntas, essas três irmãs formam o Choro das 3.

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Essas paulistas da pequena cidade de Porto Feliz, próxima a capital, começaram a estudar música no tradicional conservatório de Tatuí, cada uma em seu tempo, aos 8 anos de idade, e sempre incentivadas pelos pais, pra lá de 'corujas'. Cristina, produtora do grupo, e Eduardo, que as acompanha tocando pandeiro, desenvolvem um trabalho com base em pesquisas sobre obras de chorões antigos e criação de novas músicas, realizando o objetivo de divulgar e valorizar o choro.

— Creio que primeiramente precisamos dar a oportunidade para a pessoa ouvir, porque ninguém vai gostar daquilo que não conhece. A maioria dos rádios não toca choro, tem aquela coisa do 'jabá', e só tocam as músicas marcadas, mas nós tivemos a sorte de ter uma casa 'cheia de música'. Meu pai tinha um disco do Altamiro Carrilho que me apaixonei quando ouvi pela primeira vez, e ficava tentando tocar de ouvido, mas não conseguia (risos) e meu pai fazia tudo para me ajudar — diz Corina.

— Nosso pai sempre tocou de 'ouvido' e conseguiu ter desenvoltura nas rodas de choro, até porque uma grande parte dos chorões não lê partitura, inclusive temos poucas. O Choro é uma musica de tradição moral, quando os chorões mais velhos vão ensinando para os novatos. E foi assim que ele aprendeu a tocar, e nós também, apesar de estudarmos em conservatório, porque a linguagem de um chorão que frequenta rodas de choro, com todo esse pessoal da antiga, cheia de improvisos, onde a partitura funciona como uma espécie de guia, é bem diferente da que tem uma pessoa que estuda música erudita e só — fala Lia.

— As rodas de choro são espaços para profissionais, amadores e aprendizes mostrarem seus talentos e 'trocarem figurinhas', geralmente oferecendo espaço para quem chegar com seus instrumentos e quiser tocar. E quando estamos tocando acontece uma troca de experiência, por exemplo, quando alguém do lado diz: 'por que você não faz essa passagem desse jeito?', outro diz 'ah, troca esse acorde que fica mais bonito' — comenta Elisa.

— Isso aconteceu conosco e continua acontecendo. Quando começamos, a Lia e a Elisa só tocavam uma música cada e mesmo assim entrávamos na roda, cada uma tocava o que sabia e ficava o resto do tempo sentada observando o pessoal tocar, e só o fato de estar lá já nos desenvolvia — conta Corina. 

Atualmente Corina está estudando música brasileira em uma universidade paulista, e se orgulha de ter de alguma forma influenciado as irmãs mais novas, que ainda estão cursando o ensino médio, a seguir carreira no choro.

— Quando éramos pequenas, todas faziam aquilo que uma estivesse fazendo, e assim quando a Corina começou a tocar choro, todos os domingos vínhamos para São Paulo participar com ela das rodas da Rua do Choro. Podia estar chovendo que estávamos lá de guarda-chuvas (risos). E fomos pegando gosto por essa música maravilhosa — fala Lia.

Ganhando espaços e crescendo

A Rua do Choro é um evento que acontece semanalmente na cidade de São Paulo, com a finalidade de divulgar a boa música brasileira para o povo através de rodas de choro. O movimento começou na rua João Moura, em Pinheiros, na década de 1980. Parou por uns tempos, e voltou no início da década seguinte. Em 2000 passou a acontecer no Largo General Osório, lugar que no passado já havia servido de palco para chorões, mas que por um tempo ficou conhecido pela prostituição e tráfico de drogas. Os espaços que valorizam a boa música brasileira têm aumentado.

— Em São Paulo temos a opção do choro a semana inteira. Além dos bares e dos shows, acontecem rodas informais, que frequentamos, como a das manhãs de sábado na tradicional loja de instrumentos musicais Contemporânea, e as do sábado à noite na oficina do luthier Manoel Andrade — anuncia Corina.

— O choro foi o primeiro gênero urbano que existiu no Brasil, e foi denominado choro, apesar de ter músicas alegres, dançantes, porque a princípio era considerado como um jeito do brasileiro tocar, de forma 'chorada', as músicas européias. Mais tarde, passaram a misturar com os batuques que vieram da África, criando uma música cheia de balanço e sentimento, que não deve ser tratada como uma musiquinha qualquer — explica Elisa.

A caçula Elisa é a compositora do trio. Elogiada pelas irmãs, que dizem ter muito talento para compor músicas bem trabalhadas, normalmente tocando, sem muitos esforços, diz amar compor e o faz praticamente toda semana.

E apesar da pouca idade, as meninas já estão tocando juntas há sete anos. No ano passado conseguiram gravar seu primeiro cd, Meu Brasil Brasileiro, com composições próprias, de amigos e de chorões antigos, e ganhou o prêmio de melhor grupo de música de 2008, da Associação Paulista de Críticos de Arte.

— Temos rodado bastante pelo país com shows, participando de festivais. Nosso cd tem sido muito bem aceito e já estamos partindo para o próximo. E chega a ser engraçado quando nos recebem em algum lugar onde vamos tocar e dizem 'ah, que bom, vocês tocam choro', e depois que saímos do palco, falam: 'puxa, não botei fé, porque vocês são umas meninas, mas desculpa, porque vocês tocam melhor que muito homem' (risos) — conta Corina.

— Mas não nos importamos com essas comparações, porque sabemos que por muitos anos só havia homens tocando choro, e por isso eles pensam 'imagina se essas meninas tocam direito' (risos), mas o importante é entender que não importa se é homem, mulher, adolescente ou idoso, o que importa é amar a sua cultura, querer preservá-la, esforçando-se para isso — conclui Eliza.

As meninas fazem questão de convidar a todos a visitar o sítio: www.chorodas3.com.br, e comentar no blog onde estão postadas viagens, shows, pesquisas sobre chorões, comentários em geral, com atualizações constantes.

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