Estados burgueses insultam trabalhadores imigrantes com auxílio-deportação

A- A A+

No último dia 22 de abril, o jornal ianque The New York Times publicou a história da brasileira Rita Yamaoka, ou melhor, da proposta indecente que o governo japonês lhe fez, e que o maior baluarte da imprensa liberal chamou em suas páginas de "proposta irrecusável".

http://www.anovademocracia.com.br/54/17a.JPGRita, mãe de três filhos, perdeu o emprego recentemente em uma fábrica no Japão. Agora que se tornou inútil para a burguesia, virou também um estorvo para o Estado burguês. Então, a oligarquia nipônica fez as contas e decidiu: o governo pagou US$ 3 mil (mais US$ dois mil por cada um dos seus dois filhos) para se livrar dela de uma vez por todas, para mandá-la de volta para casa com garantias de que não irá voltar nunca mais.

Diante da falta de perspectivas de ter seu ganha-pão de volta, das grandes chances de viver como pária na pequena cidade industrial onde morava, e do fato de estar absolutamente desamparada em terra estrangeira, Rita e o marido decidiram pegar o dinheiro e vir embora para o Brasil. É como ela própria falou ao New York Times antes de embarcar de volta: "Não podemos nos dar ao luxo de ficar aqui muito mais tempo".

Afinal, que fazer diante do "pegar ou largar" que lhe foi imposto pelas classes dominantes? O duplo suborno – para mandar o imigrante ir embora, e para que ele aceite nunca mais voltar a fim de procurar emprego – é mais um capítulo da profunda degradação que os capitalistas em crise querem impor ao mundo do trabalho, e desmente a lengalenga liberal do mundo sem fronteiras e dos países ricos acolhedores. E a proposta indecente dos dirigentes japoneses tem um alvo certeiro. Ela foi feita como milhares de latino-americanos descendentes de japoneses – como o sobrenome do casal Yamaoka não deixa mentir – que foram trabalhar na terra dos seus antepassados. Trata-se de uma seletividade que acrescenta à nova artimanha dos poderosos um caráter racista.

Muitos dos trabalhadores latino-americanos que agora estão sendo convidados a se retirar do Japão são filhos e netos de trabalhadores japoneses que emigraram para a América Latina fugindo do desemprego e em busca de melhores condições vida, mas que acabaram servindo de mão-de-obra barata para a oligarquia cafeeira de São Paulo.

http://www.anovademocracia.com.br/54/17b.JPG
Casal Yamaoka sem opções

E assim vai se escrevendo a história dos fluxos migratórios internacionais mediados pelas relações capitalistas: com os Estados burgueses manipulando e humilhando as populações migrantes, adaptando as políticas migratórias segundo os interesses de momento do patronato. Agora, em tempos de aperto e sob pressão, querem se livrar dos trabalhadores estrangeiros por meio do aviltante estratagema da deportação velada, caçando vistos por meio dos odiosos subornos.

Já em meados de maio, o Japão fez uma pequena retificação do seu pacotão antilatinos, um adendo aos termos do seu subsídio xenófobo, uma correção pretensamente atenuante ao vil auxílio-deportação: em vez de serem banidos para sempre, os imigrantes poderão voltar em no mínimo três anos, durante os quais deverão conviver com o desemprego e a precarização em seus próprios países de origem. E o cerco se fecha ainda mais: há vários projetos parlamentares no Japão para revogar o visto especial para os "nikkeis" – designação do idioma nipônico para os descendentes de japoneses nascidos em terra estrangeira.

A alardeada "mobilidade" serve à burguesia

Oferecer suborno a trabalhadores precarizados parece ter virado moda também na Europa do capital – do capital em crise. Na República Tcheca, onde recentemente os imigrantes chegaram a ocupar 40% dos postos de trabalho nas fábricas, desde fevereiro o governo mantém um programa nos moldes do acinte japonês, ou seja, voltado para mandar os estrangeiros desempregados de volta para casa (oferecendo um auxílio-deportação mais modesto, de 500 euros).

http://www.anovademocracia.com.br/54/17c.JPG
Latinos são forçados a deixar tudo

Mas, na Europa, o grosso do refluxo migratório vem sendo observado mesmo é no sentido inverso. São milhões de trabalhadores despedidos em países como Grã-Bretanha, Alemanha e Espanha voltando para países como Romênia, Ucrânia e a própria República Tcheca, a maioria sem qualquer esperança de uma vida mais digna, buscando apenas um custo de vida menor onde possam aguentar melhor a sina do desemprego, ou simplesmente o apoio da família. No fim das contas, é para isso mesmo que a União Européia foi concebida: para que o capital monopolista pudesse tirar o melhor proveito possível da livre peregrinação de trabalhadores desempregados, pressionando os mercados de trabalho dos diferentes Estados no sentido da redução dos salários e do sarrafo nos direitos e garantias duramente conquistados pelo proletariado europeu.

Tudo isso em se tratando dos imigrantes legalizados, com a papelada toda em dia, que não têm maiores problemas com o serviço de estrangeiros e fronteiras dos países onde vivem. Para aqueles que se equilibram sobre a corda bamba da ilegalidade, a precarização chega em doses ainda  mais cavalares.

As políticas migratórias vão ficando cada vez mais draconianas. Só na Grã-bretanha nada menos do que oito brasileiros por dia, em média, foram barrados nos postos de controle de imigração no primeiro trimestre deste ano. A Itália acaba de aprovar uma lei que qualifica a imigração ilegal como crime. Quem for pego sem visto terá que pagar 10 mil euros de multa (como?), e as mulheres sem autorização de permanência não poderão registrar seus filhos que eventualmente nascerem em solo italiano.

Por outro lado, na Espanha, os governantes estão à cata de imigrantes brasileiros que tenham filhos e que aceitem ir povoar cidades rurais com problemas demográficos, verdadeiras cidades-fantasma, devastadas pelo desemprego. A contrapartida é uma casa e um subemprego qualquer arranjado pelo Estado, o que não deixa de ser uma variação do "pegar ou largar" indecente que vem sendo proposto em larga escala a quem tem muito pouco a perder.

Não obstante, muitos trabalhadores vêm recusando os subornos de toda espécie, que visam perpetuar o manejo dos fluxos migratórios ao bel prazer dos poderosos. No Japão do pacotão antilatinos, os brasileiros vêm se organizando para rechaçar tanto as demissões quanto o subsídio-xenófobo. Eles têm ido para as ruas e organizado piquetes nas portas de fábricas. Mas as condições são demasiadamente adversas, e mais do que nunca precisam da solidariedade dos compatriotas que aqui estão.

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja