Globo, porta-voz da repressão oficial

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Emissora da família Marinho volta a entrar em favelas do Rio de Janeiro, agora para elogiar o modelo de repressão aplicado pelo Estado: a polícia ocupa os espaços populares e reprime a classe trabalhadora 24 horas por dia.

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Na terça-feira, 26 de maio, a TV Globo entrou no Complexo do Alemão. Contrariando a orientação emitida após a morte de Tim Lopes, que neste mês completa 7 anos, a equipe gravou matéria nas proximidades de onde o jornalista foi torturado e queimado vivo. A reportagem da série "Vozes da Comunidade" inicia avisando que foram ouvidos "os sonhos dos moradores" e, num tom bucólico, continua: "Da varanda de casa, a dona de casa Shirley admira a Baía de Guanabara (...)". Apesar dos sorrisos dos apresentadores e do aspecto festivo da matéria, cabe a pergunta: quais seriam os verdadeiros interesses da emissora que sempre tratou a favela como antro de violência e criminalidade?

Para o escritor Mário Augusto Jakobskind, autor do livro "Dossiê Tim Lopes: Fantástico/Ibope", o objetivo da Globo é muito claro — a legitimação das ações do governo contra os pobres. "É o jornalismo espúrio", afirma, lembrando que na época das investigações que fez para o livro ouviu de diversas pessoas que vivem em favelas a mesma frase: "É uma mentira quando a Globo diz que vem aqui para ajudar a comunidade". Mário Augusto enfatiza ainda que a emissora da família Marinho, que opera ilegalmente uma concessão pública, não perdeu a velha mania de se aliar a grupos criminosos:

— É uma prática comum da TV Globo. Eles se dizem os defensores da comunidade, mas apenas fazem parte do esquema da violência do Estado, de conluio com o poder público numa política de criminalização dos pobres. E muitas vezes eles se aliam à bandidagem local, como foi o caso recente desse seriado Força-Tarefa. Gravado numa favela controlada por milícia, a Rio das Pedras, em Jacarepaguá, a Globo usou um miliciano como ator, o tal do Beto Bomba, meliante que ainda aparece como corregedor, o que provavelmente fez parte das negociações para que a emissora pudesse entrar na comunidade.

Apesar das inaugurações sempre festivas — como as obras do PAC — o conjunto de ações estatais nas favelas do Rio de Janeiro denota uma escalada da violência contra a classe trabalhadora fluminense. A dona de casa do Alemão, que foi apresentada pela TV Globo em sua série, serviu como bode expiatório. Depois que a equipe filmou sua casa, uma pesquisa (sempre ela) surgiu na telinha para "comprovar" que o principal problema da favela é a questão da moradia. No final, a apresentadora afirma:

— Bom, você viu que um dos grandes desejos dos moradores do Alemão é ter moradias melhores. O governo do estado informou que 920 casas serão derrubadas e os moradores transferidos para novas moradias na comunidade. Ainda segundo o governo outras 1.400 casas serão construídas.

Para além do caráter governista da Globo, os números que apresenta são questionados por Marcelo Braga, integrante da Rede Contra a Violência, uma das organizações mais combativas do Rio de Janeiro. Ele afirma que o total de casas a serem derrubadas no Alemão chega a 4 mil, enquanto a previsão de novas moradias é de apenas 3 mil — o que deve ampliar o déficit habitacional já existente:

— Do jeito que estão fazendo, a política é cada vez mais expulsar pessoas que vão ter que ocupar outras áreas mais distantes do Centro, como Santa Cruz e Sepetiba.

Marcelo também chama a atenção para um outro problema que se avizinha com a recente "descoberta" das favelas pelo "poder público" (e do privado também), qual seja, o aumento do custo de vida num lugar onde viver já é difícil. Ele cita o exemplo de um cidadão que teve que sair do morro Dona Marta, na zona sul carioca, porque o aluguel da casa subiu de 250 para 500 reais.

Essa segregação é chamada de "remoção branca" por Adriana Facina, professora de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). E vem acompanhada da ocupação policial, apresentada pelo monopólio dos meios de comunicação com bastante entusiasmo.

— Há um elogio da mídia sem problematizar a ocupação policial, que supostamente traz ordem, melhoria de serviços, como se agora as crianças pudessem brincar, aí mostram imagens de meninos soltando pipa, como se isso já não acontecesse em qualquer favela.

A cobrança de novos serviços e o pagamento de impostos são apresentados como fatores positivos num lugar cuja sobrevivência depende, e muito, das relações informais, lembra Adriana. A defesa da cobrança dessas tarifas e da privatização do espaço público também fica evidente nas palavras do secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame, em recente visita a duas favelas no Leme (Babilônia e Chapéu Mangueira), no último dia 29 de maio:

— Vim falar com a comunidade e dizer para eles que a idéia do projeto é criar esse ambiente de paz para que serviços públicos e privados cheguem também. O primeiro e grande passo foi dado, que é a segurança pública.

A segurança pública oferecida pelo secretário, no entanto, vem sendo bastante questionada por gente de dentro e de fora das favelas. Adriana Facina, que coordena uma pesquisa sobre o funk em diversos espaços populares do Rio de Janeiro, denuncia "o controle social total das pessoas, como toque de recolher, proibição de eventos, proibição de reuniões, controle sobre o que as pessoas podem ouvir dentro de suas próprias casas". O resultado desta coação policial, aliada ao aumento do custo de vida dentro de determinadas favelas (geralmente as que se encontram em pontos centrais da cidade ou que eram controladas pelo Comando Vermelho, organização mais combatida pela atual gerência estadual, enquanto outras agem livremente) tem empurrado as pessoas para lugares mais distantes do Centro, como Sepetiba e Santa Cruz.

Favela virou prisão

Guilherme Pimentel é um jovem advogado que tem percorrido as favelas do Rio de Janeiro para denunciar os abusos cometidos pelos agentes do Estado. Integrante do coletivo Direito Pra Quem, que questiona a seletividade na aplicação dos direitos conquistados pelo povo ao longo da História, ele reitera as denúncias da professora da UFF:

— O policiamento de proximidade faz a contenção porta a porta, com toque de recolher, proibição de eventos culturais, proibição de ritmos. Transforma a favela em prisão, as pessoas não têm mais o direito de lazer. Música só até certa hora. A política de contenção é pra pessoa apenas dormir e acordar cedo pra trabalhar. A comandante do policiamento no Santa Marta, capitã Priscila, afirmou: "Qualquer espaço de aglomeração de pessoas é potencialmente perigoso". Quer dizer, é a coisa do inimigo interno, todos viram suspeitos.

E questiona o modelo defendido pelo secretário Beltrame:

— A mediação de qualquer direito é feito pela Segurança Pública. Como se direito fosse negociável, e não simplesmente existisse. O Estado faz chantagem, porque só deixa os benefícios entrarem se esse modelo de segurança for aceito.

Guilherme cita o caso de um morador do Santa Marta, que preferiu não se identificar por temer represálias. Poucos dias depois de o gerente estadual do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, ter declarado que a polícia não está utilizando fuzis nessas ocupações, esse morador chegou à noite na favela e viu um grupo de policiais manuseando um fuzil. Fez um gesto de reprovação com a cabeça e seguiu seu caminho. Logo em seguida os policiais o cercaram e o agrediram com socos e pontapés. O homem foi algemado e colocado dentro de uma viatura da polícia, que saiu dali em direção a uma unidade médica. No entanto, a vítima foi mantida sem atendimento durante uma hora. Para completar, os policiais registraram inquérito contra o morador, alegando que foram agredidos.

Além deste exemplo de crueldade, há muitas outras denúncias de violência policial ocorridas dentro das favelas recentemente ocupadas. Cerca de vinte moradores do Santa Marta relataram que suas casas vem sendo sistematicamente invadidas por policiais, sem mandado de busca. Além disso, foram registradas ao longo desta reportagem as seguintes denúncias: agressões físicas, ameaças de morte e policiais homens revistando mulheres em becos escuros.

Nada disso é reportado pelo monopólio dos meios de comunicação, enfatiza Guilherme.

— Dentro da favela reclamam que a cobertura tem sido parcial e que mostra tudo como se estivesse às mil maravilhas. Ocorre que todos os problemas mostrados são anteriores à ocupação policial.

O jurista Miguel Baldez, em entrevista para esta reportagem, recordou as ações violentas de despejo no Canal do Anil, em Jacarepaguá, e no Complexo do Alemão, em 2007, quando aproximadamente cem pessoas foram mortas pela polícia de Sérgio Cabral. É a "política de extermínio programada", diz o advogado que esteve na linha de frente nesses dois momentos, tendo inclusive entrado numa das casas que seriam demolidas e avisado: "Se for pra derrubar, vai ter que ser comigo dentro", o que fez com que os funcionários da gerência César Maia recuassem.

Baldez também enfatiza a ligação entre as gerências municipal, estadual e federal. "Pra mim há uma clareza solar de que existe uma articulação entre os governos, que resulta na instituição da violência contra as parcelas mais pobres da população".

Apesar de o monopólio dos meios de comunicação mentir descaradamente, o fato é que o Estado, controlado por empresas privadas, mantém a mesma relação violenta contra os trabalhadores que vivem nos espaços populares da cidade. Como diz Guilherme Pimentel:

— Toda favela tem um pouco de quilombo e de senzala. Tem resistência e é onde dormem os trabalhadores que sustentam a sociedade.

Em contrapartida a esta opressão secular, que tem se intensificado na gerência Sérgio Cabral, a organização popular vem crescendo e a resistência vai ficar cada vez mais contundente. Ainda neste mês de junho, duas favelas cariocas vão desafiar a violência do Estado com manifestações políticas surpreendentes — não vamos adiantar para não atrapalhar a realização dos eventos, mas nas próximas edições contaremos os detalhes.

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