Atribulações do capital transnacional e associado

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Além da determinação de aprofundar o saque e a submissão do país, o Fórum Nacional 2009 expõe contradições da burguesia burocrática e desorientação diante da crise.

Entre 18 e 21 de maio, os monopólios Vale, Telefônica, Oi, Odebrecht, Andrade Gutierrez, Gerdau, Light, Ultra, CCR, Bradesco e suas entidades representativas (Fiesp, Firjan e CNI), com o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento, mas sem abrir mão do financiamento público — diretamente via governo federal, BNDES, Caixa, Petrobrás, Correios, Eletrobrás, BB, BNB, IPEA, Finep e Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro ou indiretamente, através do Sistema S — promoveram na sede do BNDES, na Av. Chile, Rio de Janeiro, mais uma reunião do Fórum Nacional (FN). O encontro de 2009 recebeu o título "Na Crise Global, o Novo Papel Mundial dos BRICs (BRIMCs?) e as Oportunidades do Brasil (Crise como Oportunidade, Através do Plano de Ação)".

Os dirigentes e intelectuais do FN — João Paulo e Raul dos Reis Velloso, Marcílio Marques Moreira, Cláudio Frischtak, Affonso Celso Pastore, Luciano Martins e Roberto Cavalcanti, todos com uma folha de serviços prestados ao imperialismo e à oligarquia que remonta a 1964 — dividiram espaço com figuras como o diretor-geral do Banco Mundial, Vinod Thomas, seu vice-presidente, Danny Leipziger e seu diretor-executivo para o Brasil, Rogério Studart. Os presidentes do BC, Henrique Meirelles, e do BNDES, Luciano Coutinho — estafetas, respectivamente, da oligarquia financeira internacional e da burguesia burocrática de São Paulo — também estavam presentes para prestar contas de sua atuação, assim como os ministros Guido Mantega (Fazenda) e Edison Lobão (Minas e Energia) e o prefeito do Rio, Eduardo Paes. Também não poderia faltar o candidato ungido pelo FN ao posto de administrador colonial do Brasil em 2010: José Serra, "convidado especial" a quem coube falar na sessão de encerramento.

Se o conteúdo do evento não foi notícia na imprensa monopolista, isto não se deu por desconhecimento: também participaram do FN 2009 os diretores de O Estado de São Paulo, Ricardo Gandour, e do Observatório da Imprensa, Alberto Dines, bem como a editora executiva da Folha de São Paulo, Eleonora de Lucena; o editor de Opinião de O Globo, Aluízio Maranhão; e o redator-chefe de Exame, André Lahóz.

Veias abertas

O evento organizou-se ao redor de dois eixos. O primeiro é a idéia de que Brasil, Rússia, Índia, China e talvez o México "desempenhem, conjuntamente, um papel relevante no Desenvolvimento Mundial". Traduzido da linguagem eufêmica usualmente adotada pelo FN para o português corrente, isto significa que os imperialismos ianque e europeu pretendem aprofundar o saque sobre estes países para compensar sua bancarrota.

O painel introdutório, realizado na tarde de 18 de maio, contou com a presença de um agente da oligarquia financeira internacional para cada um dos países escolhidos. Sobre a Rússia, falou Yegor Gaidar, ex-primeiro-ministro de Yeltsin e responsável maior pela dissolução da economia do país, hoje um exemplo vivo de capitalismo mafioso. Sobre o México, Carlos Elizondo Mayer Sierra, agressivo propagandista da entrega do petróleo do país às Seis Irmãs e da privatização da Pemex.

O petróleo, aliás, foi um dos temas centrais do encontro. A defesa do atual modelo de exploração e da continuidade dos leilões da ANP foi feita por João Carlos de Luca, presidente do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP, um biombo das transnacionais do setor) e pelo presidente da Shell Brasil, Vasco Dias, que chegou a dizer que sua empresa "está à disposição para contribuir na definição de regras em todos os países onde opera". A posição da Shell e do IBP foi vergonhosamente acatada pelo diretor de Planejamento do BNDES, João Carlos Ferraz. A única voz que se ergueu em defesa do patrimônio nacional foi a do engenheiro Paulo Metri, que denunciou as Seis Irmãs como fator de atraso, e não de progresso.

Quadratura do círculo

O segundo eixo orientador do FN 2009 foi a preocupação em "operacionalizar" o chamado Plano de Ação Contra a Crise, elaborado pelo FN e por uma autodenominada Cúpula Empresarial — expressão dos mesmos monopólios que promovem o Fórum.

O plano em questão busca juntar os cacos das ilusões de uma burguesia burocrática que a crise pegou no contrapé em seus sonhos de transnacionalização. Está estruturado em alguns pontos-chave em relação aos quais há acordo entre essa burguesia e o capital transnacional. Esses pontos de consenso são, porém, incompatíveis entre si. Jorge Gerdau (ao discursar em nome da Cúpula) e João Paulo dos Reis Velloso (ao apresentar o plano) falam em fortalecimento do mercado interno ao mesmo tempo em que defendem a destruição dos dois fatores que, ao frear a queda do poder aquisitivo da população, o mantêm funcionando: legislação trabalhista e Previdência Social.

Reis Velloso falou especialmente em "conter reajustes do salário mínimo" e gastos com benefícios previdenciários e assistenciais. O embasamento "técnico" para essa insanidade foi fornecido por seu irmão, Raul Velloso, que defendeu, ainda, o fim da estabilidade dos servidores públicos e o corte de gastos com Saúde e seguro-desemprego. Raul considera, em resumo, que o que o governo gasta com o pagamento de aposentados, pensionistas e trabalhadores doentes impede o Estado de investir. Outro alto dirigente do FN, Roberto Cavalcanti, chegou a propor a substituição da aposentadoria rural equiparada ao salário mínimo e dos benefícios assistenciais de igual valor pelo bolsa-família.

A Previdência é uma velha obsessão do FN e o encontro de 2009 serviu para explicitar sua origem: os tecnocratas do Fórum não fizeram senão enunciar mais detalhadamente o que disse a respeito do assunto, na sessão de abertura, Vinod Thomas, do BM. O inusitado é que se pretenda compatibilizar essa bandeira com as necessidades de uma burguesia burocrática que, alijada por ora do mercado internacional, precisa do interno — e, consequentemente, da renda dos 25 milhões de beneficiários do INSS — para sobreviver. Essa busca pela quadratura do círculo evidencia a desorientação da burguesia burocrática diante de uma situação que ela ajudou a provocar, mas sobre a qual não tem nenhum controle.

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