Ressurreição da Escola das Américas?

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Os métodos utilizados pela PM brasileira, pelo BOPE, CORE, sob orientação e aquiescência — e não sob tolerância e vistas grossas como muitos querem dar a entender — dos secretários de turno da Segurança Pública são os mesmos utilizados nas favelas do Haiti — e não estou falando somente de Cité Soleil, a mais conhecida delas, graças ao mau trabalho da imprensa nacional e a internacional. E são aplicados por soldados sob o comando do Exército Brasileiro.

Já estive no Haiti várias vezes, estive em tantas favelas que já perdi a conta e todas são extremamente pobres. As favelas dali, tais como as do Rio de Janeiro, as de São Paulo etc., têm sido palcos para os experimentos militares.

Há quantos anos a polícia brasileira diz combater o tráfico nas favelas? E este continua ali, forte e firme, enriquecendo uns tantos, principalmente elementos da corporações policiais, militar e civil.

 Já no Haiti a Minustah, sob o comando brasileiro, está lá desde junho de 2004. São quase quatro anos* de repressão, de mortes de civis que foram chamadas de "efeitos colaterais" pelo general aquele que dizem que se matou, Urano Bacellar. 

http://www.anovademocracia.com.br/54/03c.jpgO que há de tão diferente entre as favelas do Brasil e as do Haiti se a situação é praticamente igual, se são do mesmo "calibre" as balas que alcançam os civis e se a repressão é o método antigo mais modernamente utilizado?

Por isto, digo que o Haiti está "bem arranjado", para utilizar um ditado popular bem brasileiro que aqui quer significar que este país terá pela frente mais problemas que nunca, já que começa a receber "visitas" nada apropriadas para o seu desenvolvimento e que ali irão receber instruções e observar experiências locais a partir de um "batalhão que usa tecnologia de informação de última geração". 

Tem algo de podre nesse reino da segurança policial. Que tipo de colaboração é essa? Que tipo de instrução é essa que faz com que elementos da Secretaria da Segurança Pública queiram e estejam dispostos a ir ao Haiti? Qual é a grande lição que o Exército Brasileiro pode fornecer ao BOPE e outros órgãos, que só não são paramilitares porque estão institucionalizados? Como se explica que aqui o serviço de inteligência brasileiro — antes o famoso SNI e hoje com a sigla ABIN — não é capaz de fornecer uma tecnologia de última geração a seus pares em terras brasileiras e o Exército Brasileiro, no Haiti, conta com um serviço altamente qualificado? E mais: altamente qualificado em um país que dificilmente estaria capacitado a desenvolver este tipo de tecnologia por conta própria? Então, quem está fornecendo esta "Tecnologia de Informação de Última Geração"?

Ora, sabemos que os tontons macoute foram até considerados professores em se tratando de métodos repressivos, tamanha a ferocidade de suas ações. Depois disto, o próprio Aristide, na sua última gestão, também chegou a enviar jovens do Haiti a fortes dos Estados Unidos para treinar uma força paralela, como os 300 haitianos selecionados que foram para o Fort Leonard Wood e que tinham a responsabilidade de aprender as lições de interrogatório e afins e passá-las adiante para mais cinco mil pessoas recrutadas dentro do país; força essa que atuou dentro e fora do Palácio do Governo, com métodos nada amistosos.

Alguém se deu conta de que a notícia é mais grave do que apresenta o código escrito?

É preciso ler por trás desse código. Neste caso, temos que pensar o que irão fazer lá esses "profissionais especiais" e se isto provocará uma certa migração em busca dos prometidos avanços tecnológicos em informação e se vai render outras "escolas de instrução".

 A última vez em que vi algo a respeito de colaboração entre forças repressivas e trocas de experiências deste naipe foi no período da ditadura militar brasileira — e não faz tanto tempo assim, pois se trata de nossa história recente — e a minha geração soube interpretar e muito bem a notícia. De um dos encontros de forças repressivas nos Estados Unidos, em Fort Benning, na Geórgia, foi idealizada uma escola de técnicas de interrogatório — em outras palavras, para formar torturadores — e, quem sabe, principalmente daquele encontro bastante imaginativo que aconteceu em West Point, resultou a materialização, no Panamá, da Escola das Américas. Dali saíram grandes instrutores de interrogatório, baseados em métodos "persuasivos", dirigidos a forças insurgentes — terroristas como querem os repressores — portando de alta tecnologia de informação, tecnologia de última geraçãopara o período. A partir dali é que surgiu a denominação instrução e instrutoresno universo do interrogatório policial e militar. A Escola das Américas foi extinta. Tanta coisa é extinta e renasce sob outro nome e em outro lugar!

E, por que não ressuscitar a Escola das Américas no Haiti? As condições são as mais favoráveis possíveis. Ali estão forças policiais e militares de 40 países, e 11 exércitos de países das Américas estão sob o comando do Exército Brasileiro, sob o argumento de que é preciso restabelecer a paz e ajudar a implantar a democracia. Curiosamente é a mesma conversa que escutamos em todos os países da América que sofreram golpes de Estado patrocinados pelos Estados Unidos

http://www.anovademocracia.com.br/54/03d.gifO Haiti é um terreno fértil para experimentos. Não tem soberania, não é capaz de sair do isolamento a que está submetido e isto não se dá por conta somente da barreira do idioma e da cultura local, mas também porque as notícias não chegam e já vêm devidamente distorcidas se e quando chegam. Chegam as que foram contratadas ou as que foram censuradas. Quem lê algo do Haiti que não tenha sido soprado pelas "Forças" que lá estão?

É preciso estar atento. Não se trata de imaginação fértil, nem de delírio. Muitos também pensaram ser a Escola das Américas um produto imaginário no período das ditaduras nas Américas. As mortes de Dan Mitrioni e Chandler bastaram para fazer cair por terra a tal "imaginação fértil das esquerdas".

Se conseguirem montar esta escola por lá sem que ninguém se dê conta ou denuncie, daqui a pouco estaremos assistindo a uma intensa migração para o Haiti e sempre em nome da "defesa da democracia".

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