O amigo da música regional

Adelzon Alves, radialista e produtor de discos, responsável pelo início de carreira fonográfica de Clara Nunes, João Nogueira, Dona Ivone Lara, Nilze Carvalho e outros, é o apresentador do famoso programa de samba autêntico, Amigo da Madrugada, atualmente na rádio Nacional/Rio.  Sempre engajado na luta em favor da autêntica música brasileira, aos 70 anos aumentou sua 'área de proteção', passando a animar as manhãs da rádio Mec, com o 'Fole e Viola', valorizando sanfoneiros do nordeste e sul, e violeiros de São Paulo e Minas Gerais.

http://www.anovademocracia.com.br/55/23b.jpg— Sou um pau-de-arara do sul, de Cornélio Procópio, Paraná, e ainda menino, década de 50, tive a sorte de me ligar ao grande radialista local, Marcos Alberto. Em rádio do interior se lê noticiário, comercial, faz programação musical, programa de auditório, narra e comenta jogos de futebol, e ele era um craque em todos esses segmentos e tinha muito bom gosto musical. Foi a minha base como radialista que me passou essa consciência política cultural, o que infelizmente não encontramos em muita gente de rádio, que toca o que 'está na onda', não se importando se está ensinando a roubar, assaltar, matar, prostituir, coisas assim — fala.

Tempos depois Adelzon foi para Curitiba, e trabalhou com outros grandes nomes: Euclides Cardoso e Jair de Brito. Em 1964 partiu para o Rio de Janeiro, fugindo das represálias que vieram com o golpe militar.  

— Fazia parte do Sindicato dos Radialistas e houve uma pressão militar forte por lá, então vim para o Rio e entrei na rádio Globo. Ela era uma espécie de ninho do golpe. Roberto Marinho mandava na comunicação do Brasil, mas ao mesmo tempo, como me contou uma pessoa bem próxima a ele, foi chamado no USA e lá disseram: 'ou fica do nosso lado ou vai dançar, vamos passar o rolo compressor', e ele ficou do lado deles. Mas continuei com minha posição de esquerda, ideologicamente falando. Somente ficavam de olho, e tínhamos que falar nas entrelinhas — conta.

A princípio Adelzon lia anúncios e noticiários. Quando a rádio passou a ter programação 24 horas, ofereceram-lhe o horário da madrugada.

— Eles tinham medo que eu usasse o microfone para dar algum 'pitaco' socialista, mas como ninguém queria trabalhar na madrugada, me deram. Durante o dia a rádio tocava Roberto Carlos e algo do tipo, e fiz um programa nesses moldes para o diretor, porém, quando chegou de madrugada, pensei 'não vão me ouvir', e sabia que eles não acreditaram no horário, então comecei tocando Cartola, Nelson Cavaquinho, Elizeth Cardoso, Ciro Monteiro (risos). Só descobriram depois, devido ao grande sucesso, mas não me chatearam — lembra com alegria.

O programa tem ajudado a divulgar o samba e lançar muita gente, principalmente compositores e cantores pobres e moradores de morros, os preferidos por Adelzon.

— Gosto de dar chance para quem não tem nenhuma, apesar de muito talento. A partir da Clara Nunes, que dirigi, surgiram nomes importantes como João Nogueira, que era um dos compositores desconhecidos que faziam músicas para Clara e estava sempre no programa. O Amigo da Madrugada também ajudou a lançar Dona Ivone Lara, que já era uma compositora conhecida no Império Serrano, mas algumas pessoas de lá não deixavam seu nome aparecer — diz.

— Para colocar Clara em contato com os compositores, sempre a levava para a casa do Candeia e quadras de escolas de samba. E esse pessoal não tinha espaço nas rádios e gravadoras, por serem moradores de morros. Certa ocasião começou a sumir coisas dentro da rádio, e alguém acusou: 'são esses crioulos que o Adelzon traz na madrugada', e esses crioulos eram o Nelson Cavaquinho e o Geraldo Babão (risos), pessoas honestíssimas e que não falavam um só palavrão, mesmo estando a noite toda na rádio. Geraldo Babão, o maior compositor do Salgueiro, era cobrador de ônibus e ia para a rádio com a roupa de trabalho. Depois descobriram que todo o produto dos roubos estava no apartamento daquele que mais acusou os grandes sambistas — continua.

Ouvido para o samba e para o fole

Além do Amigo da madrugada, nos mesmos moldes, atualmente na rádio Nacional/Rio, Adelzon está fazendo o Fole e viola, na rádio Mec/Rio.

— Fole é a sanfona da música nordestina e gaúcha, e a viola é essa riquíssima música caipira de São Paulo e Minas. O trabalho é de resistência cultural, para que essa riquíssima cultura poética e melódica do interior não seja engolfada por esse movimento terrível que está aí: 'funk, hip-hop e adjacências', que não tem nada a ver com o Brasil, com a nossa cultura. Ao contrário, é um movimento altamente deteriorador, gerador de violência e prostituição — declara.

— Com a morte de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, entre outros, houve um vazio na música nordestina, e então uns 'picaretas' começaram com 'música de safadeza', com duplo sentido. São uns imbecis e mentirosos, culturalmente falando, que cantam música nordestina de teclado com chapéu de vaqueiro, e reagindo a isso surgiram compositores e cantores que passaram a fazer música nordestina na linha do Gonzaga, como Maciel Mello, Petrúcio Amorim e muitos outros. E essa maravilha se espalhou por todo o nordeste, de norte a sul, até mesmo na Bahia, que não tem só Ivete Sangalo e outras porcarias. Na periferia de Salvador se toca muito forró, e no interior ainda mais — continua.

— E tem também o Fole do Sul: um grupo gaúcho que luta pela preservação da música regional autêntica, poetas maravilhosos. Entre outros estão: Carlos Omar Vilela Gomes e Luiz Carlos Borges, que é um Luiz Gonzaga do Rio Grande do Sul — acrescenta.

Do fole, Adelzon parte para a viola de Inezita Barroso, Tião Carreiro, Renato Teixeira, Almir Satter e inúmeros violeiros da capital e interior de São Paulo. Depois vai para as Minas Gerais, a capital, os vales do Jequitinhonha, Mucuri, Rio Doce e muitas outras partes, onde aparecem Chico Lobo, Wilson Dias, Renato Andrade, Rubinho do Vale, Pereira da Viola e muitos outros.

— É para divulgar esse povo que trabalha a cultura regional brasileira, que existe o Fole e viola, assim como Amigo da Madrugada sempre o fez com a música regional do Rio. Faço programas assim por uma consciência político cultural, por achar que é a minha obrigação de radialista prestigiar a nossa cultura regional de norte a sul do país — declara Adelzon.

— E pretendo lançar outros nomes no Amigo da Madrugada, e existem talentos frequentando o programa o suficiente para isso, basta haver investimento. Um exemplo é o seu Adriano, um pedreiro de 86 anos, que ajudou a construir a Ponte Rio-Niterói, o Maracanã e a Avenida Brasil, e agora teve a chance de gravar um samba, cantando maravilhosamente bem. Gosto de servir de escada para essas pessoas, minha missão é criar o palco e as condições para o artista mostrar sua arte verdadeira, a arte do povo brasileiro — finaliza.

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