Até quando república bananeira?

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Doutrina Obama e golpe de estado em Honduras

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Não há dúvida que o atual golpe em Honduras é marca registrada da nova "Doutrina Obama", fiel expressão de afã e ansiedade do imperialismo ianque para recuperar posições perdidas na América Latina, a qual sempre considerou como seu quintal. Particularmente quando alcançou a hegemonia de potência imperialista no início do século XX, por aqueles que então se sustentavam na chamada "Doutrina Monroe".

Por que o imperialismo promove o golpe em Honduras e não em outros países latino-americanos que lhes dão maiores dores de cabeça? A resposta passa pela análise de vários elementos imprescindíveis: o primeiro que podemos considerar é a história, a trajetória nas relações entre Honduras e USA; o segundo, os interesses geopolíticos e militares ianques, atualmente concentrados neste pequeno país da América Central; o terceiro, a correlação de forças dentro do cenário político hondurenho e quarto, a correlação de forças na cena política da América Latina e mundial.

Sobre o primeiro elemento, diremos que Honduras quebrou seu vínculo com a Espanha fazendo parte da República Federal Centro-Americana no século XIX, da qual logo se desgarrou. O alvorecer da República de Honduras foi marcado por um clima de permanente instabilidade política, como muitos países latino-americanos, nos quais a maioria de seus governantes foram militares. Durante esta época, Honduras também esteve marcada pela debilidade econômica, devido a oscilação dos preços de suas mercadorias principais, que naquele momento eram o café e o fumo.

O primeiro encontro, ou desencontro, com o USA ocorreu em 1860, num confronto com o flibusteiro1 William Walker, que chegou da Nicarágua após ser expulso desse país pertencente também a América Central — onde inclusive exerceu a posição de presidente. O choque com o governo hondurenho de José Santos Guardiola finalizou com a execução deste personagem.

No começo do século XX, a presença de companhias transnacionais ianques, geralmente comerciantes de frutas — em especial a banana — manietaram, influenciaram e dominaram as rédeas da política em Honduras, assim como as de outros países desta região, como Costa Rica e Guatemala, motivo pelo qual inventaram o ofensivo apelido de repúblicas bananeiras (banana republic). A principal companhia foi a United Fruit Co., a mesma que durante muitas décadas assumiu as principais decisões econômicas e políticas do país, introduzindo governos fantoches ou promovendo golpes de Estado em governantes pouco propensos a seguir suas determinações.

Os breves períodos em que haviam governos implantados através das eleições neste país foram caracterizados pela alternância de dois partidos principais, o liberal e o nacional. Os outros partidos tiveram um caráter muito periférico. Por isso, é necessário assinalar que Honduras passou por sua história republicana governada por militares, liberais ou nacionalistas, e por trás de todos eles sempre pairou, sem exceção, a mão do imperialismo ianque, que não teve nenhum inconveniente em amamentar caudilhos locais e militares de perfil corrupto.

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A presença militar do USA em Honduras foi descarada e evidente desde a década de 1980, quando uma base militar ianque é instalada em Palmerola,mais exatamente numa base nomeada Base Aérea José Enrique Soto Cano, situada em Comayagua, a antiga capital de Honduras, entre as cidades de Tegucigalpa — atual capital — e San Pedro Sula, a cidade mais industrializada e mais densamente povoada neste país da América Central.

É amplamente conhecido que esta base militar ianque está localizadanuma área de relevância estratégica na América Central. Tramaram, prepararam e executaram diversas campanhas contra as guerrilhas que durante a década de 1980 desencadearam lutas na Guatemala, em El Salvador e na Nicarágua. Desta base o USA enviou armas e paramilitares — os chamados contras — para sufocar as lutas armadas que começaram nos países mencionados.

Na mesma década de 1980, o governo hondurenho, sob a batuta ianque, paralelamente usou seu território como a base de apoio das ações de agressão imperialista na América Central, fez surgir um forte processo de ideologia reacionária, ao mesmo tempo se instaurou uma época de terror e perseguição a todos os militantes de esquerda, uma verdadeira caça às bruxas aos comunistas, socialistas e esquerdistas, com claro enraizamento macartista2, que foi vastamente difundido e fecundado no território hondurenho.

O segundo elemento da análise, com relação à importância geo-estratégica de Honduras, trata da presença permanente ianque na base militar de Soto Cano. Esta base cumpre um papel importante nas atividades repressivas e contra-subversivas conduzidas pelo país do norte e transferidas dessa base para El Salvador, Guatemala e Nicarágua.

Nos tempos atuais, a base militar do USA de Soto Cano mantém a importância de outros planos militares ianques: a Iniciativa Mérida e a IV Frota3, que há alguns meses tece como nova forma de ocupação e controle ianque do território latino-americano.

Em particular, a Iniciativa Mérida é focalizada no México e na América Central. Sua irrupção é justificada sob o surrado pretexto da luta contra a criminalidade e contra as drogas, porque nesta área há uma forte presença de cartéis narcotraficantes, como os temíveis bandos centro-americanos denominados "maras", o que é uma excelente fachada para que as tropas ianques se façam presentes nesta parte da América.

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Sobre o terceiro elemento de nossa análise, cabe mencionar que os processos de ideologia reacionária, o monopólio institucional de diversas repartições estatais por parte das forças políticas mais conservadoras e reacionárias de Honduras se assentam numa correlação das forças políticas equilibrada numa arena muito disputada entre as frações da burguesia hondurenha.

De fato, é importante lembrar que Manuel Zelaya vem das trincheiras do Partido Liberal, ao qual esteve ligado por mais de quatro décadas. Sua "inclinação repentina" ou a "virada" para a "esquerda" são dados de pouco tempo atrás — do final de 2007 a começos de 2008. Este giro foi expresso pela aproximação com o governo de Caracas, concretizado com adesão de Honduras, tanto à empresa Petrocaribe, como à Aliança Bolivariana das Américas (ALBA), integrada pelos conspícuos representantes do chamado "socialismo do século XXI": Cuba, Venezuela, Bolívia, Nicarágua e a República Dominicana.

Esta inédita política internacional hondurenha, vista de seu horizonte histórico conservador, não só causava irritação ao poder do USA, como também às classes dominantes de Honduras, incrustadas no Congresso, na Corte Suprema de Justiça, Promotoria Pública, Exército, incluindo o próprio clero hondurenho. Basta sinalizar que dias antes do 28 de junho, dia do golpe, Roberto Micheletti, uma vez correligionário e o companheiro de partido de Zelaya, já tinha anunciado a queda de Zelaya, após uma série de discussões que caracterizaram a relação dos últimos tempos entre o poder executivo e o legislativo. Esta situação se aprofundou quando Zelaya decidiu romper a tensão conflituosa entre o Congresso e a Presidência com uma consulta não vinculante relativa à necessidade da instauração de uma Assembléia Constituinte, denominada Quarta Urna.

Sem estrutura organizacional partidária que vincule Zelaya naturalmente ao povo, ele confiava numa série de medidas econômicas populistas que conquistou certa popularidade entre as massas; Zelaya se sentiu seguro para enfrentar os poderes Legislativo e Judiciário, bem como o Exército com o tema da Quarta Urna, que foi declarada inconstitucional pela Corte Suprema, razão pela qual o chefe do Exército, General Romeo Vásquez Velásquez, se recusou obedecer a ordem de viabilizar a consulta popular. Este fato atiçou a pugna entre frações que se beneficiaram no atual golpe de Estado em Honduras, com o apoio militar do exército hondurenho, historicamente servil ao império ianque. Para manter as formas pseudo-democráticas e constitucionais foi nomeado para a presidência da república hondurenha o presidente do Congresso Roberto Micheletti.

Quanto ao último elemento de nossa análise, sobre a correlação de forças políticas na América Latina e no mundo, um fato incontrastável é que todos os países latino-americanos se manifestaram contra e repudiaram o golpe de Estado em Honduras, aos quais se somaram as potências imperialistas como o USA — com uma sui generis e tardia declaração de Barack Obama na Rússia, onde disse que apoiava Zelaya, embora não estivesse de acordo com suas idéias, e a Espanha, que da boca para fora declarou que põe a disposição suas forças armadas para "recuperar a democracia" em Honduras.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) se pronunciou contra o golpe de Estado, enviou seu secretário geral Miguel Insulza a Honduras para entregar um ultimatum de 72 horas, que foi rejeitado pelo governo golpista de Micheletti. Por isso a Assembléia Geral, quase por unanimidade (exceto o voto de Honduras), expulsou o Estado hondurenho da OEA, até que Zelaya se restabeleça no governo.

De certa forma, esta determinação é uma obrigação para os Estados da América darem a aparência do cumprimento da chamada Carta Democrática da OEA, aprovada em 2001 em Lima, Peru. Ainda que se saiba que o acordo de defesa das democracias americanas está redigido claramente para combater um possível governo socialista ou comunista, que exija diante "da comunidade internacional" o reconhecimento do governo, a figura legal que agora o governo de Micheletti põe em jogo e que certamente esgotará ao máximo as futuras negociações que manteriam com Zelaya na Costa Rica.

Finalmente, é de grande utilidade atentar que o imperialismo ianque, na sua nova versão "Doutrina Obama", a fim de impor seus desígnios na América Latina, região a qual se agarra diante de suas desgraças e perdas de influência em outras regiões do mundo, renova uma velha figura golpista: o chamado "golpe institucional" ou "ditabranda" (eufemismo de ditadura), o golpe executado por um Poder do Estado sobre outro com a ajuda de militares, que já atestaram na história latino-americana durante a presidência de Juan Maria Bordaberry no Uruguai, na década de 70, para deter o avanço da guerrilha dos Tupamaros, ou no Peru com o golpe de Fujimori de 1992 para aplicar uma série de medidas contra-subversivas contra o Partido Comunista do Peru.


Notas
1 adj. e s.m. Pirata dos mares da América nos séc. XVII e XVIII. / Fig. Ladrão, aventureiro. (www.dicionariodoaurelio.com)
2 Corrente caracterizada pela perseguição de comunistas, o fim desta se deu através de uma série de ações persecutórias lideradas pelo senador ianque Raymond McCarthy durante a década de 50 do século XX, que para desfazer de seus inimigos ou de políticos ligados a causas sociais perseguiu insistentemente rotulando-os de comunistas, entre os perseguidos se encontrava o célebre ator de cinema Charles Chaplin.
3 Ver o artigo "Presença militar ianque na América Latina " na edição nº54 de A Nova Democracia.

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