Enfrentamentos políticos em Bagua

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Decorrido mais de um mês dos enfrentamentos entre policiais e indígenas awajún na localidade de Bagua — região amazônica no nordeste do Peru, bem perto da fronteira com Equador — há a necessidade de refletir sobre o ocorrido nos diversos planos, local, regional e internacional, porque a explosão deste fenômeno social, econômico e principalmente político, evidenciou uma síntese de uma série de processos que vêm sendo tecidos em diversas escalas geopolíticas.

Dentro do próprio Peru, os fatos de Bagua não devem ser vistos de maneira isolada, pois fazem parte de uma série de esforços pelo caminho democrático, que é o caminho dos povos para se recuperarem do bombardeio neoliberal dos anos noventa e que se impôs apesar de uma série de lutas e de resistências populares que a todo o momento foram silenciadas e invisibilizadas por uma imprensa peruana cada vez mais entregue, de corpo e alma, ao neoliberalismo.

Em que se diferencia a luta dos awajún das lutas da Frente Patriótica de Loreto da década de 1990, das revoltas em Arequipa no começo do século XXI, na defesa da eletricidade para a população, das lutas camponesas de Tambopata, Majaz, Yanacocha, Moquegua e de Puno diante do ataque mineiro-extrativista? Talvez em aspectos locais, as plataformas particulares da luta com maior ênfase em um ponto e noutro, mas coincidentemente, rondavam os assuntos da gerência de recursos naturais, o cuidado do meio-ambiente, esforçam-se pela participação das populações locais na distribuição das isenções ou rendimentos dos recursos naturais, mas principalmente pela luta contra o capitalismo e especificamente contra o "neoliberalismo", versão do capitalismo que é ainda a tendência principal no Peru.

O crescimento da economia peruana dos últimos anos alcançou as taxas mais elevadas na América Latina, e entre as mais elevadas do mundo. Esse crescimento vem se sustentando no paradigma extrativista, na velha lógica da exploração dos recursos naturais, acompanhada por uma parafernália discursiva tão apodrecida como a retórica do desenvolvimento, do progresso e da modernidade a partir da degradação da natureza. Esta lógica assentou as bases nos desastres ecológicos junto com a miséria humana, sabidos e estudados frequentemente na teoria econômica, através dos fenômenos rotulados com os nomes de "maldição dos recursos naturais" ou "doença holandesa".

As elevadas taxas migratórias da população de selva e das montanhas do Peru até a costa, em especial para Lima, a capital, bem como para outros países já servem de indicador para desmascarar a mentira das promessas desenvolvimentistas e do progresso que vêm como parte do pacote de predador do extrativista, junto com a contaminação das águas dos rios, fato irrefutável na localidade de La Oroya — na serra central peruana, que acabou de envenenar com chumbo o sangue dos habitantes dessa cidade, uma das mais contaminadas do mundo, além do monopólio dos recursos hídricos pela mineração no sul do Peru, que dizimou a agropecuária, o gado e os pastos em Puno.

Alan García Perez, ao ordenar a repressão em Bagua contra os índios awajún, ajustou uma linha de ação estrutural do Estado peruano e uma velha conduta pessoal. Manteve a velha estrutura aristocrática, de característica colonial ou de vice-reino, que despreza o povo indígena, que considera a selva e a montanha somente para serem exploradas e aproveitadas em benefício da centralidade limenha e dos intermináveis interesses transnacionais, nos marcos da velha xenofilia das classes dominantes peruanas, especialmente com os países do norte.

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Por outro lado, Alan García resolveu trazer à tona seu velho histórico genocida, sua aversão de classe e etnia pelos peruanos de pele morena, pelos filhos do povo, pelos povos indígenas da selva e da montanha, operários e camponeses, como eram as 300 vítimas do genocídio das prisões de El Frontón, Lurigancho e Santa Bárbara (El Callao), que mandou executar nos anos oitenta, feito que ainda permanece impune. Desta vez, o atual presidente tomou cuidado com o número de mortes, fazendo com que o número de vítimas indígenas fosse inferior às baixas da polícia, porque sabe muito bem o que implica ser acusado de genocida. A Associação Interétnica da Selva Peruana (AIDESEP) denuncia que há 60 índios desaparecidos, assim como existe a suspeita de que dezenas de corpos de índios foram atirados no rio Utcubamba; fato que se comprovado, nos faz pensar que pessoas acostumadas a extermínio em massa, realmente sabem muito bem como não deixar rastros e esconder num tempo hábil um grande número de corpos, sem nenhum escrúpulo.

Portanto, a frase de Alan García "primeiramente os índios não são cidadãos, não são melhores que os 28 milhões de peruanos", não passa de uma manipulação vulgar que arrasta determinado caráter do xenófobo anti-indígena, além de pretensioso, quando dá a entender que sua investidura presidencial lhe permite manipular o Estado peruano, como se tivesse uma carta branca para mandar e desmandar no território do Peru, prejudicando os ecossistemas, pondo em perigo a vida dos índios que habitam a área, não para o benefício dos 28 milhões de peruanos dos quais enche a boca para falar, mas para cumprir com todo rigor os desígnios do imperialismo impostos pelo Tratado de Livre Comércio com o USA.

O desatino ideológico, chamado por Alan García de "teoria do cão de verdureiro", vociferado por este há algum tempo, certamente era um indicador visível para perceber que a política econômica peruana estava partindo para enfatizar o perfil extrativista e depredador. Por essa razão, García lançou insultos e toda uma campanha de desprestígio contra os índios e os camponeses, usando o desgastado discurso positivista de modernidade, progresso e desenvolvimento, que nos agradando ou não, tem contribuído para transformar o planeta numa lixeira.

Para a América do Sul, os acontecimentos de Bagua passariam despercebidos se não fosse a série de manifestações populares de apoio aos povos awajún do nordeste peruano em várias capitais, o que provocou ainda mais as discussões entre os governos de Lima, La Paz e Caracas. Após Alan García ter acusado que o conflito em Bagua fora iniciado devido a interferência de Evo Morales e de Hugo Chávez em assuntos internos do Peru, tentando esconder uma década de resistências e lutas populares de organizações populares, regionais, camponesas e indígenas às quais estamos nos referindo, que, aliás, iniciara antes mesmo de García assumir a presidência, realizadas em defesa da soberania territorial peruana, da natureza, da sustentabilidade da vida humana, contra o neoliberalismo e principalmente do desenvolvimento do capitalismo.

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Sem pestanejar, Chávez e Evo, em seus histrionismos, habilidade e avidez habituais para chamar a atenção internacional, simulando ser paladinos do povo latino-americano, dos índios, defensores do planeta e com suas permanentes poses anti-imperialistas, não perdem a oportunidade — particularmente Morales — para provocar polêmicas diretas com o Alan García, dando uma pequena ajuda a seu semelhante ideológico neo-estatista no Peru, o ex-militar com antecedentes repressivos na luta contra-subversiva dos anos de 1980 e 90, Ollanta Humala, que pretende se candidatar às próximas eleições presidenciais no Peru.

Seria necessário lembrar a Chávez que ele da mesma forma mantém a lógica extrativista, exportadora de produtos derivados de petróleo, fornecedora de matéria-prima que viabiliza o desenvolvimento do capital, atividade que além de se desenvolver, contamina a Amazônia venezuelana e expulsa aos poucos os índios ianomami — ou o wajiros — que estão na Venezuela, para outros centros povoados. Assim como Evo Morales, que demagogicamente lança sua proposta para fazer uma declaração dos direitos da mãe terra, seria necessário interrogá-lo para saber o que ele faz para deter a contaminação do Aguarague, no Chaco boliviano, a contaminação de minério em Oruro e Potosí, por que incentiva a atividade extrativa e predadora no norte do estado de La Paz e no Mutún de Santa Cruz; o que ele faz para melhorar a vida dos índios ayllus de Oruro e de Potosí? Como apóia a sustentabilidade do povo Leco nas proximidades do parque de Madidi, bem como dos Guaraní, Weenhayek e Tapiete no Chaco boliviano?

Seria importante lembrar-lhes que tanto o neoliberalismo de Alan García, como o neo-estatismo de Chávez e de Morales são serviçais do capitalismo burocrático, colaboram com este sistema e o palavrório anti-imperialista concretamente não trouxe ainda nenhum risco a ninguém, muito menos ao USA.

Sem dúvida, a luta do povo awajún é um aprendizado importante para os povos oprimidos do mundo, uma verdadeira luta para defender a vida dos pobres, dos indígenas, pela sustentação dos ecossistemas naturais da floresta amazônica, que mantém uma ampla biodiversidade, pela defesa da natureza diante dos ataques do capitalismo mundial, que em sua voracidade consumista, não pára sua insaciável gana por captar mais e maiores recursos energéticos, petróleo, recursos florestais, não medindo que as reais proporções de sua lógica caótica de custo-benefício é letal para todo o planeta.

É necessário estabelecer que não existe a pretensão de associar os índios como defensores naturais do meio-ambiente, isso seria o mesmo que reproduzir um neo-racismo, um tipo de essencialismo que naturalizaria os indígenas, como fez Rousseau em sua época. Ao contrário, é preciso compreender a raiz política das ações dos awajún, que trata de uma verdadeira luta política para defender os ambientes naturais que possibilitam um determinado sistema da vida. Que embora mantenha relação com o mercado, tem ainda a capacidade de livrar-se da lógica depredadora do capital, porque não entrou na lógica do consumo insaciável que busca em perspectiva acabar com a natureza.

Desde então esta luta estritamente local se estende, alcança o plano de uma luta com importância planetária, que não se detém no histrionismo ecologista conservador, que busca somente a publicidade, mas que não vê o capitalismo como o sistema inspirador da devastação da natureza e fonte do aquecimento global do planeta, sobre o qual cacarejam até mesmo os adoradores do capital, como Al Gore, sem que dentro de seus planos esteja em questão o caráter destruidor do capitalismo, que é o miolo principal do ataque a esse sistema contra a natureza.

De fato, o que se sucedeu em Bagua, também pode ser visto nas florestas amazônicas equatorianas e brasileiras, algumas vezes manifestando frente a opinião pública e outras vezes lutas silenciadas por meios de comunicação servis aos interesses do capital. Também pode ser vista nos dias atuais na luta dos camponeses orurenhos e potosinos na Bolívia, apesar de Evo Morales; ou pelos camponeses chilenos que tentam parar a destruição de geleiras andinas por parte da mineração aurífera transnacional, assim como em muitos lugares da África, da Ásia, da Europa e da Oceania.

Por essa razão, deve-se enfatizar que esta luta não trata só de uma luta contra um modelo de capitalismo, como é o neoliberalismo, já decadente, mas, principalmente, é uma luta contra a desordem consumista e nociva que pode ser expressada tanto em sua versão neoliberal como neo-estatista.

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