Mais um dirigente camponês é assassinado no Pará

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No dia 15 de junho, Luiz Lopes de Barros, destacado dirigente camponês paraense, foi encontrado morto. De acordo com informações cedidas pela Liga dos Camponeses Pobres (LCP), ele foi assassinado no dia 12 e seu corpo foi encontrado três dias depois crivado de balas, sendo duas na cabeça.

http://www.anovademocracia.com.br/55/12a1.jpgLuiz Lopes era um filho legítimo daquelas terras pelas quais lutava, uma liderança popular muito conhecida na região por sua dedicação à organização e luta dos camponeses.

Nos anos 80 ele integrou a diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Conceição do Araguaia sustentando a bandeira de luta contra o latifúndio e, nesse mesmo período, participou da fundação do PT na cidade. Luiz desenvolvia uma atividade febril junto às massas trabalhadoras do sul do Pará, atuando em movimentos de bairros, como associação de moradores e coordenou a Feira dos Produtores onde os camponeses da região comercializavam sua produção.

Luiz Lopes foi um dos fundadores da Liga dos Camponeses Pobres do Pará e Tocantins em 2005. O surgimento da Liga significou um salto de qualidade do movimento camponês combativo na região, ampliando a mobilização das massas camponesas do sul do Pará.

O governo do Pará é um governo de tortura, que chama os trabalhadores de bandidos. A revista IstoÉ, sem apurar o que está se passando, também nos chama de bandidos. Eu sou um companheiro que se pode falar, tenho coragem. Tenho denunciado, tenho ido à Brasília, falado com repórteres, falado sobre nossa situação. Depois que a Ana Júlia (governadora do Pará) determinou aquela "paz no campo", que é a tortura no campo, já morreram mais de 10 companheiros. Muitos, além de serem torturados, foram perseguidos pela "justiça", e muitos ainda hoje são perseguidos.

Eu quero dizer o seguinte: temos que nos unir, camponeses e operários, e fazer a Revolução Agrária nesse país. Só assim conseguiremos os nossos direitos. Assim vamos vencer essa batalha.

Revolução agrária já!"

Fala de Luiz Lopes durante ato do 1º de maio classista de 2008 em São Paulo.

Terror no campo

Luiz Lopes de Barros foi um dos principais mobilizadores e organizadores da histórica tomada do latifúndio Forkilha pelos camponeses, que foram brutalmente reprimidos pela operação "Paz no Campo" desencadeada em 19 de novembro de 2007 pela governadora Ana Júlia (PT) com a finalidade de expulsar 1.100 famílias daquelas terras. [ver AND edição nº 39 de janeiro de 2008].

Durante essa que foi a maior operação militar contra a luta camponesa no Brasil desde a repressão contra a Guerrilha do Araguaia, as forças de repressão do velho Estado burguês-latifundiário prenderam e torturaram centenas de camponeses. E mais uma vez Luiz Lopes se colocou à frente da luta contra a criminalização do movimento camponês combativo participando de audiências públicas, denunciando a perseguição e ameaças a dirigentes e ativistas.

A tomada da Forkilha e a postura combativa da LCP frente às perseguições do latifúndio encorajou ainda mais as massas camponesas do sul do Pará, que desencadearam uma verdadeira onda de tomadas de terras. A cabeça de Luiz Lopes foi colocada a prêmio. Naquela ocasião, a Liga dos Camponeses Pobres denunciou que o latifúndio oferecia entre R$ 50 e R$ 55 mil pela morte do dirigente camponês.

Após a deflagração da operação "Paz no campo", 13 camponeses foram assassinados no sul do Pará. Luiz Lopes denunciou incansavelmente que havia uma lista de 17 camponeses marcados para morrer, inclusive ele próprio. O que se concretiza posteriormente à repressão sangrenta da Forkilha é uma sequência de mortes.

  1. Cícero - Assassinado na fazenda Santa Tereza (Redenção)
  2. "Barba" - Assassinado no mesmo ataque de pistoleiros contra o camponês Cícero.
  3. "Foguinho" - Era acampado da fazenda Forkilha. Assassinado em Redenção.
  4. Nivaldo - Mobilizador de famílias para a tomada da Forkilha. Assassinado em Redenção.
  5. De Assis - Foi acampado na fazenda Forkilha. Assassinado no Acampamento Nazaré, Conceição do Araguaia.
  6. Carlitão -  Acampado na fazenda Colorado do complexo Forkilha. Assassinado em Redenção.
  7. Rodolfo - Liderança do Acampamento da fazenda Vaca Branca. Assassinado em Redenção.
  8. José Ribamar -  Acampado da fazenda Vaca Branca. Assassinado em Redenção.
  9. Raimundo Pati -  Acampado da fazenda Vaca Branca. Assassinado em Redenção.
  10. Rivaldo -  Conhecida liderança camponesa de Cumaru do Norte e Redenção. Assassinado em Redenção.
  11. José Filho - Pequeno proprietário assassinado por grileiros em Redenção.
  12. Luiz – Acampado da Vaca Branca. Assassinado com 6 tiros em Redenção. O pistoleiro teve a ousadia de ir ao velório do camponês ameaçar seus familiares.

Luiz Lopes é o 13º nome dessa lista sinistra.

Morte anunciada

Nos últimos meses, Luiz Lopes empenhava-se na mobilização de famílias para uma nova tomada de terras e relatou aos seus companheiros que recebia ameaças constantes.

Outras contradições e cruzamentos de armações entre o Incra e o latifúndio denunciados pela LCP e organizações de defesa dos direitos do povo levantam evidências de que tramavam a morte do companheiro Luiz — declarou Ivan Duarte, ativista do movimento camponês em Redenção, Pará.

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No Pará, camponeses marcham pedindo justiça para os assassinos de Luiz Lopes

Relatos de camponeses contam que recentemente um representante do latifúndio teria telefonado para Luiz Lopes para negociar a desapropriação da área onde se encontra o acampamento Gabriel Pimenta (fruto de uma tomada de terras organizada pela LCP).

— Ele acionou o dispositivo viva-voz do celular e todos puderam ouvir o representante do latifundiário dizer: "vamos conversar com você, estão querendo que essa conversa seja feita aqui em Redenção, vocês podem vir para o hotel" — declarou Ivan Duarte.

Como esse tipo de decisão só poderia ser tomado no Incra, Luiz Lopes decidiu não ir à tal "conversa".

— Logo depois outro preposto do latifúndio telefona para o dirigente camponês e diz: "o Alex está aqui junto com o Batista, eles querem conversar com você sobre uma das fazendas que fazem parte do Gabriel Pimenta, e eles estão aqui no restaurante Panela de Barro..." — continuou Ivan, acrescentando — o Luiz retornou a ligação e colocou o telefone da sede da Liga no viva-voz. Ele respondeu de forma que todos os companheiros pudessem ouvir: "nossa conversa é no INCRA, fora isso não temos o que conversar. Se vocês quiserem discutir, negociar alguma coisa no INCRA nós estamos à disposição, se vocês não querem, não tem conversa".

Os latifundiários ainda tentaram aliciar outros camponeses com a proposta de indenizar os camponeses caso saíssem das terras.

Na terça-feira, dia 9 de junho, os representantes do latifúndio ligam novamente para Luiz Lopes e dizem que se não houvesse negociação, eles iriam decidir o que fazer e apenas comunicariam.

Na sexta-feira (12), o Luiz Lopes participou de uma Assembléia Popular na área Gabriel Pimenta. A Assembléia aprovou por unanimidade avançar com o Corte Popular e recusar a proposta de indenização para desocupação da área.

Terminada a Assembléia, Luiz Lopes leva uma companheira até Conceição do Araguaia e, quando está retornando, sofre uma emboscada e é assassinado.

Com a demora do seu retorno, um de seus filhos saiu à sua procura e encontrou seu corpo junto da motocicleta que lhe servia de transporte. Todos os seus pertences e documentos estavam intocados.

Camponeses de Conceição do Araguaia despedem-se do seu líder

No dia 22 de junho, os camponeses de Conceição do Araguaia, Redenção e região realizaram uma marcante homenagem ao líder camponês Luiz Lopes. Após a missa de 7º dia que lotou a Igreja Matriz de Conceição, os camponeses, representantes de sindicatos, estudantes e a população que conhecia e respeitava Luiz Lopes por sua dedicação à causa da Revolução Agrária entoavam palavras de ordem exigindo justiça. Na Feira Central de Conceição do Araguaia, onde ele trabalhou durante 14 anos, feirantes, camponeses, condutores de moto-taxi, motoristas, pequenos comerciantes e muitas pessoas que passavam pelo local aplaudiram a memória do líder camponês e expressaram sua revolta diante do seu assassinato.

A passeata foi encerrada diante da sede do Incra, onde os guardas e funcionários se atropelavam em correria apavorada perante a indignação das massas camponesas. Mais uma vez, esse órgão da falida ‘reforma’ agrária do velho Estado revelou seu papel de serviçal do latifúndio, negando-se a responder aos questionamentos dos camponeses.

Em nota de denúncia e protesto, a LCP do Pará e Tocantins reafirma e mantém erguida a bandeira de seu líder assassinado, assumindo o compromisso de levar adiante a sua luta: "A morte do companheiro Luiz Lopes foi por causa de sua luta em defesa dos camponeses, em defesa de um país sem latifúndio, por ele sempre ter se colocado à frente do combate às injustiças e barbaridades cometidas contra o povo. Sua morte não foi em vão, seu exemplo de dedicação será lembrado para sempre e a semente lançada por ele vingará e dará bons frutos".

A trama assassina do velho Estado

O Incra

O Instituto havia prometido a entrega de terras em troca da saída das famílias do acampamento Gabriel Pimenta, situado em uma das fazendas do complexo Forkilha. E mesmo essa promessa foi quebrada pelo Incra.

A Pistolagem

Um agente do latifúndio identificado pelos camponeses como "Rubão" teria ameaçado Luiz Lopes caso as famílias não saíssem da Forkilha.

O latifúndio

O Grupo Tortura Nunca Mais — RJ, publicou em sua página na internet que "no dia anterior (à morte de Luiz Lopes), um pistoleiro foi à casa de uma ativista da LCP e ameaçou a ela e a Luiz. "Vocês ganharam um prêmio e vocês vão receber ele essa semana", teria dito o pistoleiro, conhecido por trabalhar para o latifundiário José Hernandez. Luiz era a principal testemunha de acusação contra Hernandez, acusado de ser o mandante do assassinato de outro camponês, De Assis, liderança do assentamento Nazaré".

Vivos na memória do povo

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Gabriel Pimenta, morto em 1982
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Paulo Fontelenes, morto em 1987

Os meses de junho e julho são lembrados com pesar e ódio de classe pelos camponeses pobres do Pará. São meses em que tombaram na luta três dos seus maiores defensores e representantes. Há 27 anos, Gabriel Pimenta, advogado dos camponeses pobres do sul do Pará foi covardemente assassinado pelas costas, aos 27 anos, em 18 de julho de 1982.Há 22 anos, em 17 de junho de 1987, tombou em pleno ofício o advogado e ex-deputado estadual Paulo Fonteles, executado a mando do latifúndio por sua luta em defesa dos camponeses pobres e posseiros do sul e sudeste do Pará. Soma-se a eles no lugar reservado aos heróis do povo do Pará o dirigente camponês Luiz Lopes de Barros.

Pistolagem: o velho Estado armado contra o povo

A pistolagem é uma política corrente do velho Estado para aplacar o movimento camponês. O monopólio dos meios de comunicação, em sua linha editorial encomendada pelo imperialismo, pela grande burguesia e pelo latifúndio, tenta a todo custo descaracterizar os bandos de pistoleiros do latifúndio semifeudal, imputando-lhes a condição de "seguranças privados", "funcionários dos fazendeiros", ou outra terminologia qualquer.

Os números de mortes de camponeses em conflitos pela posse da terra são alarmantes e são a prova documental da política genocida levada a cabo pela gerência de turno contra os pobres do campo.

Já em abril último a Comissão Pastoral da Terra denunciou que o número de assassinatos no campo cresceu 80% na região norte do país, sendo que 72% dos assassinatos de camponeses ocorreram na região amazônica e 46% apenas no estado do Pará.

Isso, tratando apenas de dados oficiais, sem levar em conta os inúmeros "desaparecidos" e assassinatos no campo não registrados diariamente em todo o país.

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