O capital e o ataque aos índios das Américas

A- A A+

A invasão das Américas, nos séculos 15 e 16, envolveu grupos poderosos de vários pontos da Europa. As navegações, na verdade, não foram bancadas apenas pelos reis espanhóis e portugueses e sim também pelas classes ricas de comerciantes, empresários e financistas europeus, com total respaldo da Igreja.

http://www.anovademocracia.com.br/56/20a-1.jpg
Rosana Bond em Machu-picchu

O saque do território americano, por tais grupos de poder, é que ajudou a gerar o capitalismo. A América e suas nações indígenas foram invadidas, conquistadas e colonizadas dentro do processo de expansão do capitalismo comercial, o chamado mercantilismo. O roubo das riquezas do Novo Mundo (incluindo a escravização da mão de obra índia) foi o fator mais importante para a acumulação de capitais pela Europa, possibilitando o primeiro passo para o surgimento de uma nova etapa na economia mundial, a chamada revolução industrial. Isto é, o capitalismo moderno.

Tais fatos estão incluídos no novo livro publicado pela Editora Aimberê, História do Caminho de Peabiru – Descobertas e segredos da rota indígena que ligava o Atlântico ao Pacífico, de Rosana Bond.

A obra, resultado de 14 anos de pesquisas da jornalista, já foi lançada em Florianópolis (SC) e será apresentada no Rio de Janeiro, com mesas-redondas da autora e a equipe de AND e Aimberê, nos dias 21, 22 e 23 de setembro. Os locais e horários serão divulgados em breve.

Rosana diz no livro que o capitalismo moderno, em sua etapa atual de imperialismo, em fase de decomposição, é "herdeiro" daquele que invadiu a América e massacrou seus povos originários. "Este sistema, que desde sempre aplica o lema de Robin Wood ao contrário (tira dos pobres e dá aos ricos), que é o maior responsável pela fome e doenças de milhões de pessoas, além da tão falada crise ambiental de hoje, ligada à poluição das águas e aquecimento do clima, é ‘filho’ e herdeiro daquele outro. Daquele sistema que, a partir do século 15, provocou o desastre da civilização indígena americana" – afirma.

Conhecimentos avançados

Conforme a obra da jornalista os europeus, ao invadirem a América, encontraram o imenso território já civilizado, ao contrário do que comumente diz a História "oficial", escrita pelas classes dominantes.

A civilização americana era representada por centenas de nações indígenas, com características diversas, fecundas e valiosas por igual. Em selvas, montanhas, campos, geleiras, pântanos e litorais estavam os incas do Peru; astecas do México; tupis e jês do Brasil; chibchas da Colômbia; maias-quichês do México e Guatemala; guaranis do Brasil, Paraguai, Bolívia e Argentina; mapuches do Chile; sioux e apaches dos Estados Unidos, e muitos outros.

"Uma civilização notável" – diz o livro.

E destaca: "Civilização autora do mais perfeito calendário da humanidade, não ultrapassado até hoje (maias). Detentora do mais vasto conhecimento de medicina fitoterápica no mundo (tupis e guaranis). Conhecedora do avançado conceito matemático do zero (olmecas e astecas), que segundo Jean Marcilly, na América ocorreu mil anos mais cedo do que no Egito, Índia e Europa. Descobridora da relevância das chamadas manchas claras e escuras da Via Láctea para o saber astronômico (guaranis e incas). Possuidora de irrigação artificial e técnicas de recuperação de desertos (chimus). De engenharia única para a construção de cidades flutuantes (urus)."

E prossegue: "Civilização que foi uma das idealizadoras do conceito arquitetônico de apartamentos (índios chacos) possuindo um conjunto deles em Pueblo Bonito, Novo México, uma espécie de "condomínio" planejado indígena, que foi o maior do USA até o século 19, só superado quando os brancos construíram um grande, em Nova York. Descobridora do efeito das lunações sobre as marés, que o europeu Isaac Newton só foi constatar muito mais tarde, em 1687 (tupis e guaranis). Praticante de cirurgia cerebral; mumificação equivalente à egípcia; arquitetura peculiar contra terremotos; técnicas de estatística avançadas, não praticadas na Europa; sistema eficiente e veloz de correios, desconhecido pelos europeus; extensa rede de estradas, no ocidente só comparável à do império romano, embora superior a esta por percorrer altitudes acima de 3 mil metros e por possuir canaletas de água potável e fresca, bem como árvores frutíferas, nas laterais (incas)."

Injúrias aos povos

"Uma civilização notável, essa do índio da América, sem dúvida" – ressalta a jornalista. "Mas ao invadirem o território, a partir de Cristóvão Colombo em 1492, as classes ricas européias obviamente não levaram nada disso em conta".

Conforme o livro, para justificar a pilhagem da nova terra, os invasores preferiram injuriar e desclassificar os povos originários. Colombo mandou carta aos monarcas de Espanha dizendo que os índios eram gente ignorante e primitiva, "não têm armas e são desnudos (...) muito covardes (...) e assim são bons para se mandar neles e fazê-los trabalhar".

Não faltaram também cínicas afirmações de que a terra não pertencia aos nativos e que seus chefes eram "ilegítimos".

Em 1553, por exemplo, Ruy González, cúmplice de Hernán Cortez na invasão do México, enviou carta ao rei espanhol Carlos V, na qual dizia que "Montezuma, o senhor que encontramos aqui, não era senhor legítimo". Em 1571, o odioso Parecer de Yucay, documento escrito por um padre dominicano espanhol, declarava (entre vários menosprezos aos nativos) que os incas não tinham direitos para governar o Peru.

No Brasil, por sua vez, os padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, diziam que os índios viviam "sob a tirania do demônio".

Segundo Rosana Bond, no caso brasileiro, ainda hoje é difícil avaliar exatamente o massacre cultural e demográfico dos povos originários que a invasão portuguesa provocou. Na obra, ela cita o historiador Pedro Paulo Funari e o arqueólogo Francisco Noelli:

"Aryon Rodrigues, um grande especialista em línguas indígenas (...) propôs uma estimativa sobre a quantidade de línguas faladas por povos diferentes no território brasileiro (...) A projeção alcançada foi da ordem de 1200 línguas no início do século XVI.

(...)Nos séculos seguintes à chegada de Cabral, teria havido uma drástica redução das línguas indígenas no Brasil, principalmente em virtude da morte de muitos milhões de pessoas, na ordem de mais de 80%, uma perda incomensurável de diversidade cultural.

Em termos demográficos, isso significa uma triste conta ainda a ser feita, esperando por pesquisas que possam revelar a dimensão do genocídio indígena".

Estradas impressionantes

Afirma a jornalista que ao pisarem no Novo Mundo, as hordas de aventureiros espanhóis e portugueses, mais tarde acrescidos de franceses, holandeses e ingleses (a maioria empregados da nobreza, dos empresários ricos e da Igreja; mercenários, piratas e presos tirados das cadeias), tinham como única intenção a pilhagem.

"Com tal meta, foram investigando a geografia e um dos primeiros fatos que descobriram foi que a costa marítima da nova terra, de norte a sul, do Canadá ao Uruguai, era dotada de caminhos. Mais tarde verificaram que esses existiam também no interior, cruzando o território em todas as direções" – diz ela.

http://www.anovademocracia.com.br/56/20a-2.jpg
Ilustração do livro - Arquitetura de apartamentos, índios chacos

Alguns deles eram simples trilhas, provavelmente originadas por animais em busca de alimento e água, que foram reaproveitadas pelos índios para seu uso. Outros eram verdadeiras estradas, com pavimento e recursos sofisticados, que causaram impacto nos invasores.

Na América do Norte, notáveis vias de comunicação indígena existiam no México. E eram antiquíssimas. Entre 1200 a.C. e 400 a.C. , muito antes das famosas estradas astecas, o povo olmeca da área central do golfo do México (Vera Cruz, Tabasco e San Lorenzo) abriu uma ampla rede, com aproximadamente 1.600 km (somente a linha norte-sul, sem incluir as demais).

Séculos mais tarde, a nação asteca instituiu uma estrada conhecida como Pochteca. Esta via, que nas redondezas da capital Tenochtitlán era calçada, ia ao leste, oeste, norte e também ao sul até Chiapas, fronteira com a Guatemala.

Na América do Sul, as mais citadas nos relatos dos conquistadores foram as impressionantes estradas incas. No eixo principal, sul-norte, eram 16.000 quilômetros entre Chile, Peru, Equador e Colômbia. Nos secundários, outros milhares rumo ao oceano Pacífico e também à Argentina e Bolívia, somando cerca de 40.000 quilômetros, segundo algumas fontes.

"Os predicados técnicos e a enormidade dessas vias eram tais, que os invasores, acostumados a denegrir os povos nativos da América, se viram forçados a reconhecer a maravilha que encontraram" – afirma Rosana.

Foi aí, observa ela, que a crônica espanhola da conquista, que chegou a definir o Peru dos incas como lugar onde se "come carne humana" e se "vive como animais", caiu numa de suas mais notórias contradições. E acabou tendo que admitir que aquela nação indígena possuía "a mais grandiosa estrada do mundo".

Conforme a jornalista, "pode-se dizer que o chamado Caminho de Peabiru, que partia do litoral de Santa Catarina, Paraná e S. Paulo, de algum modo participou da grandiosidade da obra incaica. Pois é possível notar, em mapas, que seu trajeto brasileiro e paraguaio parece ‘emendar-se’ com a estrada dos andinos, da Bolívia em diante".

Diz o livro que, somando-se os trajetos, isso resultaria na mais marcante característica do Peabiru, que é a de ser tido como a mais importante (e longa) via transoceânica do continente sul-americano antes de Colombo, como registrou o geógrafo Reinhard Maack, na década de 1950.

Os capitalistas enchem seus cofres

No século 15, quando começou a invasão da América, as coroas de Espanha e Portugal estavam atoladas em dívidas, não tinham todo o dinheiro necessário para colocar suas caravelas ao mar, e assim tiveram que contrair empréstimos com bancos. Ou aceitar a parceria com os próprios banqueiros e outros homens de negócio, nas navegações ao Novo Mundo, dividindo os lucros.

Sobre isso, a obra de Rosana Bond reproduz trechos de Leo Huberman, professor da Universidade de Colúmbia (USA), falecido em 1968:

"Os livros de História discorrem longamente sobre as ambições, conquistas e guerras deste ou daquele grande rei. É um erro a ênfase que dão a tais fatos. As páginas que consagram à história desses reis deveriam antes ser dedicadas aos poderes verdadeiros que se escondiam atrás dos tronos – os ricos mercadores e financistas da época.

(...)Pouca coisa de importância se passou no século XVI, sem que a sombra dos Fuggers (Obs: Grande casa bancária, dirigida pelo banqueiro alemão Jacob Fugger) se projetasse de uma forma ou de outra. Emprestavam capital a outros mercadores, a reis e príncipes e, em troca, recebiam proventos de minas, de especulações comerciais, de terras da coroa, de praticamente todo tipo de empreendimento que desse lucro.

(...) Até o papa devia dinheiro aos Fuggers. O balancete dos Fuggers, em 1546, mostra débitos do imperador alemão, da cidade de Antuérpia, dos reis da Inglaterra e Portugal e da rainha da Holanda.

Embora constituíssem a casa bancária mais importante da época, havia muitas outras quase tão grandes. A Welser, outra casa bancária alemã, prestou um auxílio a Carlos V de nada menos de 143 mil florins; também ela fazia grandes investimentos em empresas comerciais, minas e terras. A Hochstetter, a Haug e a Imhof realizavam mais ou menos a mesma espécie de negócios comerciais e financeiros. Entre os financistas italianos desse período, os Frescobaldi, os Gualterotti e os Strozzi começavam a agigantar-se".

Segundo a jornalista, outra família que esteve envolvida com a espoliação dos homens e das riquezas da América foi a da realeza de Mônaco, os Grimaldi.

"Os milionários Grimaldi, que hoje promovem corridas de Fórmula-1 e à qual pertencem os nomes famosos do príncipe Rainier, da ex-atriz Grace Kelly e das princesas Caroline e Stéfanie, mantiveram negócios com Carlos V, da Espanha, desde 1525. Uma parte da prata e do ouro saqueados dos incas e dos astecas ficou com eles" – informa.

Por último, mas não menos importante, houve a Igreja Católica. Diz o livro: "Irmã siamesa de várias monarquias européias, a Igreja colocou a cruz cristã ao lado das espadas dos invasores, ficando também com ouro, prata e uma enormidade de terras usurpadas dos nativos da América".

As cidades interessadas em promover palestras/lançamentos do livro, favor fazer contato com a Editora Aimberê/Jornal A Nova Democracia, através dos telefones: (21) 2256-6303 ou 2547-9385. Correio eletrônico: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Aquisições de exemplares, com remessas por correio: mesmos fones e endereço eletrônico acima.

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja