Significado histórico e a atualidade do movimento sindical

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À memória de Sesnando Alves de Brito, incansável combatente da classe e grande companheiro de lutas, falecido em abril deste ano.

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Cartaz histórico da greve dos metalúrgicos da Mannesman em 1979
arquivo Liga Operária

1979 ficou marcado como o ano das greves no Brasil. Fato desconhecido de muitos é que este ano também foi um marco na luta entre dois caminhos no movimento sindical brasileiro, marcado por ziguezagues na linha das diferentes correntes da esquerda brasileira. Recentemente o êxito eleitoral do oportunismo fez cair por completo todo o véu de combatividade e de novo sindicalismo surgido com a CUT, anos a fio propalado por seus defensores, hoje encastelados no velho Estado reacionário.

Os holofotes do monopólio de imprensa, desde o ABC paulista, projetaram ninguém mais ninguém menos que Luiz Inácio da Silva, sindicalista saído diretamente dos centros de formação ianques da Ciols para a direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. No mesmo período, em Minas Gerais, mais de 400 mil trabalhadores, entre operários, profissionais liberais, professores e trabalhadores de diversos outros setores, erguiam-se em um turbilhão de greves combativas, enfrentamentos com a gendarmaria militar, exigindo salário, melhores condições de trabalho, liberdade para os presos políticos e contra o regime militar-fascista.

Dois caminhos opostos, que ao longo de um complicado e tormentoso processo foram deslindando campos. Embora já na retomada do movimento sindical ao nível nacional (CONCLAT) se conformaram dois grandes grupos (CGT e CUT) e a luta entre os dois caminhos no movimento sindical se travou por longos anos no interior destas centrais, com novas divisões e reaproximações. A CUT, impulsionada pela ideologia eclética do liberalismo radical pequeno-burguês do Partido dos Trabalhadores – PT, chegou ao seu completo apodrecimento como parte do gerenciamento de turno do velho Estado. Dela ainda desprendeu-se a atual centrista Conlutas (PSTU/PSOL) e mais recentemente a governista CTB (PCdoB). A CGT, como um aglomerado de correntes, principalmente reformistas, fragmentou-se originando a Força Sindical — FS, a SDS, a UGT e a CGTB, que por final aderiram ao governismo petista sendo premiadas com sua legalização e farta verba do famigerado imposto sindical. Este é o campo que hoje marcha unido como força auxiliar e legitimadora da política de corte de direitos praticada pelo gerenciamento petista. À exceção da Conlutas que, como força centrista, na disputa por arregimentar forças, concilia com o governismo. Agora mesmo, no dia 14 de agosto, a propósito de um dia nacional de protestos, todo este campo marchou unido para encenar a defesa dos direitos dos trabalhadores enquanto os apunhalam pelas costas colaborando e apoiando o governo.

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Orocílio,tratorista assassinado

O outro caminho, cheio de percalços, tem sido percorrido por pequenos grupos ainda atomizados que somente um auge futuro de massivas lutas operárias os reunirá numa só organização sindical. Destes, um mais coeso grupo de trabalhadores originados nas greves de Minas Gerais, há mais de 15 anos, conduziu à retomada do movimento sindical classista e combativo com a conformação da Liga Operária. 

Cofres capitalistas cheios, bolsos operários vazios

Minas Gerais se desenvolveu industrialmente graças à política vende-pátria do gerenciamento militar. Seguindo a mesma lei da sangria com que os veios auríferos e do minério de ferro das terras de Minas foram e continuam sendo esgotados para o enriquecimento das potências, partindo da base existente de grandes siderúrgicas/metalúrgicas transnacionais como Mannesman e Belgo Mineira, e a estatal Usiminas, a implantação das fábricas de eletroeletrônica, da montadora italiana FIAT e a siderúrgica estatal Açominas, a partir de meados dos anos de 1970, se deram do mesmo modo, com a completa subordinação dos interesses nacionais ao capital estrangeiro imperialista.

A FIAT foi instalada no município de Betim, região metropolitana de Belo Horizonte, durante a gerência do governador Rondon Pacheco. Antes mesmo de assumir o governo, ele foi até a Itália conferenciar com Giovanni Agnelli, presidente da FIAT, em Turim. As negociações culminaram com a assinatura, em 14 de março de 1973, do "Acordo de Comunhão de Interesses para a implantação de uma indústria automobilística em Betim, Minas Gerais".

Mas a "comunhão de interesses" significava, na prática, a subordinação aos interesses da montadora, que vieram sob a forma de isenção fiscal, exploração da força de trabalho à paga de salários miseráveis, a doação do terreno para a construção das instalações, entre outras benesses.

Também nos anos de 1970 as maiores indústrias da região, como a siderúrgica/metalúrgica Mannesman e a Belgo Mineira, no município industrial de Contagem, iniciam a modernização das antigas instalações do maquinário, ampliando exponencialmente o ritmo da produção e o nível de exploração dos operários.

Irrompem as greves

As greves em Minas Gerais têm início ainda em 1978 com as paralisações dos metalúrgicos de João Monlevade no Vale do Aço e da FIAT em Betim. Essas duas greves operárias tiveram caráter de massas e organização espontânea dos trabalhadores, expressando o nível exacerbado de descontentamento nos meios operários.

Novas explosões de massas surgiram em todo o estado, contando com a decisiva atuação de organizações revolucionárias empenhadas na construção de núcleos e comissões clandestinas que desenvolviam um febril trabalho de formação, organização e mobilização da classe.

O gerenciamento militar já apresentava claras demonstrações das dificuldades em seguir oprimindo as massas através do fascismo aberto e ensaiava os primeiros passos da chamada 'distensão'. Mas isso não significava uma perseguição menor das lideranças combativas das massas e dos partidos e organizações revolucionárias que, na clandestinidade, lutavam pela derrubada do regime.

Daí a grande importância das greves de 1979 que, em pleno gerenciamento militar, mobilizaram centenas de milhares de trabalhadores. Notícias veiculadas nos jornais da época — e não foram poucas as vezes que as greves e protestos ocuparam as manchetes dos principais jornais e revistas — contabilizavam que aproximadamente 400 mil trabalhadores aderiram às greves em Minas Gerais. Metalúrgicos, operários da construção civil e construção pesada, motoristas e cobradores de ônibus, comerciários, funcionários de hospitais, bancários, professores públicos e privados. O ambiente destas greves se mesclava com as irrupções de greves e manifestações de estudantes universitários.

Dentre as principais greves do histórico ano de 1979, em Minas, destacam-se a greve da Mannesman, dos operários da construção civil e da FIAT.

Na noite de 22 de maio, na cidade industrial de Contagem-MG, uma assembléia de milhares de operários da Mannesman tomara o sindicato de assalto deflagrando a greve e controlando completamente a fábrica por 8 dias. Os operários, organizados em comissões, não permitiram a entrada nas suas instalações de nenhum diretor, gerente ou chefe. Somente ingressaram no interior da fábrica os grupos de operários organizados para controlar os alto-fornos e áreas estratégicas como o gasômetro da fábrica, para prevenir-se de provocações e sabotagens destinadas a incriminar os grevistas. A greve da Mannesman, segundo seus dirigentes, havia sido preparada ao longo de meses e tanto pelo seu nível de organização e combatividade, quanto pelo seu conteúdo político explícito na posição de suas lideranças, significou um salto de qualidade no movimento operário.

A organização e disciplina das massas paralisaram por completo a ação da repressão, que teve que manter-se à distância. Foram 8 dias em que os operários ficaram concentrados nas seis portarias dia e noite, recebendo apoio das comissões de trabalho externo, de suas famílias e da população dos arredores que traziam água, comida, cobertores e outros utensílios. Ademais das reivindicações econômicas de 20% de aumento salarial e fim do regime de revezamento conhecido por ‘7 letras’, foram levantadas bandeiras políticas, em que, nas assembléias diárias e na massiva passeata ao fim da greve triunfante em suas reivindicações econômicas, os operários fizeram coro às consignas de liberdade para os presos políticos e pela derrubada do regime militar.

Em junho, eclodiu a greve dos motoristas e cobradores do transporte coletivo na região metropolitana de BH. E já no dia 30 de julho, com a deflagração da greve dos operários da construção civil da região metropolitana que ficou conhecida como "Rebelião dos Pedreiros", a combativa greve contou com a adesão de mais de 30 mil trabalhadores. No primeiro dia de protestos o operário Orocílio Martins Gonçalves, tratorista de uma empreiteira da Mannesman, foi assassinado com vários tiros no peito pela tropa de choque da Polícia Militar. O covarde assassinato só fez aumentar a fúria da massa operária que, com sua massividade e combatividade, varreu o aparato repressivo do Estado e, por 4 dias, tomou conta do Centro de Belo Horizonte.

Em setembro, a greve dos operários da FIAT, marcada por protestos e o assassinato do operário Guido Leão, atropelado por uma viatura da PM quando seu grupo de piquetes recuava diante de um ataque da cavalaria durante um confronto entre operários e policiais.

A característica comum destas greves foi a de que todas ocorreram passando por cima dos respectivos sindicatos. E mesmo no caso das que, após a direção sindical tentar impedir sua eclosão e não conseguiram, assumiram-nas tentando manobrar, ou não tiveram qualquer papel ou conseguiram sabotá-la. Tal situação dependia exclusivamente do nível de organização que os operários obtiveram na liderança do movimento. Tal foi o caso da greve dos motoristas, cobradores e dos operários da construção. Nesta, além do pelego Francisco Pizarro, presidente do sindicato nomeado pelo Ministério do Trabalho do regime militar, atuou o grupo organizado por João Paulo Pires, do sindicato metalúrgico de João Monlevade, Dídimo de Paiva, dos jornalistas, Arlindo, dos bancários (articuladores em MG da proposta de fundar o PT), que trouxeram Luiz Inácio de São Paulo para atuarem como bombeiros ao lado de Pizarro, que através da chantagem, do terror e amedrontamento, impuseram a aceitação da proposta do tribunal do trabalho.

O fruto da luta classista

O resultado da luta classista das greves de 1979 foi a intensificação da luta política na organização dos trabalhadores.

Após as greves de 1979 os operários mais combativos lutaram anos por uma direção nova nos sindicatos. Nos metalúrgicos, a propaganda do monopólio de imprensa, que temia pelo fortalecimento de qualquer liderança comunista no movimento sindical, projetou Luiz Inácio e seus seguidores. Esta influência, hoje confirmada, foi nefasta para toda a classe operária. Estes fatores, combinados com seguidos erros cometidos pelas organizações revolucionárias, de dentro e fora da CUT, favoreceram ao fortalecimento de uma direita neopelega que em alguns anos se assenhoreou dos maiores e principais sindicatos do país, ao tempo que uma direita tradicional consolidou seu controle mafioso no maior sindicato, o dos metalúrgicos de São Paulo, levando a praticamente completa liquidação de uma oposição organizada.

Em Minas Gerais, os aventureiros da CUT que assumiram o Sindicato dos Metalúrgicos de BH/Contagem foram rendendo-se um a um à linha cutista. A greve de ocupação da Mannesman de 1999, promovida no afã de uma certeira vitória eleitoral do PT, foi um grande fracasso, que, apesar da disposição de luta dos operários, sofreu duros revezes e levaram a um profundo abatimento das massas. Estas posições, baseadas na verborragia radical e no aventureirismo, na prática rapidamente deram lugar à linha oportunista no extremo oposto que já há muito tempo passara a vigorar como hegemônica na CUT. Situação similar ocorreu também em Betim no Sindicato dos Metalúrgicos.

Os operários e operárias surgidos destas grandes greves seguiram aglutinando-se no Movimento Marreta, através da organização de lutas em bairros e fábricas, e em 1988, organizados na Marreta, ocuparam o Sindicato dos Trabalhadores da Construção de BH e Região, expulsaram a diretoria pelega, organizaram e venceram as eleições para a direção do sindicato com o apoio das massas.

O mesmo se deu com o Sindicato dos Rodoviários, um ano depois, que também foi retomado pela linha combativa. Todas essas posições mais combativas e radicais, ainda articuladas ao nível nacional na CGT, impuseram, em 1989, uma ruptura interna e em 1995 realizaram um profundo balanço autocrítico da prática indo até ao fundo na cisão completa com todo o oportunismo, rompendo definitivamente com o sindicalismo de Estado. Este processo deu origem à Liga Operária, vertebrada numa linha classista, combativa e independente.

O intenso trabalho dos círculos operários organizados nos bairros, dos operários da Marreta, que se empenharam na construção dos grupos de base da Liga Operária nos locais de trabalho, a luta classista dos trabalhadores rodoviários de Belo Horizonte e Região, somado às lutas combativas da classe como as históricas e combativas lutas contra as privatizações da Usiminas e Açominas, no Movimento Unificado dos Trabalhadores em Transportes que resultou em uma combativa paralisação nacional em 1997, entre outros, contribuíram para o salto qualitativo da organização classista dos trabalhadores.

Apenas um ano após o seu surgimento, em 1996, a Liga Operária teve participação decisiva no apoio aos camponeses de Corumbiara que haviam tomado a fazenda Santa Elina e resistiram bravamente ao massacre planificado pela Polícia Militar e bandos de pistoleiros a serviço dos latifundiários. Logo um apoio decisivo à uma importante tomada de terras urbanas em BH. Em março de 1996, as famílias, organizadas no movimento Luta Pela Moradia, tomaram um terreno da prefeitura de Belo Horizonte (PT), enfrentando forte repressão policial e que resultou em uma grande vitória das massas oprimidas e exploradas.

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Operários da construção civil marcham pelas ruas de Belo Horizonte em 1979

Todo esse acúmulo de lutas combativas dos trabalhadores culminou no primeiro Congresso da Liga Operária, realizado em março de 97, com o qual se estabeleceu os pilares de sua organização na luta classista e combativa, realizou e consolidou um profundo balanço do movimento operário sindical no país e estabeleceu as bases para o programa geral da luta de libertação social e nacional da classe operária e demais massas populares, apontando a aliança operário-camponesa como problema estratégico para sua completa realização.

No decorrer dos últimos 12 anos após a realização do seu 1º Congresso, a Liga Operária realizou outros dois congressos, estendeu sua organização e construiu núcleos em outras regiões do país, tendo participação ativa na defesa da histórica resistência da Vila Bandeira Vermelha, em Betim, no ano de 1999, quando tornou-se internacionalmente conhecida devido aos ataques histéricos da reação contra sua postura de defesa irredutível da resistência das massas do campo e cidade. 

A ofensiva do colaboracionismo tem sido nefanda para a classe operária. O movimento sindical chegou ao fundo do poço em seu processo de apodrecimento, transformou-se numa organização de tipo mafiosa, num balcão de negócios e todo tipo de práticas corruptas e degeneradas. O próprio Sindicato dos Rodoviários de BH, que por muitos anos foi porta voz de posições classistas combativas ao lado da Liga Operária, sofreu grande golpe com a passagem da maioria de sua direção para o pântano, filiando-se na Nova Central. O PT, a CUT e o senhor Luiz Inácio tem grande responsabilidade em todo este processo. A cobrança virá mais tarde e vai ser muito radical.

O chamamento da Liga Operária a todos os ativistas combativos a romperem com as centrais colaboracionistas e pela intensificação da propaganda da greve geral contra as "reformas" anti-operárias, anti-povo e anti-nação, tem ecoado cada vez mais. A luta no movimento sindical vai se acirrar com o agravamento da crise mundial e seus reflexos no país, que estão sendo maquiados e lançados à frente pelo oportunismo eleitoreiro. Mais tempo, menos tempo, vão explodir lutas tais como, e provavelmente mais radicalizadas, as grandes greves de 1979. Mas elas terão a mesma característica daquelas, vão passar por fora dos sindicatos, contra as atuais direções pelegas e neopelegas. O jovem proletariado brasileiro, como no resto do mundo, já está buscando novos caminhos, novas formas de luta e de organização. As bandeiras da Liga Operária e seu Programa se baseiam na defesa inflexível dos interesses imediatos e estratégicos da classe operária.

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* Gerson Guedes Lima, dirigente da Liga Operária, em 1979 era funcionário da Fiat Automóveis e foi demitido em função de sua participação no movimento grevista.

O ABC das greves e a cartilha da conciliação de Luiz Inácio

Em 1979, o ABC paulista, região que compreende as cidades de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, era tomado por centenas de milhares de operários em greve. Assembléias massivas e lutas combativas explodiram no principal centro industrial do país.

Paulo Maluf, então à frente do executivo do estado, reprimia com violência todo o movimento popular e eram constantes as prisões de grevistas e lutadores populares. No seio do movimento operário havia a presença de diversos partidos e organizações revolucionárias, que se opunham ao regime militar e tinham maior expressão entre os operários no movimento de oposição sindical metalúrgica de São Paulo. Mesmo entre essas organizações clandestinas, haviam oportunistas que já advogavam a conciliação de classes hoje abraçada pela CUT, Força Sindical e suas irmãs menores. Fábricas diferentes possuíam direções diversas e as lutas comuns eram acertadas em reuniões dos "comandos" compostos pelas diversas correntes. No entanto, havia o debate político e a luta de posições nos meios operários. Havia a denúncia do peleguismo que controlava quase todos os sindicatos, principalmente os maiores e mais importantes como os de São Paulo e os do ABC. Existia a possibilidade de vitórias da linha classista sobre o oportunismo em diversos setores, algo absolutamente diferente do que se encontra hoje na maioria dos maiores sindicatos, quanto alguns destes passaram à direção da oposição e que, em poucos anos, já através das centrais sindicais se desempenham como a cabeça da colaboração de classes e da traição aos trabalhadores.

Luiz Inácio, à frente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, e seu grupo, que posteriormente, com o concurso dos intelectuais do CEBRAP, da esquerda trotskista, da igreja e dos ex-guerrilheiros arrependidos deram origem à CUT e ao PT, desde então já manifestavam abertamente sua faceta conciliadora e pró-patronal.

E ninguém melhor que o próprio Luiz Inácio para provar de uma vez por todas que ao contrário de 'traição' ou 'mudança de posição', após assumir o poder no velho Estado, mostrou que essa sempre foi a sua posição. 

Os trechos seguintes foram extraídos do filme-documentário ABC das Greves, dirigido por Léon Hirszman, cuja produção finalizou-se em 1990, que expressa a posição do Partido Comunista Brasileiro e tem a locução de Ferreira Gullar. 

As negociações não avançam

No dia 14 de março de 1979, véspera da posse do General Figueiredo, representantes da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, ofereceram um percentual bem abaixo do aumento real do custo de vida.

Mas, os operários do ABC rejeitaram a proposta patronal. Propuseram um aumento de 70% e reivindicaram a legalização dos delegados sindicais nas empresas.

Primeira tentativa de acabar com a greve

Durante a assembléia da greve, Luiz Inácio inicia a chantagem:

"Agora, é um pedido que eu faço: não saiam em passeata! Saiam daqui direto para as suas casas. Estamos entendidos?

(....) Estão dizendo que nós, trabalhadores, somos radicais; que há da nossa parte a insensibilidade; e que nós não queremos negociar. Em primeiro lugar: nós queremos negociar.

E eu acho, e aí é um voto de confiança que eu peço para vocês, para não dizer que nós somos radicais, nós vamos aceitar o pedido do governo, nós vamos voltar a trabalhar.

E se não for cumprido o nosso pedido, nós paramos outra vez! E eu assumo o compromisso aqui com vocês: eu mesmo decreto a greve outra vez.

(...) Peço a todos os companheiros: me dêem apenas um voto de confiança, e nós teremos o nosso Sindicato de volta, teremos o nosso aumento de salário!". 

Patrões agradecem empenho de 'Lula'

Os patrões agradecem o empenho de Luiz Inácio em sabotar a greve:

"A força da solução esteve sempre no diálogo. Não foi preciso chegar até a exaustão.

Ainda tínhamos muito preparo atlético".

(Declaração de Murilo Macedo, Ministro do Trabalho)

Pelego entrega o fechamento do 'acordo' antes da hora

Um membro da comissão de negociação pró-encerramento da greve (empregado da Ford e conhecido por Ratinho) concede entrevista e declara que o acordo com os patrões já estava fechado. Percebendo a mancada, alguém lhe chama a atenção diante das câmeras.

— (...) que foi assinado um acordo ontem...

— acordo não, proposta! (apressou-se em corrigir um membro da comissão de negociação).

— Isso, ...uma proposta, ontem para ser divulgada na assembléia, no domingo...

Desgraçadamente, mais uma vez, a classe patronal demonstrou toda a sua inteligência.

Acordo de Luiz Inácio vende a greve à classe patronal

Discurso de Luiz Inácio é o arremate do golpe final contra a greve:

"Precisamos ter tática.

Porque não se faz um movimento se não tivermos local e organização.

(...) Pediram a vocês que dêem esse voto de confiança pela unidade sindical do ABC; pela unidade dos trabalhadores do ABC; esse voto de confiança às direções cassadas.

Uma greve amanhã representa — e eu vou explicar o porquê — uma derrota da classe trabalhadora.

(...) Vai exatamente, exatamente pelo seguinte:

Nós não vamos mais ter campo para nos reunir; não vamos ter mais sindicato e não vamos ter mais igreja. Nós vamos fazer uma greve de dois dias. E depois de dois dias nós voltamos a trabalhar de cabeça baixa". 

E coloca a culpa do seu peleguismo nas massas

Assim, Luiz Inácio prossegue:

"Eu gostaria de chamar vocês a responsabilidade para uma coisa.

Eu gostaria que cada um, na hora de votar, pensasse no amanhã, pensasse no filho, na esposa e pensasse em si mesmo.

Em primeiro lugar, o problema do nosso aumento de salário, nós conseguimos ganhar ele amanhã dentro da fábrica.

A volta da diretoria, nós vamos ter que ganhar agindo politicamente.

Então a minha proposta, mesmo sendo a mais antipática, e mesmo tendo algumas macacas do auditório do Sílvio Santos assobiando, é a seguinte: é que os companheiros aceitem uma coisa: O Alemão foi claro...1

Nós vamos ganhar o nosso aumento a partir da nossa luta na fábrica.

Não tenham dúvida disso, que nós vamos ganhar.

(...) Então, o que nós precisamos é não jogar o trabalhador numa luta inglória.

E eu que invoquei vocês a fazerem greve (...) quero dizer a vocês que a greve na segunda-feira não é importante.

(...) Ela será importante qualquer outro dia. E qualquer outro dia nós estaremos dispostos a fazer uma greve. Então, eu gostaria de pedir aos trabalhadores que quisessem me dar um voto de confiança [mais outro] a mim e à diretoria do sindicato, é que aprovassem o acordo que é péssimo, mas que nós precisamos brigar pela volta da diretoria do sindicato.

Companheiros que forem favoráveis e que quiserem dar esse voto de confiança, levantem a mão". 

O resultado da conciliação e da traição da classe

O poeta Ferreira Gullar, narrador do documentário, encerra com o resultado do papel do oportunismo nas greves do ABC paulista:

— Os trabalhadores deram o voto de confiança pedido por seus líderes.

Sessenta dias depois do seu início, o maior movimento de trabalhadores desde 1964 chega ao seu final.

O aumento de 70% que motivou a greve não foi conseguido.

Quanto aos patrões, tiveram seus prejuízos cobertos pelo governo federal.

Só a Volkswagen e a Mercedes Benz receberam 6 bilhões e 700 milhões de cruzeiros pagos pelo Tesouro Nacional. 

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1. Enilson Simões de Moura, o Alemão, havia sido colocado estrategicamente para falar antes de Luiz Inácio para preparar o terreno. Alemão era então uma liderança muito conhecida pela massa por sua combatividade. Sua fala também pode ter sido um teste para ver como a massa reagiria à proposta de conciliação.

As lutas operárias de ontem e de agora

Paulo Prudêncio

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Operários durante exposição de fotos históricas da greve de 1979

No dia 30 de julho de 2009 completou-se 30 anos da combativa greve dos operários da construção civil de Belo Horizonte.

Na capital mineira funciona, desde abril de 2000, uma escola de alfabetização e formação técnica de operários chamada Escola Popular Orocílio Martins Gonçalves (EPOMG), criada por iniciativa do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil e da Liga Operária. Lá, durante uma semana inteira, dos dias 27 a 31 de julho último, por decisão de sua coordenação formada por educadores e operários da construção civil, ocorreu a celebração dos 30 anos da greve de 1979.

Uma série de atividades foi desenvolvida, como a leitura e debate nas salas de aula da edição especial do jornal produzido em conjunto pela Escola Popular, MARRETA e Liga Operária; a produção de cartazes sobre a histórica greve pelos educandos da EPOMG; a distribuição dos mais de 20 mil exemplares do jornal nos canteiros de obras de Belo Horizonte e região.

Num dos dias, o professor de história Ventura, fez uma aula expositiva sobre a greve de 1979, abordando temas como o contexto político nacional da época, a situação econômica dos operários ontem e hoje, os desdobramentos e consequências da greve, etc. E finalmente, no dia 30 de julho, ocorreu um grande Ato com a presença da Liga Operária, Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil e Frente Revolucionária de Defesa dos Direitos do Povo — FRDDP. O Ato foi aberto com a leitura de um poema feito em homenagem ao companheiro Orocílio, mártir da classe operária. Um dirigente da Liga Operária que participou na organização da greve de 1979 fez uma palestra sobre o movimento, como se deu a luta contra as posições conciliadoras da direção do sindicato à época e como foi a heróica morte de Orocílio. A platéia, composta por estudantes, trabalhadores, intelectuais e apoiadores da escola, ficou atenta e emocionada com o relato. O Ato se encerrou com a inauguração de uma placa no saguão da EPOMG, onde podia ser lida uma breve biografia de Orocílio e as palavras: "Orocílio, o povo enaltece seus bravos filhos!".

Outros Motins
R. Ventura

Orocílio, te levaram daqui
Mas hoje tu revives
Nos Jorges, Onofres, Joaquins
Revives em palavras de ordem
Nas pedras de outros motins
Nos gritos, nos sonhos, revoltas
Flores de novos jardins.

Morrer não é o mesmo
Para todo mundo.

A morte deita sobre alguns
Um manto de honra

A bala que mata
Nem sempre é mordaça.

Esse mundo envenenado
Pintado de chumbo
Será o mesmo
Dos nossos pequenos?

NÃO!
A noite já foi mais fria
O futuro, está escrito, já se anuncia
E nele Orocílio Martins Gonçalves
Será verso de poesia.

Poema lido na celebração dos 30 anos da greve da construção civil de 1979, em Belo Horizonte. Orocílio Martins Gonçalves foi assassinado pela PM no primeiro dia de manifestações.

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Gerson Guedes Lima, dirigente da Liga Operária, e 1979 era funcionário da Fiat Automóveis e foi demitido em função de sua participação no movimento grevista.

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