Familiares dos guerrilheiros do Araguaia exigem punição para os criminosos de guerra

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O jornal AND tem acompanhado e apoiado a luta de amigos e familiares dos heróicos combatentes da Guerrilha do Araguaia e demais desaparecidos durante o gerenciamento militar. Na última edição, comunicamos que a série de reportagens expedidas até então pelo monopólio da imprensa serviu para gerar mais expectativas nas famílias dos guerrilheiros. Expectativa, dor, indignação e busca pela verdade. Conversamos com a Professora Victória Grabois, que expressou o sentimento que todos sentem neste momento.

A história não pode se resumir apenas à entrega dos restos mortais e enterrar nossos pais, filhos e irmãos. Esta é uma questão humanitária, tem que ser feita, mas queremos saber onde eles morreram, quando eles morreram, quem matou, de que forma — protestou.

No último dia 8 de julho, o ministro Nelson Jobim declarou que é contrário à punição de torturadores e de militares envolvidos nas mortes de guerrilheiros, "que estariam amparados pela Lei de Anistia de 1979" (Estado de São Paulo de 10 de julho).

— O maior castigo para esses militares, se eles já foram oficiais, é perderem as patentes. Acredito que não deve ter coisa pior para um militar do que ele virar soldado raso, de general para soldado raso é pior do que ele ficar lá na cadeia mofando. Então deve ser apontado: este fulano aqui torturou, matou... Por exemplo, o Cel. Lício Maciel, que matou o André, meu irmão, escreve um livro, vai para a Câmara [dos deputados] e conta, como uma bravata, que matou, porque ele acha que depois de 30 anos está prescrito, mas crimes de tortura não prescrevem nuncaressalta Victória, que é filha de Maurício Grabois, comandante da Guerrilha do Araguaia, irmã de André Grabois, combatente da Guerrilha, e na época era esposa de Gilberto Olímpio Maria, também combatente do Araguaia.

O mais espantoso é que pensávamos que havia 69 guerrilheiros, mais 10 que tinham saído, 79. Mas eles falam em 98, ou seja, quase 20 se incorporaram à Guerrilha, porque na nossa conta eram 5 camponeses, mas foram 24 camponeses que aderiram à luta diz, acerca das declarações de Curió. Este é um dado importante porque os combatentes viveram, trabalharam e aprenderam bastante com os camponeses, assim conquistaram 126 pontos de apoio entre a população.

Outra coisa muito grave além do Curió ter falado que o exército executou os 41 é o artigo do "jornalista-historiador", Hugo Studart, publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 06 de julho (p. A2), onde afirma que "(...) três guerrilheiros que se entregaram, foram poupados e receberam novas identidades: Hélio Navarro de Magalhães, Antônio de Pádua Costa e Luiz René Silva". Em nenhum momento revela as fontes e documentos comprovando tais afirmações. O Hélio Navarro é filho de almirante, o que aconteceu com ele? A mãe sempre tem esperança de que ele vai voltar um dia. A avó dele faleceu e ela quis preservar o patrimônio do filho, então abriu uma conta para ele no Banco do Brasil, pois a família alugava um galpão para o Carrefour e ele tinha direito a 1/18 do aluguel e todo mês era depositado na conta dele 14 mil reais. Comecei a analisar e a imaginação desse jornalista deve ter sido isso, quando viu que ele recebia uma quantia que era de uma multinacional francesa que é o Carrefour, já achou que ele era funcionário do Carrefour e não era, e sim fruto de um aluguel de um galpão e os caras inventam. Você não acha que ele não iria aparecer para a família? Ainda mais o Luiz René que o pai dele era comunista, a sua mãe nunca quis se mudar e quando mudou foi para o mesmo lugar, que era a Tijuca, manteve o mesmo número de telefone. Essa notícia chocou a família, pois chamou seu irmão e seu filho de traidorores, porque é melhor morrer do que ser traidor e passar para o outro lado, desqualifica o guerrilheiro e desqualifica a luta. Agora só falta eles dizerem que meu pai também passou para o outro lado, entendeu? Eu não duvido nada; são tão loucos! A Bete, irmã do Luiz René, entrou com uma representação contra esse jornalista, vamos ver o que vai acontecer? É mais uma cena para tirar a atenção do foco principal, como já falamos num artigo divulgado no site do Grupo Tortura Nunca Mais "... mis-en-scène vem sendo orquestrada, nesses últimos dois meses, em função de pressões nacionais e internacionais, como a sentença promulgada, em 2003, pela juíza Dra. Solange Salgado, que intimou o governo brasileiro a esclarecer as circunstâncias e a localização dos restos mortais dos guerrilheiros do Araguaia. Da mesma forma, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA considerou como crime continuado o fato do governo brasileiro não ter tomado as providências cabíveis para a elucidação de tais violações".


A demagogia de Curió


Chama a atenção nas declarações de Sebastião Rodrigues de Moura, o Curió, o falso respeito pelos guerrilheiros. Seguidas vezes ele alterna elogios aos guerrilheiros, ao seu "idealismo", com censuras a "erros" cometidos pelos militares, numa tentativa de se eximir da responsabilidade pelas atrocidades cometidas no Araguaia.

O fato é que Curió é um criminoso de guerra, genocida, que torturou e executou prisioneiros sem chance de defesa, como é típico dos covardes.

De nada adianta dizer que prendeu e entregou os prisioneiros às autoridades e que elas é que desapareceram com os corpos, usar eufemismos para insinuar que vale tudo na guerra, que não é culpado por nada. Crimes, aliás, que continuou cometendo desde que foi presenteado com o feudo de Serra Pelada.

Porém, seria querer demais que o velho Estado, ao qual Curió serviu com tanta dedicação, o condenasse por seus crimes contra o povo, coisa que só ocorrerá por um tribunal popular em uma nova sociedade. Enquanto isso, Curió segue barganhando sua medíocre existência com a liberação, bem aos pouquinhos, dos segredos que guarda.

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