O que ainda escondem os porões militares

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Em entrevista exclusiva a AND, Adalto Dourado de Carvalho, o "comandante" Dourado, ex-militar do corpo de pára-quedistas do Exército brasileiro, ex-militante da organização Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), fala da luta dos ex-militares e militantes da resistência armada contra o gerenciamento militar pela Anistia e faz revelações inéditas sobre a queda de Carlos Lamarca, a militância de Iara Iavelberg e a trajetória de Dilma Roussef e Luiz Antônio de Medeiros dos cárceres militares até a gerência do velho Estado em crise.

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Lamarca e Iara Iavelberg teriam sido assassinados no DOI-CODI de Salvador

O advogado Adalto Dourado de Carvalho nasceu em 1952 e em 1968 concluiu o curso científico no Colégio Estadual Rodrigues Alves. Integrou o corpo de pára-quedistas do Exército brasileiro e foi expulso de suas fileiras sob a acusação de "subversão".

Adalto foi militante da VAR-Palmares, organização surgida no final de 1968, como resultado da fusão do Comando de Libertação Nacional (Colina) e outras organizações.

Na clandestinidade, durante uma ação de expropriação a um banco, Adalto e seus companheiros foram perseguidos pelos militares. Houve troca de tiros e, quando socorria uma companheira baleada, recebeu dois tiros. Foi preso e barbaramente torturado no DOI-CODI/RJ, em janeiro de 1972, durante a gerência de Emílio Garrastazu Médici. Foi processado, condenado e cumpriu pena pela participação na resistência armada contra o gerenciamento militar.

Um ponto para uma nova ação

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Maria Auxiliadora Barcelos Lara, a 'Dalila'

Em 1970, meu irmão mais velho, José Dourado de Carvalho Neto, militante da Ala Vermelha e VAR estava preso em um quartel do Exército com outros presos políticos. Como eu me encontrava em situação de semi-legalidade, pude ir visitá-lo — conta Adalto.

No quartel, durante a visita, também encontrei a "Dalila" (nome de guerra de Maria Auxiliadora Barcelos Lara, militante da VAR), que também estava presa. Ela conseguiu me passar um informe com uma senha e um telefone que consegui salvar na revista sob a língua. Entrei em contato com uma estudante de medicina e acertei um ponto em Copacabana. Lá recebi outro ponto, também em Copacabana, que me colocou em contato com a Iara (Iavelberg, militante da Vanguarda Popular Revolucionária — VPR). A conheci com o nome de "Cátia" ou "Cláudia". Outro ponto foi marcado em uma praça em Irajá. — prossegue.

Essa nova ligação permitiria a participação de Adalto em outra ação.

Através da Iara encontrei com Celso, ou Célio, não me recordo com precisão, outro militante da VPR, que pouco antes do sequestro do embaixador alemão Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Holleben me passou o contato com o Bacuri (Eduardo Collen Leite, militante da REDE e posteriormente da Aliança Libertadora Nacional — ALN de Marighela).

http://www.anovademocracia.com.br/56/07-a-3.jpgEduardo Collen Leite,
o 'Bacuri'

Ao nos encontrarmos, disse a Bacuri do meu plano para uma expropriação de armas para a revolução e a libertação de presos políticos no quartel em que servia. Expliquei meu plano para a ação e ele ficou bastante interessado. Eu disse que coordenava uma célula da VAR-Palmares no então estado da Guanabara, que estava sendo preparada para se deslocar para um trabalho de campo que a VAR-Palmares estava montando, chamada Coluna Móvel, que era o embrião da coluna guerrilheira, que depois se converteria no exército popular revolucionário.

Ao me escutar, ele brincou: "companheiro, sabe quando a VAR vai fazer guerrilha? Nunca!", mas no fundo isso era uma crítica dele à minha organização, da mesma forma como nós falamos hoje que o PCB não fará a revolução de que tanto fala, nunca. — pontuou Adalto, que prosseguiu:

Eu e o Bacuri nos identificamos um com o outro instantâneamente, ambos gostávamos de participar de ações.

Companheiros de cárcere

Adalto ainda relata que a direção regional da VAR postergava a decisão sobre a sua proposta de expropriação no quartel.

Disseram que iriam consultar o comando nacional, mas na verdade não desejavam a realização da ação. A ação acabou não acontecendo porque um companheiro falou demais e entregou os propósitos para outro soldado, que informou ao comando do quartel e a ação foi abortada.

Estava tudo preparado. Além de libertar os presos políticos, pretendíamos levar uma boa quantidade de armamentos e munição, tínhamos colaboração interna de dois soldados e um sargento. Um deles inclusive foi preso comigo e com Carlos Franklin Paixão Araújo, o "Max", no quartel da Aeronáutica, depois fomos transferidos para o DOI-CODI, na Polícia do Exército à Rua Barão de Mesquita, na Tijuca (RJ). Na cela ao lado estava a "Estela" e outras guerrilheiras — relatou o combatente.

"Estela" era o nome de combate de Dilma Roussef, atual ministra da Casa Civil da gerência do velho Estado.

Lamarca e Iara, assassinados no DOI-CODI

O "comandante" Adalto revela, em primeira mão, uma versão da morte do capitão Carlos Lamarca (VPR e MR8) e Iara Iavelberg. Rebatendo a versão que taxa como "vendida pelos militares", Adalto afirma que Lamarca não foi morto em combate pelo general (então major) Nilton Cerqueira no sertão da Bahia, como foi divulgado há décadas e tampouco Iara teria se suicidado durante um cerco militar ao apartamento onde se mantinha clandestina.

A versão que dão da morte da Iara, de que ela foi cercada em um apartamento e se suicidou é mentirosa, não foi isso que aconteceu. A Iara era uma mente brilhante, um quadro revolucionário. Ela, armada, jamais se entregaria. Ela foi enterrada como suicida. Mas quando exumaram seu corpo, descobriram que a sua cabeça estava desfigurada. Não eram marcas de tiros de um possível suicídio, mas marcas de agressões com um objeto contundente. A versão oficial é uma farsa, assim como o assassinato do Lamarca. — afirmou.

O Nilton Albuquerque Cerqueira disse que na perseguição do Lamarca ele e seus comandados já haviam se retirado da área, certos de que ele não estava mais lá, quando receberam uma ordem para voltar imediatamente e já encontraram o Lamarca morto. A morte do Lamarca como se fosse em um tiroteio foi montada e é uma farsa. O caso da Anistia do Lamarca foi e é muito polêmico, pois ele era militar, um grande militar — conta Adalto, acrescentando — O Lamarca e a Iara foram assassinados a coronhadas no DOI-CODI de Salvador.

Em 2000, eu conversava com o advogado Boris Nicolaeviski sobre a minha petição de Anistia quando eu critiquei o general Nilton Cerqueira, o chamei de carniceiro e assassino. O Boris, que estudou no Colégio Militar com o Nilton Cerqueira, se exaltou e disse que o general não assassinou o Lamarca, que essa foi a versão vendida pelos militares. Disse que ele era truculento sim, mas era um homem reto e incorruptível, inclusive puniu alguns militares subordinados a ele por corrupção quando comandou a PM no Rio de Janeiro — revelou.

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Zequinha Barreto lutou com Lamarca até a sua queda

O que se presume é que o Lamarca caiu em setembro de 1971, devido a uma contra-informação plantada pelos milicos. A Iara tinha conhecidos em Serrinha, no nordeste da Bahia. Ela tentou criar um ponto de apoio logístico para a luta armada, como por exemplo, um endereço para receber correio. O Lamarca mandava os parentes do Zequinha (companheiro do Lamarca, Zequinha lutou ao seu lado até a sua queda) enviarem correspondências para o Rio de Janeiro e de lá para Serrinha para despistar a repressão. Assim, uma correspondência caiu e entregou o ponto de apoio levando ao Lamarca — explicou Adalto.

Dizem que o Lamarca não deveria ter direitos porque é desertor. Ele não foi desertor, desertor cai no mundo! Ele se colocou em oposição a uma ditadura canalha que prendia, torturava, mutilava e assassinava brasileiros patriotas, para servir aos interesses estratégicos de uma potência hegemônica. E o general Nilton Cerqueira, que do ponto de vista político é conservador e truculento, mas do ponto de vista pessoal é um homem correto, pode dar sua contribuição e falar a verdade. Falar que o Lamarca e a Iara foram assassinados covardemente a coronhadas nas dependências do DOI-CODI em Salvador e a ditadura o obrigou a assumir a farsa da operação Pajuçara. Uma espécie de vendetta pela morte do Tenente Mendes, justiçado por militantes da VPR no Vale da Ribeira, na região de Registro, quando, um ano antes, a VPR tentara instalar um foco guerrilheiro — pontuou incisivo.

Os velhos gorilas ainda no poder

Não ficou um só oficial graduado sem Anistia. Somente a "ralé" de cabos, sargentos, marinheiros. Não quero pé de meia! Já poderia ter ganho mais de um milhão de reais, mas é uma questão política. Denunciam muito por aí, falam de uma 'indústria da Anistia'. Ora, meu irmão foi torturado e solto para morrer, ficou preso no DOI-CODI e saiu cuspindo lufadas de sangue! O Jarbas Dourado, meu irmão mais novo, era menor de idade, um adolescente saudável, também foi trucidado, solto de madrugada na Floresta da Tijuca com as mãos atadas e durante as duas últimas décadas tem sofrido as sequelas. Depois de anos da entrada do seu requerimento de Anistia, lhe concederam uma prestação única de 49 mil reais. Eu fui baleado, preso, torturado, mergulhado no mar suspenso por uma corda, pendurado em um helicóptero com duas balas no corpo! — protestou Adalto.

Alguns canalhas que vivem criticando, escrevendo cartas para os jornais, atacando a Anistia, tentando desqualificar o processo. Até parece que participamos de uma jogada para solapar o erário público. Agora, assistimos essa 'milicaiada' reacionária e saudosista operando nos bastidores para sabotar o processo de Anistia, quando na verdade nós que deveríamos estar julgando-os pelos crimes que praticaram. Foram eles que ficaram anos bajulando o império ianque e serviram de base de sustentação para um regime tirânico que abriu as comportas da economia nacional para o enriquecimento do império. Entra governo, sai governo, e a questão da Anistia é procrastinada, dizem 'que não existem recursos', a mesma lenga-lenga de contenção de despesas, mas a sangria aos cofres da nação é incessante com dezenas de bilhões que são repassados criminosamente para essa cambada de especuladores, manipuladores e exploradores do chamado sistema financeiro — ataca.

Já esperei 40 anos. Eu não tenho compromisso com o tempo, e sim com a história. Historicamente, politicamente, tenho mais autoridade que qualquer general. O que fizeram com Fernando Leite, Stuart, Mario Alves, Rubem Paiva, Major Cerveira e tantos outros foi uma covardia sem par. A minha reparação não é uma simples questão pecuniária ou indenizatória. A minha Anistia começou a ser sabotada por Julio César Martins, que julgou prescrita a ação, em 1996, quando havia um monte de decisões opostas, jurisprudência firmada nos tribunais superiores, de que Anistia é um fenômeno de caráter não prescricional. O processo tramitou para o tribunal de recursos federal e a sabotagem continuou com outros mais graduados, subiu em caráter extraordinário para o Superior Tribunal Federal, e a sabotagem foi praticada por Nélio da Silveira.

No ano de 2001, Adalto Dourado enviou seu requerimento à Comissão de Anistia, sendo que até hoje o caso não foi julgado. Segundo nota divulgada pelo Grupo Tortura Nunca Mais, do Rio de Janeiro (GTNM/RJ), "o conselheiro Wanderley de Oliveira Pereira alega que seu requerimento não pode entrar em pauta na 3ª Câmara (militar) porque o comando do Exército, atendendo a uma solicitação da Comissão, enviou sua folha de alteração comunicando que Adalto foi expulso por indisciplina, apesar de estar acostado ao processo documento irrefutável onde os militares afirmam peremptoriamente que Adalto Dourado de Carvalho foi expulso em 1968 por subversão.

No dia 17 de junho último, houve uma reunião em Brasília e ficou decidido, com a presença de um representante do Nelson Jobim, do Tarso Genro, do Paulo Bernardo e outros ministros, que em 45 dias (vencem no final de agosto) terão que dar uma solução sobre a questão da Anistia, mas esse governo não vai fazer nada, não fez até hoje... — denunciou Adalto.

Os sem princípios capitulam

"Estela", outrora guerrilheira, agora gerencia o Estado em crise

Estávamos presos na época, no mesmo presídio. A Dilma era uma guerrilheira, ela estava presa com outras guerrilheiras.

Agora ela é uma gerente dessa estrutura social atrasada. Ela está do lado do Sarney, não tem compromisso nenhum com mudança social, é uma administradora da crise.

Quem na época se dizia revolucionário está hoje integrado no sistema dominante.


Os que hoje se mantém firmes são poucosconcluiu.

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