Um som ecoa no universo

A- A A+

1959, Deserto de Gobi, China. Remotamente afastados de qualquer povoado ou estrada, milhares de soldados ansiosos aguardam as palavras do seu comandante. As tropas tinham viajado por um longo período seguindo só uma diretiva: "Não pergunte o que fazemos, não pergunte aonde vamos".

http://www.anovademocracia.com.br/57/21a2.jpg

A sigilosa missão será revelada. Já venceram os japoneses e saíram vitoriosos da Revolução.

Camaradas — disse o comandante — A guerra interna na China acabou e a externa também. Vocês não podem celebrar a vitória, nem podem voltar para casa. Sob comando, vocês seguiram o Partido até o Deserto de Gobi. Nossas famílias não sabem onde estamos, sequer sabem se continuamos vivos. Alguns de vocês foram para a Coréia do Norte aos 15 anos ainda crianças. Agora voltaram sãos e salvos. Deveriam ir para casa contar às suas mães? Sim. Mas não podem. Trata-se de um segredo de Estado. Outros, nessa idade, deveriam voltar para casa para cuidar de seus netos. Mas eu os mantive para trabalhar conosco, neste grande deserto, para lutar contra o frio, as tempestades de areia, para comer comida salgada e beber água salobra. Por quê? Porque na Guerra da Coréia, os americanos nos provocaram* com um brinquedo que têm há anos. Ameaçaram nos explodir em pedacinhos. Os soviéticos não nos ajudarão. Sem ela nunca nos imporemos com orgulho nem teremos segurança. Não podemos abaixar a cabeça. Então o Conselho Militar Central ordenou-me que dividisse esse segredo com vocês, aqui no Deserto de Gobi. Com nossas próprias mãos e nosso próprio esforço construiremos a bomba atômica da China!

E a multidão gritou: "Construir a bomba atômica! Com orgulho! Honra para o presidente Mao! Contribuir para nosso país! Camaradas, em frente"!

Assim com marretas, pás e outras ferramentas rudimentares os bravos soldados começaram a erguer a infraestrutura de um empreendimento que, em tais condições, poderia parecer impossível de alcançar sucesso, mas não para os comunistas chineses.

Quando a União Soviética abandonou o marxismo-leninismo caindo no revisionismo apareceram diferenças ideológicas irreconciliáveis que culminaram na ruptura com a China. Numerosos acordos políticos, militares, econômicos e culturais foram cancelados. Um desses acordos em andamento era a ajuda para o desenvolvimento da bomba A na China. Em 1959 chegou a ordem de Moscou para que os cientistas soviéticos  abandonassem o projeto.  

Num primeiro momento os físicos chineses ficaram desolados com o fim do trabalho. Mas a diretiva não demorou: "continuaremos sem os soviéticos". Os estudos conjuntos tinham parado em um estágio inicial, e antes de partir os russos queimaram o que tinha sido desenvolvido até então. E por aí começaram os chineses, se dedicaram a restaurar qualquer vestígio salvo do fogo: fórmulas, plantas, esquemas. Um quebra-cabeça incompleto e chamuscado, mas com dados que poderiam ser decisivos mais adiante. Centenas de cientistas de diversas áreas foram convocados.

http://www.anovademocracia.com.br/57/21a4.jpg

Mesmo sendo uma prioridade nacional, a China, ainda era um país muito pobre, não podia fornecer muitas condições. Toda a equipe possuía apenas uma calculadora mecânica que eles chamavam de "computador". As equações complexas, os milhares de cálculos infinitesimais repetidos uma e outra vez, foram resolvidos com um instrumento milenar: o ábaco.     

Quando a base teórica tinha superado a fase inicial e as instalações do Deserto de Gobi o permitiram, o núcleo dos cientistas se mudou para lá.

http://www.anovademocracia.com.br/57/21a5.jpg

A chegada dos cientistas à Base foi uma festa que renovou as energias dos soldados. Agora podiam ver seu esforço como parte de algo muito maior. Com orgulho, se apresentaram às unidades de soldados trabalhadores, de transportes, de meteorologia...

Os cientistas também estavam emocionados. Acostumados à frieza dos números, logo perceberam que esse não seria apenas um laboratório gigante a céu aberto, onde colocariam em prática suas teorias. A vibração de toda aquela gente os fez sentir que a força do povo era maior do que a ciência.

http://www.anovademocracia.com.br/57/21a1.jpg

Os tempos que se seguiram foram muito duros. As condições extremas do deserto, as dificuldades próprias do empreendimento. A isso que era esperado se somaram outros problemas que os levariam ao limite do suportável. O serviço secreto ianque tinha tomado conhecimento do empreendimento e existia o perigo de serem atacados. No começo da década de 1960, durante três anos seguidos as colheitas fracassaram na China levando a população a uma crise alimentar. Na Base, a fome que assolava o país era sentida com mais gravidade pelas dificuldades do transporte. Milhares ficaram doentes. Quando não tinham mais comida para racionar passaram a fazer uma espécie de sopa com folhas colhidas das poucas árvores em quilômetros de deserto. Mesmo assim continuaram unidos: não se estabeleceu nenhum privilégio alimentar que diferenciasse soldados, cientistas ou oficiais.

Finalmente, na manhã do dia 16 de outubro de 1964, a bomba foi detonada com sucesso do alto de uma torre. Tinham conseguido em apenas cinco anos, bem menos que o necessário para ianques e soviéticos, surpreendendo o mundo, encontrando soluções diferenciadas e mais econômicas.

Mais que a história do desenvolvimento de uma bomba, esta e a prova da força incomensurável de um povo determinado e unido pela ideologia do proletariado e dirigido por uma partido revolucionário.

Desta maneira o filme chinês Um som ecoa no universo de Chen Guoxing nos relata uma passagem histórica praticamente desconhecida no ocidente.

http://www.anovademocracia.com.br/57/21a7.jpg

Menos de três anos depois já dominariam a bomba H é teriam pronto um eficiente sistema de defesa. O chefe da Casa Branca na época, Lyndon Johnson, alertou ao mundo sobre o perigo que representava uma China vermelha nuclear para "o mundo livre". A China, que no passado tinha sido vítima de invasões da Inglaterra, Portugal, França, Alemanha, a Rússia tzarista, Itália, o Império Austro-Húngaro e a Holanda, apenas para citar os países europeus, agora finalmente poderia ser dona do seu destino. Jamais a China, enquanto era realmente revolucionária, até 1976, ameaçou usar suas armas nucleares a não ser na sua defesa territorial. 

Você sabia?

Aproveitando o tema das armas nucleares e da reação escandalizada da "comunidade internacional" às ambições do Irã e Coréia do Norte nos dias de hoje, é bom que se reflita com que hipocrisia são tratadas as coisas dependendo da situação: os dois países que se atribuem a maior autoridade moral para impô-la são o USA e o Japão. O primeiro pelo bizarro privilégio de ser o único país que jogou bombas nos outros. Por sua parte, o Japão por ser a vítima. Mas o Japão aparentemente não cometeu seu atentado nuclear só pelo fato de não ter a bomba. Em 1965 o então premiê do Japão, Eisaku Sato (que em 1974 ganhou o Premio Nobel da Paz por seu compromisso contra as atividades nucleares), pediu secretamente ao USA que jogasse bombas nucleares "imediatamente" na China em caso de conflito sino-nipônico, chegando a liberar o uso das suas águas territoriais como ponto de lançamento. (Fonte: Ministério do Exterior japonês — documentos secretos liberados em 2008).


*Em verdade as primeiras ameaças ianques de agressão nuclear a China tinham acontecido bem antes, logo depois da Revolução, quando se dirimia a disputa com Taiwan por umas pequenas ilhas. Segundo documentos liberados recentemente no USA, o Pentágono recomendava seu uso.

Imagens do filme Um som ecoa no universo

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja