Mais um camponês assassinado a sangue frio

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No dia 21 de agosto, as tropas da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, seguindo à risca a política de criminalização da luta pela terra ditada pelo velho Estado assassinou mais um camponês.

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Camponeses subjugados pelos policiais após o assassinato de Elton Brum

O camponês Elton Brum da Silva, 44 anos, foi assassinado com um tiro de espingarda calibre 12 à queima-roupa durante o cerco ao acampamento do MST na fazenda Southall, em São Gabriel, cidade a 321 km de Porto Alegre, no dia 21 de agosto último.

O cerco militar visava cumprir uma ordem de "reintegração de posse". Os camponeses, às avessas da orientação da direção oportunista do MST que sempre determina 'negociações mediadas pelo INCRA', resistiram como puderam, empilharam e incendiaram pneus improvisando uma barricada. Eram 7:00hs da manhã quando, frente a frente com os policiais, os camponeses gritavam palavras de ordem denunciando a tentativa truculenta de despejo.

Eram mais de 300 policiais fortemente armados acompanhados de cães e cavalos contra 550 camponeses.

Por volta das 7h40min os policiais tentaram desfazer a barricada de pneus e iniciaram o despejo com uma retro-escavadeira. Os camponeses, determinados em permanecer na terra, protestaram. Foi quando Elton Brum da Silva foi assassinado.

A morte do camponês desencadeou uma torrente de evasivas por parte da polícia gaúcha, que se apressou em afastar Lauro Binsfield do posto de subcomandante-geral da Brigada Militar um dia depois do assassinato de Elton, como se isso apagasse o crime cometido pelas forças de repressão do velho Estado.

BM: preparada para matar

Após a confirmação do assassinato de Eltom Brum, o comandante da Brigada Militar afirmou que a utilização de "munição letal não estava autorizada no despejo da Southall" [Folha online de 28 de agosto de 2009]. Entretanto, seis cargas de chumbo foram encontradas no corpo de Elton, o que confirma que os soldados destacados para reprimir o acampamento estavam armados para matar.

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Reportagens do jornal Zero Hora, descreveram a localização do acampamento como "uma elevação no terreno e formava um círculo cujo diâmetro podia ser percorrido com cerca de 110 passos. Os cerca de 250 PMs foram espalhados ao redor. Os camponeses defendiam a invasão armados de foices, paus, estilingues e facões. E ao redor do acampamento existia um buraco (de um metro de profundidade por 50 cm de largura) cheio de galhos e pneus. O objetivo era queimar o material na vala na hora da chegada dos PMs".

O camponês Toni Maciel Gomes da Silva, 19 anos, declarou:

— Assim que os brigadianos derrubaram o portão, eu e o companheiro (Brum) recuamos para o acampamento, com dois deles (PMs) no encalço. Enquanto corria, olhei para trás e vi que um estava armado com uma pistola e o outro, com espingarda. Não fomos longe. Fomos derrubados e não vi mais nada. Fui saber depois que ele havia morrido. [jornal Zero Hora de 24 de agosto de 2009].

Protestos e indignação

Aproximadamente mil pessoas realizaram uma manifestação na cidade de São Gabriel em protesto contra o assassinato de Elton. O trânsito foi bloqueado e, durante o protesto, uma camionete com um latifundiário ao volante avançou sobre os manifestantes que revidaram com bandeiradas.

Os manifestantes contaram à imprensa local que o latifundiário, identificado como Carlos Alberto Teixeira, os hostilizou gritando: "Mataram um, 'tão' matando pouco". O funeral de Elton foi uma grande manifestação de revolta.  Seu corpo foi sepultado na tarde do dia 22.

Impunidade e conivência

Após a revelação das imagens contidas em mais de 55 minutos de filmagens feitas pela própria Brigada Militar, um soldado confessou ter atirado em Elton.

O comando da BM, até o fechamento dessa edição, não divulgou o nome do assassino e classificou sua ação como uma "falha individualizada".

O jornal Zero Hora de 29 de agosto fala em um "pacto de silêncio" entre as forças policiais ordenado pela Secretaria de Segurança Pública (SSP).

A desculpa dada pela SSP e comando da Brigada Militar para ocultar o nome do soldado responsável pelo assassinato do camponês Elton é que a divulgação do seu nome "prejudicaria os inquéritos conduzidos em paralelo pela Brigada Militar e pela Polícia Civil".

Mais uma vez o velho Estado adota dois pesos e duas medidas quando se trata da luta pela terra. A pressa em acusar, difamar, criminalizar, estampar fotos e nomes de camponeses taxando-os como "bandidos" e "terroristas" é diametralmente oposta à lentidão e silêncio sepulcral quando se trata de proteger latifundiários, policiais e pistoleiros assassinos.

O 'sigilo' ainda conta com o aval do Ministério Público do estado do Rio Grande do Sul, ressaltado pelas palavras do Subprocurador para Assuntos Institucionais, Luiz Carlos Ziomkowski, afirmando o sigilo ser determinante, pois "a confissão por si só não basta", necessitando os resultados das perícias.

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