Rio de Janeiro: Laboratório do Estado de crimes contra o povo

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Mais uma vez, AND traz o cronograma de práticas do velho Estado em seu laboratório para a repressão e extermínio da pobreza e a criminalização das lutas populares. Nas favelas, as muralhas continuam sendo erguidas em comunhão com as UPPs — Unidades de Polícia Pacificadora. No morro da Babilônia há a ameaça de privação do acesso da população à mata para o lazer e para a continuidade de antigos projetos de proteção ambiental e o desvio da água que abastece as casas dos trabalhadores para o prédio da nova unidade policial. Enquanto isso, nos bairros nobres da capital fluminense, casas populares são demolidas, camelôs roubados e presos e ocupações atacadas no rastro do "choque de ordem".

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Equipe da CoopBabilônia, que trabalha no reflorestamento da mata

Depois de imposta às populações dos morros do Santa Marta e da Rocinha, a construção dos muros pela gerência estadual é alvo de grande insatisfação e protestos por parte dos moradores das favelas do Chapéu Mangueira e Babilônia, no Leme. Além dos recentes dados divulgados pelo Instituto Pereira Passos, que comprovam a estagnação do crescimento das duas comunidades nos últimos dez anos (menos de 1%, de 1999 a 2008) e contrariam as razões dadas pela gerência estadual para a construção das muralhas, projetos de preservação da floresta desenvolvidos há tempos pela população também estão sendo ameaçados.

A CoopBabilônia existe desde 1995 e é uma iniciativa dos trabalhadores visando a recuperação da Mata Atlântica através de mutirões de reflorestamento e da manutenção de trilhas para o lazer da população, prova de que o povo sabe preservar o que é de seu interesse.

Carlos Antônio Silva — vice-presidente da associação de moradores e membro da CoopBabilônia — diz que o reflorestamento que é feito pelos moradores há quase quinze anos, trouxe de volta à mata diversas espécies de animais que haviam desaparecido e que os muros poderão encerrar esse trabalho.

— Já foi comprovado que, há tempos, não existem construções na mata dos morros Chapéu Mangueira e Babilônia. Essas comunidades não cresceram nada nos últimos dez anos em comparação às outras. Esse projeto que temos [CoopBabilônia] é uma prova de que, além de tudo, nós reflorestamos e, com muito esforço, conseguimos transformar essa mata em fonte de lazer para os moradores e proteção ambiental, com o retorno de várias espécies de animais ameaçadas de extinção, como a Jacupemba e o Tucano-de-bico-preto. Hoje nós temos 23 pessoas que continuam trabalhando no reflorestamento. Para que colocar muro? Nós precisamos da mata — reivindica.

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O muro do Morro da Babilônia

Outro líder comunitário e membro da Associação dos Moradores do Morro da Babilônia, o vigilante José Luiz Abreu de Souza, de 32 anos, — tratado pelos moradores como "Che Guevara" — conta que, assim como os muros, as UPPs foram arbitrariamente instaladas na comunidade, depois de acordos entre a gerência estadual e outras lideranças ligadas ao PT, o que também abriu espaço para o "choque de ordem".

— A prioridades deles têm sido só a maquiagem. Pintar corrimão e parede com as cores da PM, por exemplo. Lula, Sérgio Cabral e Eduardo Paes trabalham juntos aqui. Tanto é que quando chegaram o muro e as UPPs, chegou o choque de ordem junto e já demoliu seis barracas de comerciantes, e o sub-prefeito da zona sul [Bruno Ramos] ainda disse em tom ameaçador que não vai tirar as outras, por enquanto. Já as UPPs, foram colocadas na comunidade antes de ser construído um reservatório de água para abastecer o prédio da PM. Aconteceu que os moradores da região que chamamos de Vila, tiveram sua água desviada para a UPP. Já não basta a caixa de água inacabada que está aqui desde a gestão do César Maia e se transformou em um viveiro para mosquitos da dengue. Todas essas denúncias relacionadas à água, eu fiz ao repórter da TV Globo, Vandrei Pereira, mas depois ele veio me dizer que as fitas sumiram. A Globo nunca publicaria isso — conta André, completando que a gerência estadual impôs a presença da PM na comunidade, após cooptar as outras lideranças comunitárias, com a promessa de cargos e gratificações.

— Tem muita gente do PT aqui e eles querem de qualquer maneira o apoio do PMDB para eleger a Dilma. Para isso apóiam todas as atrocidades do Sérgio Cabral, como tudo isso que está acontecendo aqui no Chapéu Mangueira e Babilônia. Eu, por exemplo, incomodo esse pessoal, mas se quiserem me tirar da associação vão ter que fazer uma assembléia para isso — conta o vigilante que conclui — o Sérgio Cabral ainda tem a cara-de-pau de ir à missa dos 15 anos da chacina da Candelária, um cara que está derramando tanto sangue nas favelas do Rio — protesta José Luís que lidera a resistência popular na comunidade, através de um fórum comunitário criado pelos moradores.

Trabalhadores pobres na mira do "choque de ordem"

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Morador de rua na cidade do Rio de Janeiro

Nos bairros nobres da capital, continua vigorando o "choque de ordem" de Paes, que inclui a perseguição ferrenha a camelôs, guardadores de carro, moradores de rua, construções em bairros pobres e movimentos que lutam por moradia.

Depois do rastro de destruição deixado no Recreio dos Bandeirantes — onde o último alvo foi o prédio da Rua Roberto Pinho, demolido no dia 6 de agosto — e na favela Rio das Pedras, em Jacarepaguá, no dia 16 de agosto, as equipes da Secretaria Especial de Ordem Pública (Seop) demoliram um edifício de quatro andares na Rua Dias da Cruz, número 763, no Méier, zona norte da cidade.

— Não é uma área pública. Está aqui a escritura do imóvel. A reforma foi feita dentro das exigências do município e eles têm a documentação. As multas foram cobradas indevidamente. Isso é abuso de poder — protestou o advogado João Ferreira Nascimento ao jornal O Globo (06/08/2009). Proprietário do imóvel, ele ainda foi intimado a pagar o preço da demolição.

No dia seguinte, agentes da prefeitura realizaram o "choque de ordem" na Glória e roubaram um total de 35 quilos de frutas e legumes, 14 cadeiras, quatro mesas e dois isopores grandes que estavam amarrados a uma árvore por camelôs que trabalhavam na região.

Roseli Machado, de 47 anos, é vendedora ambulante, costureira desempregada e mora em Queimados, na baixada fluminense. Todos os dias ela pega o trem e o metrô e vai para a praça Saens Peña, na Tijuca, onde vende capas para celulares, carteiras e pochetes de couro. Em entrevista à reportagem de AND, Roseli revelou toda seu ódio contra Eduardo Paes e o "choque de ordem".

— Essa vida é muito difícil. Mesmo trabalhando honestamente, hoje, a gente se vê como um bandido. Já levaram toda minha mercadoria duas vezes. Tive um prejuízo de mais de mil reais, dinheiro que eu ia usar pra colocar comida dentro de casa e comprar material de escola para os meus filhos. O Eduardo Paes diz que a gente não paga impostos, por isso não deixa a gente trabalhar. Olha a quantidade de imposto que a gente já paga, ainda querem tirar nosso direito de ganhar nosso sustento dizendo que a gente prejudica o dono de loja. Ele paga tudo certinho porque é rico, mora na Barra, tem carro de luxo. Na verdade tudo isso serve pra deixar eles com mais dinheiro e nós, mais pobres ainda — lamenta a vendedora.

Outros trabalhadores, como flanelinhas e manobristas também estão sendo reprimidos e até mesmo presos nas investidas do "choque de ordem". Como mostramos em AND 56 Repressão sem trégua no Rio de Janeiro até agora 635 guardadores de carros já foram presos e vários continuam impedidos de trabalhar, até mesmo os que têm autorização.

No dia 25 de agosto, em operação na zona sul da cidade, 120 flanelinhas foram presos por policiais que realizavam o "choque de ordem" em parceria com a Secretaria Especial de Ordem Pública.

José dos Santos de Oliveira, de 51 anos, é manobrista e trabalha há 30 anos em uma rua da Tijuca, Zona Norte do Rio, guardando carros. Ele conta que, mesmo com autorização para trabalhar, foi desrespeitado e teve sua carteira de habilitação confiscada autoritariamente.

— Eles não têm o direito de gritar conosco e nos xingar, mas são treinados para fazer isso. Esse estacionamento existe há anos por iniciativa da própria prefeitura que cedeu essa rua para que fosse construída uma galeria e agora querem me prender, roubar minha carteira e me xingar, porque dizem que não pode. Eles também querem derrubar aquelas casas em favelas, que também já estão lá há anos. É a mesma coisa — protesta o manobrista.


Vaias para os inimigos do povo

Ao ser chamado ao palco na festa de reinauguração do Teatro Municipal do Rio, o vice de Cabral, Luiz Fernando Pezão recebeu uma chuva de vaias do público de 5 mil pessoas que compareceram ao evento, após obra de maquiagem que custou aos cofres públicos meros 15,2 milhões de reais. E o que pensar dos 381 milhões gastos com a construção da Cidade da Música? Dinheiro suficiente para que fossem construídos 127 postos de saúde ou três grandes hospitais, como o de Acari.

O mesmo aconteceu com Cabral, Lula e Lindberg, dia 18 de agosto, na inauguração de parte das obras do PAC em Nova Iguaçu, baixada fluminense, quando a massa que acompanhava a encenação entoou um acalorado coro de vaias contra os inimigos do povo e em seguida atacou dezenas de militantes do PT que estavam sentados à frente do palco tentando impedir que um manifestante exibisse faixa de protesto contra Sérgio Cabral.

Paes e Cabral seguem ameaçando motoristas de vans

Depois da elaboração do edital de licitação para o transporte complementar, pelo Detro — Departamento de transportes rodoviários — que reduziu o número de motoristas autorizados a realizar os itinerários intermunicipais de 1.805 para 641, agora foi a vez de Eduardo Paes ameaçar os trabalhadores com o anúncio de um novo edital, desta vez, para os veículos que circulam na zona oeste da cidade, segundo o qual as kombis e vans serão proibidas de circular, dando espaço aos microônibus do monopólio da Fetranspor (Federação das empresas de transporte de passageiros) que, coincidência ou não, patrocinou em grande parte a milionária campanha de Eduardo Paes à prefeitura do Rio. Uma mão lava a outra.

Mais crianças mortas pela polícia de Cabral
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Vitor Dalemberg, ferido no rosto

Duas crianças foram baleadas em operação da PM no morro dos Macacos, em Vila Isabel, Zona Norte do Rio, no dia 19 de agosto. Vitor Delemberg, de 12 anos, foi baleado no rosto enquanto brincava no quintal de casa e outra menina de 14 anos identificada apenas como Sara foi atingida no peito por estilhaços. Outra moradora, a dona de casa Raquel Lanes, de 33 anos, foi baleada na barriga e operada momentos depois no Hospital do Andaraí. Seu estado de saúde é grave. Mesmo assim, o comando do 6º batalhão protegeu seus policiais alegando que não foi realizada operação na favela no dia do incidente. Já os moradores dizem que ao menos 10 policiais invadiram a comunidade pela manhã atirando a esmo e ferindo as três vítimas.

Paramilitares promovem novas chacinas

No final de agosto, policiais integrantes de bandos armados — vulgarmente chamados de "milícia" pelo monopólio da imprensa — que incrementam o terror estatal nos bairros pobres do Rio de Janeiro, realizaram mais duas chacinas em menos de 24 horas, deixando cinco pessoas mortas e sete feridas.

Dia 22 de agosto, em Pedra de Guaratiba, Zona Oeste do Rio, paramilitares assassinaram quatro pessoas que estariam interferindo em esquemas de TV a cabo mantidos pela quadrilha na região. Foram mortos, Raísa Marinho dos Santos, Luana Nascimento Ramos, e os adolescentes Flávio Augusto Almeida Silva, de 15 anos e Michel Barbosa, de 19 anos. Um homem que acompanhava o grupo sobreviveu e foi à delegacia, onde fez a identificação dos criminosos, ambos policiais e um deles segurança da família de Sérgio Cabral, que ironicamente, alegou não conhecer o assassino.

No dia seguinte, em Seropédica, baixada fluminense, milicianos supostamente procuravam um traficante de drogas, quando invadiram uma residência matando um rapaz e ferindo outras seis pessoas, todos de uma mesma família. Os sobreviventes, Kátia Mendes Sales, de 33 anos, Jussara Fonseca, de 40, Tiago Coutinho de Macedo, de 22 e Fernanda Gonçalves de Macedo, de 14 anos, passam bem. Já Marlon Rodrigues, de 18 anos — baleado na mão direita e no cóccix — e Suellen Rodrigues de Macedo, de 22 anos — baleada no tórax — estão em estado grave e encontram-se internados nos hospitais Rocha Faria e de Saracuruna, respectivamente.

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