Uruguai: subimperialismo, terror de Estado e resistência

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Memórias e revelações de Jair Krischke - III

Às vésperas do plebiscito que 340.043 uruguaios convocaram para anular a lei que permitiu a impunidade dos torturadores que atuaram em seu país entre 1973 e 84, AND publica mais uma entrevista com o dirigente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), Jair Krischke.

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Médici conversa com Kissinger e Nixon sobre o Uruguai, em Washington

O início

"Meus vínculos com o Uruguai começam na época da Legalidade. Pouco depois, quando houve o golpe de 64, eu ajudei a tirar muitos brasileiros daqui e a levá-los para o Uruguai. Depois, passei a fazer o contrário: tirar uruguaios cuja vida corria perigo lá e trazê-los para o Brasil.

No Uruguai democrático, já se estendiam os tentáculos da CIA e do SNI. Os exilados brasileiros eram permanentemente monitorados desde 1964. O Phillip Agee era chefe da estação de trabalho da CIA em Montevidéu nessa época e conta em seu livro que pediu reforços ao Brasil nessa época, e o governo brasileiro enviou um coronel e um diplomata.

A CIA montou o aparato repressivo uruguaio — isso antes do golpe de Estado. O Dan Mitrione esteve por lá em 1968/69 dando aulas de tortura. Antes disso, esteve em Minas Gerais e aqui no Rio Grande do Sul (Krischke mostra ao repórter uma fotografia de Mitrione na entrada do Palácio da Polícia, em Porto Alegre). Na fase pré-ditatorial, entre 1967 e 71, o então presidente Jorge Pacheco Areco pediu ao Brasil para organizar o serviço secreto uruguaio".

A internacional da tortura

"Alguns dos piores torturadores uruguaios (José Nino Gavazzo, Jorge Silveira, Manuel Cordero) estiveram no Brasil. Os militares uruguaios e o Juan Carlos Blanco (chanceler de Juan María Bordaberry, presidente entre 1971 e 76) fizeram da embaixada do Uruguai em Buenos Aires um posto avançado de inteligência. Atualmente, Blanco e Bordaberry estão presos por causa disso.

Um caso que evidencia essa rede de colaboração é o do Dr. Roslik, o último crime documentado da ditadura uruguaia, ocorrido em 83. Vladimir Roslik era um médico uruguaio formado na Universidade Patrice Lumumba que morava em San Xavier, uma cidadezinha de colonização russa no interior do Uruguai. Era muito benquisto no povoado. Os militares uruguaios sequestraram-no junto com um brasileiro, Antônio Pires da Silva Júnior.. O Antônio não tinha militância política nenhuma, estava em San Xavier por acaso, por algum motivo de ordem pessoal. Quando a prisão ilegal do Antônio é denunciada, eles cruzam a fronteira e jogam ele na praça em Santana do Livramento.

O Brasil não apenas é o único país da América do Sul que não julgou os torturadores daquela época como ainda serve de refúgio a torturadores e assassinos uruguaios. Veja o caso do [Manuel] Cordero, que está passeando em Livramento depois de conseguir prisão domiciliar sob a alegação de que estava doente, enquanto o STF não julga o pedido de extradição dele feito pela Justiça uruguaia".

Tutela permanente

"Em novembro ou dezembro de 1971, Médici vai a Washington D.C. conversar com Nixon e Kissinger sobre o Uruguai. Em novembro de 2007, um general brasileiro, ex-adido militar no Uruguai, contou numa entrevista que a Operação 30 Horas — aquele plano de invasão do Uruguai denunciado pelo Paulo Schilling e pelo coronel Dickson Grael — havia sido elaborada a pedido do Pacheco e de militares uruguaios, que haviam sido alunos da Escola Superior de Guerra".

"Estado de Sítio"

"Você já viu aquele filme Estado de Sítio, do Costa-Gavras? Há uma cena em que ele mostra prisioneiros sendo levados num avião da Varig. Depois, mostra os aparelhos de tortura usados no Uruguai sendo transportados na mala diplomática brasileira. Eu sempre quis saber como o Costa-Gavras sabia disso já naquela época (o filme é de 1973).

"Pois bem: a fonte dele era o comissário [Miguel Angel] Benítez, um policial uruguaio que era tupamaro. O Benítez fez até curso na Escola das Américas e tinha acesso a essas informações desde dentro da polícia. Foi ele que contou ao Costa-Gavras sobre a participação brasileira.

"O Benítez foi descoberto porque estouraram um aparelho tupamaro e encontraram um manual da Escola das Américas sobre explosivos. Um manual relacionado a um curso que ele foi fazer lá. Aí foi preso e torturado".

Enfrentando a ditadura uruguaia

"O sequestro da Lilian Celiberti e do Universindo Díaz em Porto Alegre, em 1978, foi o primeiro caso comprovado da Operação Condor, e foi um escândalo. Nós conseguimos provar a participação uruguaia porque em maio de 1980, me procurou um ex-militar e fotógrafo da Companhia de Contra-Informação do Exército uruguaio, Julio Garcia. Ele contou tudo a troco de ir para a Europa com a família, e nós registramos o depoimento.

Em 1980/81, montamos uma pequena agência de notícias na Avenida Otávio Rocha (centro de Porto Alegre) para denunciar os crimes da ditadura uruguaia. Mandávamos tudo para a Itália por telex e de lá o conteúdo era disponibilizado para as agências internacionais de notícias.

Nessa época, o Gavazzo — que, além de torturador, era um homem da contra-informação — , tentou me desmoralizar da seguinte maneira: havia uma mulher chamada Blanca Sanabria que era utilizada pelos militares uruguaios. Era uma enfermeira, simpatizante do PVP (Partido pela Vitória do Povo), que depois de ter sido presa com panfletos foi torturada até enlouquecer. Quando eles precisavam de uma testemunha para incriminar alguém, usavam essa mulher.

Pois bem: um dia, o Gavazzo tira a Blanca Sanabria da prisão de Punta Rieles e espalha entre as outras prisioneiras que ela tinha se matado. Quando a Lilian Celiberti, ao receber a visita da mãe na prisão (separada por um vidro) conta isso para a mãe dela, o sensor corta a ligação (a conversa era por telefone) e a Lilian é punida com 15 dias de isolamento. Era uma armadilha: assim que eu denunciei a morte da Blanca, o Gavazzo a recoloca no presídio e o governo uruguaio disse que ela estava viva e sã e que estava ali a prova da mentira dos que queriam denegrir a imagem do país, etc. Foi aí que eles se estreparam. Porque viva ela até estava, mas sã?! Eu os desafiei a colocá-la para falar na televisão e claro que eles não fizeram isso, pois ela estava completamente louca".

Denúncia

"Um dos coordenadores da campanha do Lacalle (candidato à presidência do Uruguai pelo Partido Nacional nas eleições deste ano) é o coronel (Eduardo) Ferro, um dos autores do sequestro da Lilian e do Universindo. Foi durante o governo Lacalle que aconteceu o caso Berríos (sequestro e morte de Eugenio Berríos, químico chileno, por militares de seu país em Montevidéu, com a cumplicidade do Estado uruguaio)".

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