Latifúndio ataca guaranis no MS

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Polícia Federal despeja guaranis de suas terras

O sistema semifeudal brasileiro fez novas vítimas indígenas em setembro. Ataques de latifundiários e seus jagunços realizados nos dias 14 e 18, contra dois assentamentos da tribo kaiowá-guarani no Mato Grosso do Sul (MS), resultaram no assassinato de quatro índios; no ferimento de vários outros a facão e socos; incêndio das casas de 130 deles; incêndio de barracas, colchões, bicicletas, roupas e documentos de outro grupo; mortes de animais domésticos e atos terroristas que duraram quase uma semana.

No dia 14, covardemente escondidos pela noite, os atacantes incendiaram as casas da aldeia Laranjeira Nhanderu, na ex-fazenda Nova Esperança, próxima do município de Rio Brilhante, ocupada pelos índios há quase dois anos. A pretensa proprietária da fazenda é a família do falecido ex-deputado e ex-prefeito de Dourados, José Cerveira.

No dia 18, numa ação terrorista também covarde, definida como tentativa de genocídio pelo Ministério Público Federal (MPF), diversos pistoleiros (empregados de latifundiários do agronegócio) investiram contra o acampamento kaiowá-guarani às margens da BR-483, perto de Dourados. Chegaram atirando nas barracas e queimando algumas delas, resultando na morte de quatro pessoas e ferimentos em várias outras, a facões e socos.

Despejo e tiros

A violência contra a aldeia Laranjeira Nhanderu, na verdade, iniciou-se a 9 de setembro, quando a Polícia Federal deu ordem de despejo aos índios. A decisão anti-povo, de reintegração de posse aos "donos" da fazenda, foi da Justiça Federal do MS.


Damianda em frente a cabana incendiada

Poucos dias depois, quando algumas famílias ainda retiravam seus pertences, os guaranis que estavam ao longe viram "o fogo alto... vindo da aldeia", relatou o líder indígena José Almeida, o Zezinho.

Sem ter para onde ir, o grupo ocupou um local próximo, às margens da BR-163. Foi a 21ª comunidade dessa tribo jogada à beira de uma estrada no estado.

Durante as noites seguintes, até pelo menos o dia 17, os criminosos continuaram a agressão. Em vários carros, fazendeiros e jagunços acendiam os faróis e passavam em alta velocidade por entre as tendas dos índios acampados, numa clara atitude terrorista.

No dia 18, como se fosse uma ação orquestrada, outro assentamento kaiowá-guarani sofreu um ataque. Vários homens atiraram contra a comunidade Apyka´y, que vive num acampamento na BR-483, perto de Dourados. Algumas barracas e pertences foram queimados. Quatro índios morreram e diversos ficaram feridos.

Os agressores teriam dito que quem mandava naquela área da estrada não era a Polícia Federal, mas sim "a polícia da empresa". Além disso, ao verem um membro do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) chegando com uma máquina fotográfica, afirmaram: "Você quer ver, vem olhar aqui, tem quatro bugres mortos! Esses vagabundos tem mais é que morrer!"

A empresa a que os jagunços se referiram é a fazenda Serrana. O lugar foi arrendado para o plantio de cana pela usina São Fernando. A usina, por sua vez, é um empreendimento da Agropecuária JB (Grupo Bumlai) com o Grupo Bertin, um dos maiores frigoríficos da América Latina.

Quanto à Agropecuária JB, seu dono José Carlos Bumlai foi apresentado em 2002 ao candidato Luiz Inácio, que gravou ali os programas sobre agronegócio que foram usados na campanha eleitoral.

Nos vídeos, Lula assumiu "um compromisso em defesa da propriedade e da produção, afugentando o fantasma de uma reforma agrária radical".

Nos relatórios da Funai e do MPF, funcionários da usina e da empresa de segurança Gaspem são apontados como responsáveis pelo ataque aos kaiowás-guaranis. Na fazenda Serrana, enquanto ocorria a agressão, um carro da firma "dava cobertura". Para o procurador do MPF, Marco Antonio Delfino, o caso deve ser tratado como tentativa de genocídio.

A Gaspem parece estar se tornando "especialista" em atacar (e matar) indígenas no estado. Segundo Delfino, a empresa deverá ser denunciada também pelo despejo violento da fazenda Campo Belo, em 2004, pelos assassinatos dos índios Dorvalino Rocha, na fronteira com o Paraguai, em 2005 e de Xurete Lopes, uma anciã de 70 anos, em 2007.

Genocídio

A violência do latifúndio contra os guaranis do MS e o roubo de seu território ancestral são frequentes e os mencionamos em nosso livro mais recente, publicado pela Editora Aimberê, História do Caminho de Peabiru – Descobertas e segredos da rota indígena que ligava o Atlântico ao Pacífico.

As demarcações das terras deste povo se arrastam há anos, sem uma solução. A cumplicidade entre a Federação de Agricultura (Famasul) e os gerentes estaduais de turno vem impedindo a legalização das áreas indígenas. Vivendo em verdadeiros "campos de concentração", cercados e agredidos por fazendeiros, um genocídio está em curso.

Segundo os kaiowás-guaranis, em documento divulgado em 8 de junho deste ano, "temos a pior situação de demarcação de terras indígenas do Brasil, menos de 1% do território do estado de Mato Grosso do Sul, para a segunda maior população indígena do país."

O estado é hoje um pólo de forte articulação política anti-campesinato pobre e anti-indígena. Segundo Iara Tatiana Bonin, doutora em Educação pela UFRGS, os indígenas são vistos como "ervas daninhas" que devem ser erradicadas dos "jardins do latifúndio" para deixarem o caminho livre para os planos dos "jardineiros do progresso".

A cosmovisão dos povos originários conflita com o modelo semifeudal dominante. Essa situação, se por um lado é enfrentada com espírito altivo e aguerrido pelos guaranis do MS, por outro lado, não se pode ignorar que ela produz desespero, morte, fome e doenças.

Sem falar dos suicídios: já são quase 150 em cinco anos, envolvendo notadamente jovens de 9 a 14 anos de idade. É o chamado jejuvy, um ritual de morte praticado por enforcamento ou ingestão de veneno. Na língua guarani, a palavra jejuvy tem uma carga semântica que significa aperto na garganta, voz aniquilada, palavra sufocada.

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