Revolta nos trens do Rio de Janeiro

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Trabalhadores em pé de guerra contra descaso e repressão 


Na Central do Brasil a PM encurrala a população e sufoca com gás de pimenta

O transporte em trens urbanos do Rio de Janeiro tem sido um dos aspectos da tortura diária a que são submetidos os trabalhadores da região metropolitana. Enfrentam atrasos, superlotação e uma série de desrespeitos que, na segunda semana de outubro, levaram passageiros a explodir em revolta. Antes de resistir ao ataque covarde da PM de Cabral, trens foram incendiados e estações foram destruídas pela revolta das massas.

Na manhã do dia 7 de outubro, um fato nada infrequente interrompeu a rotina de milhares de trabalhadores que viajavam nos péssimos trens da Supervia, a caminho de mais um dia de superexploração. Uma pane técnica interrompeu a circulação no ramal Japerí-Central.

Em vários pontos da linha, os trens pararam repentinamente e passageiros foram forçados a caminhar pelos trilhos até a estação mais próxima, o que gerou revolta. Na estação de Deodoro, trabalhadores protestaram, quebrando catracas, bilheterias e exigindo a reposição do dinheiro das passagens. Na estação Mesquita, vagões foram incendiados pela massa que ocupou os trilhos e resistiu ao ataque da tropa de choque da Polícia Militar.

Eu vim da Central para Austin, mas só aqui o maquinista avisou que o trem ia voltar para a Central porque a condução estaria suspensa no ramal de Japerí. Eles esperam a gente pagar passagem lá para só aqui a gente ficar sabendo. Eu vou ter que pegar um ônibus e pagar outra passagem e eles não vão devolver o dinheiro. Eles jogaram balde de cloro, deram tiros para o alto, bateram nos passageiros protestou um trabalhador.

Segundo dia de revolta

No dia seguinte, por volta das 16h, outra pane em um trem vazio causou o fechamento da estação Central do Brasil, por onde passam mais de meio milhão de trabalhadores por dia. Enfurecida, a massa protestou exigindo a devolução do dinheiro das passagens. Mais uma vez ignorada e desrespeitada, a população revoltada se concentrou em protesto nessa estação que é ponto de partida para todos os trajetos do transporte ferroviário fluminense.

Com a chegada da tropa de choque da PM, o que se viu foram cenas de desmedida covardia contra o povo. Bombas e tiros de balas de borracha foram disparados indiscriminadamente pelos policiais contra a massa. Cenas chocantes mostradas pelo monopólio dos meios de comunicação foram vistas em todo o Brasil revelando como os gerenciamentos de turno no Rio de Janeiro tratam os trabalhadores. As imagens mostravam centenas de passageiros — entre eles mulheres, crianças e idosos — sufocados com o gás de pimenta, sendo alvo de dezenas de tiros de bala de borracha. Policiais miravam suas armas na altura da cabeça dos trabalhadores e continuaram atacando mesmo sem nenhum esboço de reação da massa, encurralada por seguranças do metrô às suas costas, seguranças da Supervia ao lado e a tropa de choque à frente. Na ocasião, pelo menos dez pessoas ficaram feridas.

Cinicamente, o comandante do 5º batalhão da Polícia Militar, coronel Carlos Henrique Alves, disse que “não houve excesso da PM e sim medidas para controlar a turba”.

Descaso sem limites

Dia 9 de outubro, pelo terceiro dia consecutivo, nada mudou no precário transporte oferecido pela Supervia — milionária empresa de origem espanhola que administra o transporte ferroviário no Rio — a não ser pela presença ostensiva de policiais militares em quase todas as estações, com o intuito de impedir uma nova revolta.

Motivos não faltaram. Mais uma vez, houve atrasos de quase meia hora, principalmente nas estações de Deodoro e Santa Cruz e, por isso, milhares de trabalhadores foram novamente prejudicados, entre eles o escriturário Wuarlen Fonseca.

Saí de Santa Cruz por volta das 7h30m com a previsão de chegar aqui às 8h30m. Cheguei no Centro às 9h30m. Quando eu já estava dentro da estação de Santa Cruz, ela foi fechada e ninguém deu informação — protestou indignado.

No sábado (10), mais descaso. Em Ricardo de Albuquerque, um trem que seguia pelo ramal Japerí em direção à Central do Brasil, apresentou problemas e parou 200 metros antes da estação, distância que, como sempre, foi percorrida a pé pelos passageiros.

Nada disso é novidade na rotina de quem depende dos trens, todos os dias, para produzir e sobreviver, sofrimento que há tempos a reportagem de AND acompanha de perto. Como no dia 13 de abril desse ano, quando foram exibidas por diversos veículos do monopólio dos meios de comunicação cenas que chocaram o Brasil ao mostrar centenas de trabalhadores tentando embarcar nos vagões sob uma saraivada de socos e chibatadas, desferidos por seguranças da Supervia (Ver AND 52 Agressões nos trens do Rio revoltam o Brasil).   

José Luiz Abreu, de 38 anos, usa os trens há quase duas décadas e conta que nesse longo período, nada mudou. O estivador diz que depende do transporte para garantir seu sustento, se deslocando todos os dias de Japerí, onde mora, para a zona portuária do Rio, onde trabalha, em mais de uma hora de viagem.

— Não tem jeito. Entra governo e sai governo, mas nada muda. Tudo que é para o pobre não funciona nesse país. O trem é o transporte mais popular no Rio e, por isso, a gente sofre tanto. Quantas pessoas já não perderam o emprego por causa desses atrasos todos os dias? Se ninguém protestar nada vai mudar. O que eles querem é que ninguém faça nada. Que todo mundo fique sendo massacrado e quieto, mas não é assim. Tem gente sendo agredida, assaltada e até morta nesses trens acusa o trabalhador, lembrando os descarrilamentos em Austin e no Méier, em 2008, que deixaram oito passageiros mortos e quase duzentos feridos (Ver AND 38 Trabalhadores são assassinados no trem fantasma da Supervia e AND 39 Gambiarras da Supervia causam mais um descarrilamento).

Acidente que se repetiu no final da noite do dia 19, quando um choque entre dois trens na estação de Japerí, na Baixada Fluminense, deixou 18 passageiros feridos.

A justa revolta dos trabalhadores que dependem do precário serviço oferecido pela Supervia, justifica-se pela ação do velho Estado protegendo os sanguessugas que bem representa, ao invés de garantir dignidade ao povo, restando apenas a rebelião como caminho para que as massas expurguem, de uma vez por todas, esse mal que lhes assombra a existência.

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