A banda de música é a alma do povo

As filarmônicas das cidades interioranas são o centro de atividade musical mais importante de uma região. A elas muito se deve de estímulo e de aperfeiçoamento dos modestos artistas que residem longe das cidades grandes. Há localidades que possuem mais de uma banda, abrigando homens de várias categorias sociais como médicos, barbeiros, advogados, padeiros, etc. Todos reunidos em torno de um ideal comum — a música.

A maravilhosa confraternização que provoca a execução de uma banda de música sugere dizer que uma cidade sem banda vive pela metade, é um jardim sem flores. Aliás, será justo afirmar o seguinte: a banda de música, o circo e (na hipótese de ser essa a mais importante tradição local), a Folia de Reis, não podem ser esquecidas. São atrações que embalam as velhas e as novas gerações. São escolas de arte e de cultura populares, revestidas de total espontaneidade.

Os empolgantes compassos de uma banda marcial constituem os sons mais envolventes que possam existir no mundo. Elas podem fazer as massas vibrarem, tanto no mais remoto recanto da terra, como em plena Nova York.

A atração pela marcha não se limita a esta ou àquela nacionalidade. Ela atravessou o Atlântico e veio para este hemisfério. O esplendor, a pompa, o entusiasmo de uma marcha inspiram ouvintes, músicos e marchadores, em todas as partes do mundo. A universalidade da marcha revela-se através de Carl Teike, John Philip Sousa, Keneth Alford e tantos outros autores.

Existe um Ministério da Cultura, mas, cultura de quem?

Uma rivalidade entre as bandas desperta o desejo de progresso. E dá gosto ouvi-las nos dias de festa, executando com garbo e dignidade um repertório que inclui dobrados, músicas de dança, e até trechos de óperas. Mas, com que dificuldades sobrevivem as Liras, as Filarmônicas, as Euterpes, muitas delas morrendo à mingua de recursos, de apoio governamental! Os que amam a música brasileira e as suas tradições legítimas lamentam o panorama de descaso que nos oferecem os órgãos públicos. Existe um Ministério da Cultura, mas, cultura de quem?

Louve-se empresas, como a Indústria Weril, de São Paulo, pelo belo papel que desempenha. Muitos, infelizmente, ainda não se aperceberam de que a banda de música é uma dos aspectos da estruturação comunitária do lazer de massas, e não de alguns setores da sociedade. A função essencialmente comunitária das bandas de música (não confundir com conjuntos musicais de meia dúzia de elementos, inclusive vocalistas, que nada têm de banda, embora, assim indevidamente denominados), é algo demais comovente na vocação desses conjuntos. Não apenas no que diz respeito a evolução do maxixe — impulsionado pela maestrina Chiquinha Gonzaga —, mas, também, em se tratando de outros gêneros em voga no Brasil, as bandas de música constituíram-se em agentes de decisiva importância. E isto é válido também para as capitais num segmento de sua história. O bem cultural é coletivo, comunitário. Destruindo a vida comunitária, a cidade grande destrói, conseqüentemente, o bem cultural.

Para manter a banda da cidade do interior em atividade, muitas vezes, é preciso apelar para todos os recursos possíveis.

A Bahia dá um dos melhores exemplos realizando todos os anos festivais de bandas de música, inclusive no Recôncavo. Em Valença, território fluminense, até a década de 50 o Cine Teatro Glória — hoje não mais existe, como a maioria dos cinemas, transformados em templos religiosos — promovia a Sessão da Banda. A cada semana, a arrecadação do cinema de um dia destinava-se à Sociedade Musical Progresso de Valença, banda quase centenária daquela cidade. Que belo exemplo de irmanação cultural!

A decadência das bandas de música (inclusive por falta de um programa de apoio dos governos federal e estadual), acabou dando espaço ao obscurantismo musical, de uns 40 anos para cá, com a invasão dos ritmos espúrios e alienados, como essa treva chamada Funk. Houvesse uma retaguarda baseada nas bandas de música, certamente não estaríamos sofrendo tanta deformação artística.

Qual o apoio que as prefeituras de todo o Brasil dão às bandas de música? Os políticos usam as bandas nas suas campanhas, depois as esquecem. Falta o sentimento de brasilidade, acima de tudo. Certa feita, disse Napoleão Bonaparte: “Coloque uma banda na rua e o povo a seguirá, para a festa ou para a guerra”.

Uma onda desnacionalizante varre o nosso país e massacra a genuína música brasileira

E como são essenciais nos eventos cívicos, as bandas militares executam brilhantes marchas, encantando o povo, produzindo, inclusive, belíssimas gravações. A banda de música — militar, colegial ou formada por músicos de variadas profissões — mantém uma tradição que não é apenas nossa, mas universal. Não resta dúvida: a banda de música arrebata, emociona. Tanto faz se tocando um maxixe, um dobrado, um choro, uma valsa ou um trecho de ópera. O problema é que uma onda desnacionalizante varre o nosso país e massacra a genuína música brasileira, principalmente, aquela verdadeiramente emanada do povo.

O repertório tradicional das bandas em nosso país, obrigatoriamente, representa grandes autores brasileiros, a exemplo de Heitor Villa-Lobos, Carlos Gomes, Antonino Manuel do Espírito Santo, Joaquim Naegele, Anacleto de Medeiros, Catulo da Paixão Cearense, Lírio Panicali, Pedro Salgado, João Nascimento, Teófilo de Magalhães, Estevam de Moura, Heráclio Paraguassu Guerreiro, Oswaldo Cabral, Altamiro Carrilho, Zequinha de Abreu, Francisco Braga, Ari Barroso, Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Capiba e tantos outros.

É preciso criar um Museu da Banda de Música como importante fonte de documentação do trabalho dessas e de novas bandas. E também que as ponham para tocar nas praças, nos teatros, nas estações, nos estádios de futebol — onde, absurdamente, substituíram as bandas ao vivo por gravações na execução do Hino Nacional (!?) —, mas não deixem de lembrá-las. Ouçamos com reverência as bandas de música, retomando uma grande parcela da cultura popular. A banda de música é a alma do povo!


Nota do autor : Segundo pesquisas que fiz: Aqui, no Brasil, a primeira grande solenidade abrilhantada por uma banda de música , se deu na chegada do regente D.João VI à colônia. A Banda da Brigada Real (que deu origem à atual Banda dos Fuzileiros Navais) fez as honras a D. João VI naquela oportunidade. Na época, apenas as pequenas orquestras de cordas e alguns coros de igreja atuavam no Brasil. Eram raras as bandas militares.

Sobre o autor

Zair Cançado é jornalista e radialista, membro do Conselho Administrativo da Associação Brasileira de Imprensa — ABI. Trabalhou sob as ordens do professor Josué de Castro e também de outra grande personalidade brasileira, o médico e radialista Paulo Roberto, sendo seu secretário na Rádio Nacional. Zair colaborou com a criação da Rádio e TV Nacional, de Brasília,inaugurada em 1960 na nova capital do Brasil. Ali, fundou o combativo Sindicato dos Radialistas do Distrito Federal, o que lhe valeu inúmeros processos, a partir da contra-revolução de abril de 1964. Em condições muito difíceis, trabalhou em jornais e rádios. Em 1974, decidiu trilhar pelo caminho indicado por Paulo Roberto, criador da Lira de Xopotó, divulgando as bandas de música. Atualmente, Zair produz e apresenta o Vamos Ouvir a Banda, programa de grande audiência na Rádio Bandeirantes do Rio de Janeiro — 1360 KHZ-AM, às sextas-feiras, de 22 às 23 horas. Constantemente homenageado, Zair segue agraciado com vários prêmios e moções em reconhecimento pelos grandes serviços prestados à radiofonia brasileira.

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