Jessier Quirino - Um poeta do povo matuto

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Paraibano de Campina Grande, o poeta, músico, arquiteto, declamador, Jessier Quirino diz que não se considera um estudioso, apenas um "prestador de atenção". Arquiteto por profissão, poeta por vocação e matuto por convicção, como ele mesmo se define, vive subindo nos palcos de todo país, para apresentar sua poesia declamada e os causos matutos.

Eu sou um prestador de atenção. Observo as coisas com olhos e faro de rastrejador e vou escolhendo palavras para colocar na minha poesia, nos meus escritosgosta de dizer, acrescentando que o a sua vida artística começou cedo.

— Costumo dizer que, pra essas coisas das artes, sou eu e a torre de Pisa: sempre tive inclinação. Tirando as várias modalidades de desenho, que estudei até minha graduação em arquitetura, nunca tive nenhuma formação em artes. A poesia, a música, a literatura, a força cênica, tudo isto, veio aos poucos-pouquinhos e pelas beiras como quem come papa quente.   Desde rapazote fazia isso muito à vontade, sempre imprimindo minha marca pessoal: Ou seja, declamava com uma manteiguinha a mais. Era a arma que eu usava para me impor diante dos colegas, aliviando toneladas de timidez.

Os livros, que hoje já somam dez, resultaram da sua paixão pela literatura aliada à cultura nordestina.

Para os meus versos caseiros nunca pensei em encadernação livresca. Somente em 1996 publicamos o primeiro livro "Paisagem de Interior" pelas Edições Bagaço. Tive uma crítica positiva do jornalista Mário Hélio, do Jornal do Commércio, profissional criterioso, e talvez tenha sido este o "lá vem ele!" para que o público leitor atentasse para a chegada de um matuto palavreiro das bandas da Paraíba. Não esperava que minhas costuras literárias, de agulha ferrugenta, fossem ter a repercussão que tiveram.

Sobre o papel da sua obra na afirmação da cultura popular, Jessier é modesto:

— Venho fazendo uma poesia campeira, digamos, respeitosa às nossas tradições e de forma renovada; além, claro, de outros ensaiozinhos poéticos, músicas e textos com uma marca muito pessoal. O fato é que, de uma hora pra outra, vi minha casinha de duas águas entre mansões literárias e sendo discutida em roda acadêmica, sala de aula, e eu próprio defendendo a causa a golpes de declamações por todo o país, em teatros, saletas e salões. Percebo, entre os ouvintes, um sentimento de ser sua própria voz embutida num poema, num causo, num gesto e isso aumenta minha carga de responsabilidade. Penso, talvez, que seja mais uma bandeira hasteada em defesa das nossas riquezas matutas, ressaltando que sigo apenas remedando e, ao meu modo, a fala dos grandes mestres: Zé da Luz, Catulo [da Paixão Cearense], Patativa [do Assaré], Zé Laurentino, José Lins do Rego, Gonzaga, Jackson, Sivuca, Jacinto Silva, Elino Julião, Manezim Araújo, Jararaca e Ratinho, repentistas, entre tantos outros .

Jessier se empolga e se emociona ao citar esses artistas populares, que ele tem como "verdadeiros símbolos da nossa resistência cultural".

Muitos desses mestres resistiram, cada um à sua maneira, às respectivas barreiras e "senões" impostas às suas obras, e nós vamos juntos. Acredito que ainda há certa resistência em alguns setores intelectualizados, com relação a essa coisa do dialetal matuto, a palavra plebéia, a deformação gramatical. No entanto, outras tradições populares, como o cordel (que não é necessariamente matuto) no meu entender, são bem respeitadas. No meu caso específico, há um elemento que quebra um pouco este ranço preconceituoso: é a presença de palco e a força declamatória. Em algumas situações, em território solene, antes de um recital, a platéia me recebe com feição de Rui Barbosa e no final me dá um abraço de cumpade.

Referindo-se aos poetas do povo, o poeta que fez ressurgir com muita força a arte declamatória em palcos pelo país inteiro, diz:

— Diferentemente do que possa lembrar, a poesia dita popular não é necessariamente algo simplório ou menos erudito. Talvez seja a que o povo elege como seu. Nessa ótica, podemos considerar Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Vinicius de Morais e até mesmo Augusto do Anjos, de tão cantados e decantados, como sendo poetas populares. Imagino que é feito caminho de praça: o povo escolhe por onde quer passar, não necessariamente seguindo a trilha das pedras e a coisa vai por gravidade .

A obra de Jessier Quirino retrata com humor e lirismo a vida simples do povo nordestino. Povo que está no centro de todas as suas atenções e preocupações.

Tenho percebido que aqueles que têm raízes interioranas e estão fora de suas bases por questões várias, estão com o sentimento de nordestinidade e suas almas matutas no patamar das alturas. O nosso artesanato, a nossa cachaça, a culinária etc., estão sendo estampados e respeitados em todo mundo. Observo, no entanto, que, por falta de uma boa educação, de conhecimento dos seus próprios valores, os verdadeiros matutos ficam um pouco à margem dessa trilha de auto-estima. Consomem, sem orientação pedagógica, um lixo cultural da pior espécie, impostos por uma mídia cada vez mais invasiva. E aí vai uma grande parcela dos jovens citadinos como agentes contaminadores e também consumidores desorientados. Acho que falta educação, para que possamos, definitivamente, destravar estes dois torcicolos imbecilizantes, que obrigam a olhar, um para o cristal importado, o outro para o lixo nativo, esquecendo a nobreza do barro de que somos feitos.

Livros e discos na estante do poeta nordestino

Jessier nasceu em Campina Grande, passa uns dias em João Pessoa e o resto do mês em Itabaiana, onde fixou residência desde 1983. Hoje consagrado de norte a sul e de leste a oeste do país como um dos mais dignos representantes da cultura popular nordestina, tem especial interesse na causa poética e na tradição oral do seu povo. Com uma presença de palco marcante e uma extraordinária memória, Jessier conquistou o público e a crítica dos lugares por onde passou.

Jessier publicou, pelas Edições Bagaço, os livros Paisagem de interior, Agruras da lata dágua (poesia), O chapéu mau e o lobinho vermelho (infantil), Prosa morena (poesia), Política de pé de muro (folclore político popular), Bandeira nordestina e Berro Novo, além dos CDs Paisagem de interior 1 e Paisagem de interior 2.

Prosa morena, Bandeira nordestina e Berro novo vêm com um CD encartado.

Faça um fogão de quatro tijolos, ferva um caneco de café, sinta o cheiro da poesia, cutuque as oiças com o mindinho e bote o pau pra fuxicar convida o autor.

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