Bravura e talento

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Quem o conhece diz que é um paulista com jeito de baiano, devida a sua calma que contagia quem está por perto. Mas, quando toca é só um gênio da música instrumental brasileira contemporânea. Crítico e cheio de idéias, Proveta é um dos mais importantes chorões da atualidade. Clarinetista, saxofonista, compositor, arranjador e professor, luta, juntamente com muitos outros brasileiros conscientes da necessidade de se preservar a cultura brasileira, para manter vivo o Choro.

O apelido ele ganhou aos 16 anos de idade, quando foi convidado para participar da orquestra do maestro Silvio Mazuca.

— Todos os músicos tinham apelido, era: Ferrugem, Felpudo, Buda, Tabaco, etc, (risos), e eu não poderia ficar fora disso. E na ocasião nasceu o primeiro bebê de proveta do mundo. Então como eu era muito novo, o mascote do time, me colocaram esse apelido — conta Naylor Azevedo, o Proveta.

Proveta pertence a uma família de músicos, e desde menino foi envolvido nesse universo, tocando na banda da pequena cidade de Leme, interior de São Paulo, onde nasceu, e acompanhando o pai em bailes e eventos na região. Seu avô e seu pai tocavam acordeon, e, oficialmente, seu pai era clarinetista na banda.

— Existe uma tradição musical de banda muito forte na região que eu nasci e minha família era toda unida em torno disso. Meu pai, eu e meus três irmãos participamos da banda da cidade. Era muito gostoso, e esse interesse continua em nossa família, com meus filhos também estudando música atualmente — conta orgulhoso, acrescentando que seu pai continua tocando acordeon.

Além da banda e festas, aconteciam muitos festivais de música em toda a região de Leme, que fica a duas horas da capital paulista, e Proveta usava todo o seu tempo para se dedicar a música: eram aulas, ensaios e apresentações.

— Na banda tocávamos dobrados, valsas, maxixes, trechos sinfônicos e peças como O guarani . Também alguns trechos de óperas italianas, entre outros. Nos bailes eram choros e sambas. Enfim, só coisa boa. Até porque ouvíamos o que tinha de melhor. Naquela época, década de 70, a rádio Nacional ainda tocava muito choro, e a televisão brasileira tinha orquestras fantásticas, compostas por músicos pelos quais tenho admiração — conta. — Mas a ditadura trouxe muita 'coisa de fora', lixos, e nesse embalo também andaram produzindo 'coisas estranhas' aqui no país, o que chamamos de música comercial. Com isso, a música instrumental, principalmente o choro, ficou meio que abandonada. As orquestras fabulosas foram sendo substituídas, e a televisão passou a produzir mais entretenimentos— constata.

— No entanto, hoje está acontecendo um trabalho muito forte de música brasileira, principalmente no Rio, com a Escola Portátil de Choro, uma iniciativa que vem despertando o interesse de muitos jovens por esse gênero genuinamente brasileiro. Uma música antes de tudo educadora cultural — acrescenta.

O choro do coletivo

Segundo Proveta, São Paulo também tem um movimento de choro bem resistente, com rodas de choro pela cidade, e chorões lutando pela cultura brasileira. Particularmente, Proveta dirige e leciona música instrumental brasileira, na Escola do Auditório do Ibirapuera.

— A escola tem uma faixa de 130 alunos, que uma orquestra, toca um repertório muito bonito. Além da direção, ajudo a fazer a coordenação desse repertório. É um trabalho bem direcionado aos jovens, com a preocupação ajudá-los a participar de um grupo, algo que considero muito importante para o ser humano — define.

— É muito triste perceber que alguém não faz parte de nada, de nenhum grupo, de coisa alguma que o faça crescer em inteligência e sensibilidade. E isso é o que tem acontecido na vida hoje, principalmente com os jovens. Vemos que muitas pessoas estão à parte do que pode se chamar de sociedade, envolvidas com suas individualidades, e tudo mais que faz parte do mundo capitalista, da mercadoria e do consumo — acrescenta.

Enquanto não fazem parte de um grupo, não trocam idéias, e estão fora da história do país, muitas vezes diante de uma televisão por horas, envolvidos com entretenimentos. Creio que, com certeza, essas pessoas têm coisas ricas para falar, somente, muitas vezes, nem o sabem — continua.

Proveta crê que a música em geral é um elemento que serve para unir as pessoas em grupos.

— Ela me sempre me proporcionou fazer parte de um grupo: não para conseguir um brilho, e sim para aprendizado coletivo, e vitórias coletivas. É claro que em alguns momentos fazemos um solo, mas a idéia é o conjunto, e é isso que mais me agrada, e me dá forças para querer continuar lutando — explica.

O choro em particular tem essa coisa do coletivo: as rodas, os grupos. Geralmente em uma roda existe um certo olhar de muita sinceridade, de não abandonar seu companheiro, algo que não cabe nesse capitalismo que vivemos, que incita as pessoas a tocar para brilhar, ganhar muito dinheiro e ser aplaudido por multidões. Enfim, e ego individualista, a competição, a ganância, que passa por cima de valores importantes, tornando o homem vulnerável — continua.

— Gosto muito disso no choro. Dessa importância do coletivo, das famílias, da união, e acho que um jovem hoje, mesmo que não tenha nascido em uma família de músicos, pode encontrar no choro essa identificação de grupo. Acredito que só será possível mantermos o choro, ou a música instrumental brasileira de uma forma geral, se tivermos os jovens por perto, inseridos em nossos projetos, e por isso estou nessa luta — declara.

Além de fazer apresentações solo, compor, fazer arranjos para outros artistas e dar aulas, Proveta dirige e participa da banda Mantiqueira, que tem tradição de 20 anos de existência, com muitos prêmios.

— A Mantiqueira é uma espécie de banda de gafieira, com 3 trompetes, 2 trombones, 4 sax, e mais. Já fizemos turnês pela Europa e América do Norte, gravamos 6 cds e um dvd. No repertório tem muita coisa bonita, basicamente música popular brasileira — conta Proveta, que é o fundador da banda.

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