A artista educadora

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Professora formada pela vida, Doroty Marques abandonou a carreira de cantora e compositora tradicional para dedicar-se à criação e desenvolvimento de centros culturais pelo país, formando cidadãos críticos e preparados para trilhar seus caminhos.

Artista envolvida com a cultura popular brasileira, ela gravou seu primeiro disco em 1977, ao lado de Dércio Marques e Renato Teixeira, pelo selo Marcus Pereira, um dos primeiros independentes no Brasil.  

— Comecei a fazer shows , o normal para qualquer artista, mas, como já fazia um projeto de arte na educação, achei que seria mais importante como ser humano e como artista trabalhar nesse setor, principalmente por ver essa parte deixada bem de lado no nosso país — explica.

— A escola tradicional não tem arte para não desenvolver a emoção na pessoa. No entanto, quando se desenvolve a emoção, o raciocínio sai mil vezes melhor. Procuro uma linguagem menos técnica para falar com as crianças e os jovens, porque a nossa juventude está muito perdida, e infelizmente quando o jovem não se encontra, ele vai para o lado errado — acrescenta.

Acreditando nisso, Doroty escreveu o projeto Turma que faz , e o vem desenvolvendo ao longo de 30 anos por todo o país.

— Tenho andado por quase todo o Brasil, passando por escolas, favelas, inclusive trabalhei 25 anos dentro das maiores favelas do Rio, São Paulo e Belo Horizonte. A maior missão da minha escola não é fazer do menino um artista, e sim fazer dele um ser humano, um cidadão crítico. Depois vai ver o que quer ser, mas primeiro tenho que despertar, através da arte, sua sensibilidade, fazendo com que realmente esteja preparado para saber dizer sim e dizer não, — define.

Ela chega sempre 'de mansinho' nos lugares, como diz, e vai conquistando a comunidade e trabalhando cultura.

— Primeiro estudo o que tem no local, absorvo e vou acrescentando devagarinho outros elementos que conheço, porque 'gato na casa dos outros tem que ter cuidado' (risos). Vou misturando com respeito e mostrando o bonito do Brasil, da América do Sul, porque conheço muito, já andei bastante por aí. Aprendi 'na estrada', e como é coisa bonita, coisa boa, gosto de passar para os outros — explica.

— E vou estudando como é a história do povo, e criando uma escola para as suas crianças, usando como linguagem a pintura, música, escultura, dança, dança de bonecos, tudo popular e muito bonito. A comunidade me ajuda em tudo: é um trabalho totalmente coletivo, — acrescenta.

— Conquistar a comunidade é algo fundamental para que me estabeleça no local. Faço primeiro um show onde toco, canto e danço. Se não consigo conquistá-la, vou embora, mas, se consigo, fico e abro uma casa de cultura. Então vou procurar dentro da comunidade alguém que saiba pintar, escupir, construir instrumentos musicais, tocar e vou convidando-os para participar do projeto, dando abertura para o pessoal do local mostrar seus talentos — continua.

Fazendo arte no coração do país

No momento Doroty está trabalhando na região central do Brasil, em um povoado com aproximadamente 600 pessoas, na Chapada dos Veadeiros, em Goiás.

— A partir do reconhecimento da região e do povo daqui, fui criando   todo um universo de música, dança, artesanato, arte de fabricar instrumentos, e o que mais aparece. Entre outros, esse trabalho gerou um disco onde o cerrado está bem presente. Criamos uma linguagem e ritmos em cima do folclore, — conta.

— Aqui na chapada é muito bom. Tem muita festa, muita alegria, muita natureza. Estou perto do verde e do tranquilo, com um povo maravilhoso e interessado em cultura. Tanto que permaneço por aqui há cinco anos, o que não é muito comum, já que não costumo ficar mais de dois anos em um lugar, — comenta.

— Normalmente ensino como se trabalha, deixo multiplicadores, e vou em frente, mas aqui a 'véia' andou parando (risos). Acho que é porque já estou ficando 'véia' mesmo, e quero aproveitar mais esse bom momento, — brinca a bem humorada Doroty, aos 63 anos de idade.

Ela conta que sempre considerou maravilhoso todo o trabalho que fez, em todos os lugares por onde passou.

— Me lembro, por exemplo, da floresta amazônica, aquela potência que obriga a pessoa caminhar com o 'rabo entre as pernas' de medo da onça (risos), para encontrar com o seringueiro. Também das favelas, um trabalho bonito em meio a uma 'guerra civil', que já deixou de ser uma campanha contra droga, para se tornar campanha contra pobre, — fala.

- Entre outras, já fiz duas cartilhas e 8 discos, resultado de trabalhos de toda essa andança. Um desses discos, gravei com 5 mil crianças em uma praça em Penápolis, SP. Também tenho uma gravação guardada, filmada com crianças na beira das cachoeiras aqui no parque. Montamos o estúdio com bateria de carro: arrumamos quatro baterias e 'vamos pro mato', — conta alegre.

Doroty declara ser uma artista que saiu pelo Brasil com uma mochila nas costas, uma viola, um tambor, uma sanfona e o desejo de semear arte.

— Quando cheguei aqui fui me ajeitando com o meu dinheiro mesmo. O povo me dava um lugar para dormir, oferecia comida, e fomos indo, até que conseguimos uma verba. Com esse apoio criei a 'bolsa de arte', que é uma ajuda para as crianças todos os meses — declara.

— Sou uma artista educadora formada pelo mundo. Posso dizer que criamos a nossa escola com nossas próprias mãos, porque tudo aqui é fabricado por nós. Por exemplo, compramos material em Brasília e Goiânia e fizemos nossos instrumentos musicais. Também aproveitamos uns troncos bons, que haviam caído no cerrado. E está muito bonita a nossa banda — finaliza orgulhosa.

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