Entrevista: Franck Seguy - A "ajuda humanitária" humilha o Haiti

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Franck Seguy é um haitiano que se encontra em Recife, Pernambuco, cursando mestrado na UFPE. Ele já vinha denunciando a presença das tropas de ocupação da ONU antes do terremoto e após a catástrofe na qual teve familiares vitimados, através da internet tem sabido da situação de seus compatriotas e divulgado seus relatos.

A chamada "ajuda humanitária" tem sido mesmo utilizada como ajuda ou como mais um instrumento de dominação pelas potências imperialistas?

O chamado "humanitário" é uma indústria inventada nos momentos de catástrofes sócio-políticas ou "naturais" para desumanizar a vida das vítimas. No meu ver, a ajuda é extremamente humilhante e desumana. E todos os relatos de repórteres brasileiros que consegui ler não fazem senão comprovar a utilização da ajuda humanitária para humilhar o povo negro haitiano.

Como você vê a presença massiva militar ianque em território haitiano?

A presença de militares estrangeiros, seja onde for, sempre cumpre um papel imperialista e colonizador. O USA, além de querer a mesma exploração racista que o Brasil, quer aproveitar da fraqueza decorrida da presente situação para restabelecer seu controle direto sobre o Haiti e, através disto, fazer do Haiti o mesmo que estão fazendo com a Colômbia: transformar o Haiti em bases militares ianques para vigiar seus interesses geopolíticos na América.

As verbas para reconstrução do país são empréstimos ou doações?

É difícil destacar o que são doações e o que são empréstimos nessas verbas. Por exemplo, os estatutos do FMI não prevêem possibilidade de doações, mas apenas empréstimos. Pois é bom lembrar que não é a primeira vez que se organizam grandes reuniões internacionais para prometer um monte de dinheiro ao Haiti. Por exemplo, em 2004 ocorreu um furacão que destruiu boa parte do território haitiano. Os mesmos doadores de hoje organizaram uma reunião prometendo um monte de dinheiro, mas só 2% dessas promessas se materializaram, segundo o relato do governo da época.

Como as tropas de ocupação têm atuado depois da tragédia?

Desumanidade. É com essa palavra que consegui resumir os relatos que li, sobretudo o último do [página na internet] Yahoo. Diz o seguinte: "O general Floriano Peixoto Vieira Neto, chefe das forças de paz da ONU no Haiti, não escondeu que a entrega dos alimentos serviu para, além de ajudar os haitianos, o Brasil "marcar posição", segundo palavras dele, em relação ao controle da segurança em Porto Príncipe". Isto é, as tropas de ocupação não ajudam os haitianos por que estes precisam de ajuda, mas sim por que o Brasil precisa "marcar posição".

Como o povo haitiano encara esses anos todos de ocupação militar estrangeira?

Esses anos foram uma experiência muito dura para o povo haitiano. Por exemplo, na maior favela do Haiti — Cité Soleil — não sobra uma barraca que não esteja perfurada de balas. Fui à Cité Soleil em 2007, voltei com a alma ferida depois de ter visto como interesses econômicos podem levar os mais enriquecidos a violentarem os mais empobrecidos sem nenhuma compaixão.

São horríveis os relatos de organizações de direitos humanos sobre estupros de mulheres e crianças dos dois sexos por parte dos militares estrangeiros.

Alguns países, como o Brasil, por exemplo, se interessam mais na manutenção de uma mão-de-obra barata e na exploração de outros recursos. Por isso é que os seus militares têm exercido uma repressão tão forte sobre a classe operária e a universidade durante as lutas em torno do reajuste do salário mínimo em 2009. Essa repressão culmina finalmente no próprio dia 12, horas antes do terremoto, no assassinato do professor Jean Anil Louis-Juste, figura mais radical da esquerda haitiana. Essa repressão, as mídias não mostram.

Como você vê a atuação das ONG's em seu país?

Não somente as ONGs estão desestruturando o estado nacional haitiano para fortalecerem o chamado terceiro setor, isto é, as empresas privadas, mas algumas atuam abertamente de maneira criminosa. É o caso de uma grande instituição internacional que costumava distribuir armas na Cité Soleil através de isopores, por exemplo, para depois justificar a repressão contra essa favela.

Não vou apontar uma ONG em especial, pois já analisamos bastante o papel que elas cumprem no Haiti: é uma solidariedade de espetáculo como é claramente colocado na tese do professor recém-assassinado, Jean Anil Louis-Juste "A Internacional Comunitária: ONGs chamadas alternativas e Projeto de livre individualidade. Crítica à parceria enquanto forma de solidariedade de espetáculo no Desenvolvimento de comunidade no Haiti" que devemos publicar logo.

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