Vaias do povo para Paes e seu "choque de ordem"

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As massas populares do Rio de Janeiro, cada dia mais, são encurraladas pelos desmandos do 'choque de ordem'. Prisões, agressões, roubos e demolições estão na lista das práticas cotidianas de guardas municipais, acobertados pela polícia fascista de Cabral. Mas o povo conhece seus inimigos. No início de janeiro, durante ensaio técnico das escolas de samba, no qual Eduardo Paes desfilava, a massa que ocupava a arquibancada do setor 1 do sambódromo entoou uma calorosa vaia para o gerente municipal e sua política anti-povo que já ultrapassa um ano de vigência.

Mal começava 2010 e o prefeito já anunciava mais um incremento milionário em sua empreitada de ataques ao povo pobre no Rio de Janeiro. Abastecido pela tecnologia imperialista e pelo patrocínio de Luiz Inácio, o prefeito foi a público anunciar que, esse ano, 34 milhões de reais serão investidos em 400 câmeras de 'segurança', armas 'não-letais' e torres de vigilância. Um acréscimo de esforço para exterminar a pobreza das regiões nobres da cidade e dar prosseguimento aos sonhos "olímpicos" da grande burguesia.

Ataque no réveillon

Na virada de 2010, os cães de guarda de Paes não desperdiçaram nem mesmo as últimas horas do ano para atacar trabalhadores pobres que dependem da ocasião para aumentar um pouco o orçamento. Na praia de Copacabana, momentos antes da virada, mais de mil guardas municipais e 300 policiais mobilizaram-se em uma operação de guerra contra os vendedores ambulantes, que nada puderam fazer. Ao final dos saques, foram empilhados pela repressão 97 guardas-chuvas, 87 capas de chuva, 11 arcos de cabelo, cinco camisas, 146 bandanas, 7 bandeiras, 1 mochila, 8 armações de ferro para barracas, uma lona azul, 18 taças, 103 carteiras, 44 colares, 55 pulseiras; 70 pares de brinco, 1 botijão de gás, duas churrasqueiras e 4 garrafas de champanhe.

Eu trabalho há 30 anos no comércio ambulante e nunca vi isso. O Eduardo Paes vai pagar o meu aluguel? Prometeu um monte de coisa pra conseguir o voto do trabalhador e agora faz uma pouca-vergonha dessas? Já viu mauricinho gostar de pobre, saber dos problemas do povo? Desde que ele foi subprefeito da Barra da Tijuca que é assim. A saúde pública está abandonada, o ensino público está abandonado, a cidade está abandonada, Se você vai ao Souza Aguiar, não tem um clínico, colégio sem comida, sem professores, ou seja, em um ano de governo, só se viu guarda da prefeitura caçando trabalhador na rua como se fosse bicho — protestou a ambulante Conceição da Silva Marques, de 62 anos, denunciando também os roubos do "choque de ordem".

Manda ele levar um filhinho dele lá para o [hospital] Rocha Maia, para o [hospital] Souza Aguiar. Isso é ditadura. Democracia mentirosa. Antigamente já era ruim, mas pelo menos a gente perdia a mercadoria e depois recebia um papel, ia no depósito, pagava uma taxa e recuperava alguma coisa. Agora é roubo mesmo, na cara dura. Pegam, levam e não te dão uma satisfação. Tem um monte de guarda municipal por aí armando barraca no subúrbio e vendendo nossa mercadoria pela metade do preço — denuncia.

Recolhimento ou prisão?

No primeiro domingo do ano, dia 3 de janeiro, foi a vez dos moradores de rua serem atacados pelo "choque de ordem". Nas principais ruas da zona Sul do Rio, 123 pessoas foram detidas forçadamente e encaminhadas para os obscuros abrigos da prefeitura. No total, foram presos 88 adultos e 35 crianças e adolescentes, além de dois flanelinhas que trabalhavam na região do Leblon. No mesmo dia um homem não identificado teve os dois mil cocos verdes que transportava apreendidos pelos truculentos agentes da Secretaria Especial de Ordem Pública na praia do Arpoador.

As demolições de moradias em bairros proletários também seguiram a todo vapor, principalmente após o surgimento do álibi das chamadas "áreas de risco" após as chuvas do dia 31 de dezembro. Dia 8 de janeiro, na Rocinha, duas casas na localidade Vila Verde foram destruídas pelos tratores do "choque de ordem". Na ocasião, o secretário de ordem pública Rodrigo Bethlem aproveitou para condenar outras 30 famílias a perderem suas casas na mesma região.

Em Cascadura, Eduardo Paes ameaçou destruir 59 casas que, segundo ele, também se encontram em área de risco. As famílias que viviam no local já foram obrigadas a se retirar e, até o momento, se encontram na rua.

Músico atacado

No final do ano passado, até mesmo artistas de rua e artesãos foram intimidados pelos cães de guarda de Paes. As imagens feitas pelo blogueiro Ricardo Gama e postadas em sua página na internet mostram artesãos sendo roubados pelo "choque de ordem" e o depoimento do lendário saxofonista Ademir Leão, que há décadas anima a entrada do metrô da Carioca com suas belíssimas canções. Ele foi intimidado por guardas municipais onde costuma sentar para tocar seu sax.

Há 25 anos que eu trabalho aqui no Largo da Carioca. Nunca tive problema. Essa é a primeira vez. Eles chegaram aqui e disseram que eu não podia mais tocar. Um dos guardas ainda ameaçou levar o meu saxofone. Eu tive que ir embora. O que eu poderia fazer com dez guardas em volta de mim? Eu me senti humilhado. Eu dou minha vida por esse ponto do Largo da Carioca. Eu estou com problema no pulmão, fazendo tratamento, mas faça chuva ou faça sol, sempre estou aqui tocando o meu sax — disse o músico, cumprimentado por vários trabalhadores que passavam durante a entrevista.

— Isso é um absurdo que não tem tamanho. Esse cara é patrimônio da região. Poucos artistas têm o repertório dele. Não existe Largo da Carioca sem o senhor Ademir Leão — disse um dos trabalhadores.

Praia Privatizada

Nos dia 9 e 10 de janeiro, muitos camelôs que dependem das praias da zona Sul da cidade para trabalhar e sobreviver foram atacados pelo "choque de ordem" em sua nova meta de "padronizar" as praias do Rio de Janeiro, como disse Eduardo Paes. Na ocasião, 43 cadeiras e 23 guarda-sóis foram roubados pelo Seop, além de farta quantidade de queijo coalho e camarão frito. Outros antigos trabalhadores das praias do Rio, os vendedores de chá mate e limonada que utilizam galões de alumínio, também foram atacados por Paes e seus cães de guarda, mas resistiram e, com o apoio de setores democráticos da sociedade, conseguiram pressionar o gerente municipal, que acabou voltando atrás na sua decisão de proibir a tradicional bebida nas praias da cidade.

Fiquei 20 dias parado, em casa, porque havia repressão aqui em Ipanema à venda de mate em tonel. A gente depende disso para viver. Não fui trabalhar em Copacabana porque havia o risco de ter os galões apreendidos de uma hora para a outra — disse Edvan Victor da Silva, de 32 anos, vendedor de mate há três.

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