Haiti: rapina imperialista, oportunismo semicolonial e demagogia beneficente

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Agrava-se a situação do povo haitiano. Após o terremoto que devastou a precária infra-estrutura local e matou milhares de pessoas, os grandes abutres do imperialismo e seus sequazes semicoloniais mais assanhados dão mostras de que, sem maiores pudores, vão mesmo se aproveitar da recente tragédia para reforçar a ocupação militar do país caribenho e tentar levar ao limite a ofensiva já em curso de escravização dos seus trabalhadores.

Ante as demonstrações de bravura do povo local, a União Européia aprovou o envio de policiais militarizados para lá, a fim de minar a organização da resistência. O ministro brasileiro Nelson Jobim, mal contendo a veia oportunista, já avisou que irá solicitar junto à ONU a mudança de status da presença no Brasil no Haiti, a fim de tirar proveito da "reconstrução" para as transnacionais "brasileiras" da construção civil. Ele diz querer "pacificar economicamente o Haiti". A influente revista britânica Economist sugeriu que Luiz Inácio chefie um "governo internacional para o Haiti".

O general brasileiro Floriano Peixoto, chefe das tropas da "missão de paz" das Nações Unidas no Haiti, chegou a dizer, em tom de comemoração, que uma grande operação de distribuição de comida para os flagelados haitianos serviu para o Brasil "marcar posição" no país caribenho ocupado. Talvez valesse a pena o próprio milico completar: a tal posição — edificante para os lambe-botas que gerenciam o Estado semicolonial do Brasil — é a de tapa-buraco para o imperialismo. Como os ianques andam ocupados com seus atoleiros no Oriente Médio e na Ásia Central, "terceirizaram" a ocupação do Haiti. É claro que quem arrematou o serviço sujo goza de suas benesses, como não deixam mentir as facilidades que o vice-presidente José de Alencar já vinha encontrando antes do terremoto para explorar o povo haitiano, instalando lá uma de suas fábricas a fim de lucrar sobre a miséria alheia. Agora, então, com o exército brasileiro "marcando posição", os escravocratas de cá vislumbram grandes oportunidades de negócios.

Por falar em escravização, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e o ex-chefe do imperialismo ianque Bill Clinton, atual "enviado especial das Nações Unidas para o Haiti", anunciaram no dia 21 de janeiro um programa chamado "Trabalho por Dinheiro", mediante o qual o USA quer recrutar trabalhadores locais para as empreiteiras que ficarão encarregadas de mais uma "reconstrução" de um país arrasado, mais uma "reconstrução" gerenciada em prol dos interesses dos monopólios. A infâmia consiste em propor aos haitianos trabalhar de sol a sol no serviço pesado em troca de US$ 5 por dia. A meta é "empregar" 220 mil pessoas. O detalhe é que as empreiteiras não arcarão sequer com o ônus deste salário de fome proposto a um povo em desespero: Clinton e Ban Ki-moon exortaram as potências e as semicolônias a alimentarem, com recursos dos trabalhadores do mundo, um "fundo de emergência" para este fim.

É mais uma entre as tantas exortações à ajuda que se seguiram ao terremoto no Haiti e que obedecem à velha lógica capitalista da demagogia beneficente. Trata-se de uma praga ideológica instituída pela burguesia que chega ao limiar do escárnio à verdadeira solidariedade entre os povos. Uma cadeia de lanchonetes de origem ianque que opera no Brasil, por exemplo, chegou a condicionar o tamanho da doação que faria aos haitianos ao número de sanduíches que conseguisse vender de norte a sul do nosso país — e deixou isso bem claro com grandes cartazes pendurados em cada uma das suas lojas, como quem diz: "mate a fome e não deixe um haitiano morrer".

É a hipocrisia sem limites, antagônica à verdadeira solidariedade que deve existir entre povos trabalhadores: a de classe. Mas toda esta desfaçatez com que os oportunistas promovem a si próprios a custa do sofrimento daqueles castigados tanto pelo capital opressor quanto pela natureza não resiste ao primeiro contato com a realidade. Os soldados brasileiros que do alto de caminhões atiram sacos de comida às multidões haitianas famintas lançam, junto com a "ajuda", gás lacrimogêneo para conter as massas revoltadas com o fato de que a comida é suficiente apenas para que o monopólio internacional dos meios de comunicação consiga captar imagens suficientes para reforçar a ladainha humanitária nos telejornais da noite. No USA, o Congresso aprovou lei que oferece benefícios fiscais aos ricos que fizerem doações ao Haiti. Aos olhos das classes dominantes, é também para isso que servem as tragédias.

Ajuda humanitária

Os defensores da ajuda humanitária estrangeira já não conseguem esconder as grandes contradições inerentes à estratégia ianque de ocupação do Haiti. É sobretudo estranho que em meio às centenas de milhares de haitianos vagando famintos e sem onde dormir não se encontre homens capazes de organizar a ajuda aos feridos, familiares e a si próprios. Por todo lado se vê muitos soldados e gente especializada de várias nacionalidades, mas muito poucos haitianos, mesmo nos trabalhos que exigem menor conhecimento, como a remoção de entulho, por exemplo. Mas a "comunidade internacional" não titubeia em ocupar os meios de comunicação monopolizados, reclamando de "problemas logísticos" na chegada e distribuição de ajuda.

Por que não se confiscaram os iates do milionários haitianos, que continuaram se refestelando nos balneários à beira mar enquanto seus compatriotas morrem de fome? Houve alguma dificuldade logística na organização das reuniões destinadas a determinar os milhões de dólares para salvar os bancos da bancarrota?

Coronel confessa

O que a imprensa democrática vem denunciando há muito tempo como a principal tarefa do exército brasileiro no Haiti, além de ocupar o país e agredir o povo haitiano, claro, foi confirmado pelo coronel Bernardes, comandante do BRABATT, principal batalhão brasileiro na ocupação. Respondendo a uma pergunta do pesquisador da Unicamp Otávio Calegari Jorge, o coronel disse: o Haiti, sem dúvida, serve de laboratório (exatamente, laboratório) para os militares brasileiros conterem as rebeliões nas favelas cariocas. Infelizmente isto é o melhor que podemos fazer a este país.

Além dessa revelação, o pesquisador segue denunciando a presença da Minustah no Haiti como força de ocupação militar do imperialismo. Um dia após o terremoto que arrasou Porto Príncipe, Otévio observou que "a Minustah está removendo os escombros dos hotéis de luxo onde se hospedavam ricos hóspedes estrangeiros ."

Os urubus do monopólio da imprensa

Chama a atenção também na cobertura do terremoto no Haiti a desenvoltura com que alguns repórteres circulam em veículos militares das tropas de ocupação. Uma das primeiras jornalistas brasileiras a chegar a Porto Príncipe, Heloísa Vilela, correspondente da Rede Record de Edir Macedo e cia, logo se encarapitou em helicópteros e blindados das tropas ianques. Talvez ela tenha sido beneficiada pelas boas relações com a Cia e outras agências terroristas ianques em seu trabalho como correspondente no USA.

Em geral, as coberturas do monopólio da imprensa se empenha em ensalsar as forças de ocupação como gente empenhada na ajuda aos haitianos, preocupados com todo o tipo de necessidades humanitárias, nem que para isso tenham que usar chumbo como disciplinador de filas de famintos. E a mostrar como os haitianos, que já eram incapazes de governar seu próprio destino, são ainda mais incapazes de sobreviver a uma tragédia.

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