Vozes do agreste

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Compositores do norte de Minas que falam da gente e cultura popular da região, Maia e Boavista mostram em suas músicas a realidade atual e passada desse povo sofrido do sertão, entre a pobreza, opressão e exploração, a beleza e a simplicidade do agreste.

Charles Boavista começou a trabalhar como músico profissional atuando no importante Grupo Raízes, em São Paulo, nos anos de 1970.

Carlos Maia foi um estudante de teatro que virou cantor depois de fazer um curso de voz, passando a conviver com Paulinho Pedra Azul, Saulo Laranjeira e Gonzaguinha, uma turma que o entusiasmou ainda mais a seguir em frente.

— Em 1989 gravei um disco fazendo dupla com David Simões, e vencemos um Festivale, que é o Festival do Vale do Jequitinhonha. A partir daí lancei quatro discos solos, e participei do projeto Vai de trem, cantando e falando do trem de ferro, em shows nas estações de metrô de Belo Horizonte — conta Maia.

Naturais de Montes Claros e Bocaiúva, respectivamente, os dois poetas se uniram, há seis anos, para somar em cultura.

— Logo depois que voltei para o norte de Minas, em 1998, abri um barzinho, o Cantorias, com música ao vivo. E foi lá que conheci o Charles e começamos a cantar, incentivados pelo povo que nos ouviu cantando juntos a música 'Iara'. Acabei tendo que fechar o barzinho, porque estava muito pesado carregar tudo nas costas sozinho, e a dupla continuou e se firmou — fala Maia.

— Nossa dupla faz uma espécie de MPB rural, algo bem nosso, ligada às manifestações daqui da terra. Montes Claros é uma cidade de porte médio, que funciona como cidade universitária e capital regional. Porém, a parte governamental nos deixa isolados, perdidos aqui nessa imensidão do sertão. Assim sentimos necessidade de trabalhar nossas tradições — acrescenta Boavista.

Em 2007 a dupla lançou seu primeiro disco A balada de Antônio Dó, com uma música, de mesmo nome, falando de problemas entre pequenos camponeses e grileiros.

— Essa luta é algo bem presente nos nossos dias nessa região tão pobre em termos de investimentos, mas com uma natureza muito rica. A música fala de um sujeito que viveu à beira do São Francisco, nos anos de 1920 mais ou menos. Ele resolveu defender as terras de sua família, quando viu que seriam tomadas — explica Boavista — Sem assistência, porque nem as autoridades e nem ninguém faz nada, Antônio Dó formou uma equipe de pessoas na mesma condição que a sua, quer dizer, pequenos lavradores, e resolveu se armar e enfrentar o poder - continua.

História distorcida

Segundo Boavista, muita gente até pensa que Antônio Dó é um personagem de ficção, mas é uma pessoal real, que inclusive foi mal interpretada.

— Com a música queremos desfazer o equívoco que se espalhou por aqui de que era um bandido. Inclusive foi feito um filme na década de 1970 de nome O bandido Antônio Dó, mas sob o ponto de vista da polícia. Na verdade ele não era bandido, e nem mexia com política, era somente um camponês pobre que queria defender sua pequena propriedade. Uma questão de revolta à injustiça social — explica Boavista.

— Na verdade, sua história está começando a ser revelada agora. O professor Petrônio Braz, por exemplo, lançou recentemente: O serrano de Pilão Arcado. A saga de Antônio Dó, um livro que é fruto de vinte anos de pesquisa aqui na região, contando a história desse brasileiro guerreiro — continua Boavista, acrescentando que Antônio Dó é oriundo de Pilão Arcado, BA.

Charles Boavista diz que Antônio Dó morreu já velho, por volta dos 70 anos de idade, assassinado em uma rede, dentro de casa, por uma pessoa que ele considerava como da família. O crime teria acontecido por ganância, porque já haviam espalhado pela região a notícia que Antônio Dó escondia ouro e pedras preciosas em sua casa.

— Essa foi a história divulgada por aqui. Na verdade, ele enfrentou a polícia várias vezes, em tiroteios, guerra mesmo, mas nunca conseguiram prendê-lo — comenta Boavista.

A balada de Antônio Dó é de autoria de Maia e Boavista, assim como muitas outras músicas gravadas pela dupla.

— Nosso trabalho de música é basicamente a partir das nossas composições. Podemos dizer que trabalhamos com o folclore e poetizamos fatos verídicos da região. Também tocamos instrumentos, de tudo um pouco — fala Maia.

O segundo disco da dupla, Sertão Geraes, escrito assim para valorizar a forma no passado, deverá sair no próximo mês, com músicas inéditas e algumas regravações. A dupla também está preparando um outro disco para agosto, em que resgatará o repertório dos grandes grupos da região: Raízes e Agreste.

Das Raízes ao Agreste promete trazer de volta a grandiosidade dos dois. Eles fizeram trabalhos similares, dentro da linha da cultura, falando dos problemas, das lidas, alegrias e tristezas da nossa gente do sertão — relata Boavista.

A dupla tem viajado muito pelo norte de Minas, em várias apresentações, e com esses próximos discos pretende ir para outras regiões do país: São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, entre outros lugares.

— Precisamos divulgar o que temos aqui em Minas. Então iremos fazer a distribuição dos discos através de Téo Azevedo, em São Paulo. Tenho 40 anos de trabalho com música, uma vivência e tanto, o Maia também tem quase isso, e vamos ganhar estrada — fala Boavista.

A dupla optou por fazer cd's com capas que lembram o antigo vinil, que geralmente tinha uma bonita ilustração ou foto bem trabalhada.

— O primeiro teve um desenho de Téo Salvador, e esses próximos serão de um artistas plástico daqui, o Lauro Nascimento, transformando o nosso trabalho em arte na sua totalidade — finaliza Maia.

Os discos da dupla são encontrados nos shows e no endereço eletrônico: www.maia.conexaovivo.com.br

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