Rancho carnavalesco Flor do Sereno - O Rancho de volta às ruas do Rio

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Em um domingo no Bip-Bip, tradicional reduto do samba no Rio de Janeiro, quem comparece já sabe o que encontrar: boa música, gente alegre, os tradicionais recados do Alfredinho, proprietário e guardião do Bip, e suas também tradicionalíssimas reprimendas (mais que amistosas, ainda que sérias) naqueles que insistam em falar mais alto que a música ou bater palmas perturbando a vizinhança. Mas naquele domingo o Bip tinha uma surpresa, pelo menos para um marinheiro de primeira viagem que não conhecia o Rancho Flor do Sereno.


Multidão acompanha o Flor do Sereno entre marchas-rancho e marchinhas tradicionais

Num dos intervalos da noite, o Alfredinho pede a palavra:

— Gente, está chegando o carnaval e o Rancho se prepara para mais um ano. Nesse ano conseguimos alguma verba e vamos fazer aquela festa de sempre. Aqui quem conhece sabe que todo ano é a mesma luta. Eu tenho vergonha de dizer, mas os músicos profissionais não recebem pelo seu talento. E o Rancho é composto pelos melhores músicos, profissionais de verdade, que fazem aquela beleza no carnaval. Por isso estamos vendendo essas camisas, para arrecadarmos dinheiro, pagarmos o palco que vamos montar na praia esse ano. Gente! Esse ano o Rancho vai se apresentar na praia, e quem conhece e já viu sabe que será o melhor carnaval do Rio. Aquilo que tem lá no sambódromo, aquilo é coisa para turista. Nós vamos fazer carnaval, com música de altíssima qualidade!

A música voltou e me dirigi até o Alfredinho para perguntar como era isso de "Rancho". Ele explicou com poucas palavras, afinal os músicos estavam se apresentando, mas fez o convite para no dia 15 de fevereiro, segunda-feira de carnaval, ir até o Rancho conferir pessoalmente, prometendo ser o melhor dos carnavais.

Rancho é rancho, bloco é bloco

Em uma breve pesquisa, sem pretensões de adentrar na historiografia dos ranchos carnavalescos, nos deparamos com uma tradição secular. O primeiro rancho do Rio, o "Reis de Ouro" foi criado pelo pernambucano Hilário Jovino, no final do século XIX. A partir de então os ranchos se tornaram uma grande tradição, arrastando multidões até meados do século XX, quando começaram a declinar até praticamente desaparecer.

Em 2000, já no Bip-Bip, em uma roda de conversa de sambistas surgiu a pergunta: como seria um rancho nos dias de hoje? O movimento gerado a partir dessa pergunta resultou no Flor do Sereno,   que desfilou na avenida Atlântica no carnaval de 2001 com suas cores verde, azul e prata. A partir de então o Flor do Sereno cresceu e apareceu. Com pouco dinheiro e muita disposição, atraiu grandes nomes do samba carioca, passando por Elton Medeiros, Aldir Blanc, entre outros.

Mas não vamos confundir rancho com bloco, seria o mesmo que confundir alhos com bugalhos, como se diz no dito popular. A música típica do rancho, a marcha-rancho, tem o andamento bem mais lento que as tradicionais marchinhas de carnaval ou os sambas. O desfile do rancho, por isso, é mais lento.

A festa do Rancho

Atendendo ao generoso convite do Alfredinho, no dia 15 lá estávamos nós, em meio a milhares de   outras pessoas pelo começo do Rancho. Entre pierrôs, colombinas, e outros tantos personagens fantasiados, muitas pessoas vestindo a camisa do Flor do Sereno, com suas listras horizontais azuis.

Naqueles dias de carnaval, às 19 horas, horário marcado para o começo do Rancho, o sol ainda se despedia dos foliões quando a orquestra do Rancho dava seus primeiros acordes.

As primeiras composições, feitas especialmente para o Rancho e no ritmo da autêntica marcha de rancho, abriram alas para conhecidas marchinhas de carnaval.

Diferente de tudo que imaginávamos de um carnaval do Rio de Janeiro, diante daquele palco próximo ao posto 5 de Copacabana, o carnaval suspirou aliviado por sentir que uma parte dele ainda estava sã. Façamos justiça: além do Flor do Sereno, inúmeros blocos carnavalescos do Rio mantém a tradição das marchinhas, confete e serpentina, da crítica irreverente ao sistema. Mas o Flor do Sereno, se não for o último (esperamos que não), deve ser um dos últimos, e talvez o único Rancho Carnavalesco do Rio de Janeiro, e a sua própria existência, enfrentando a falta de recursos financeiros, é uma espécie de "milagre" do carnaval e da cultura popular.

Carta de um amante dos ranchos carnavalescos
dirigida ao Flor do Sereno
publicada em www.samba-choro.com.br


Parabéns aos organizadores do Rancho Carnavalesco Flor do Sereno por mais este milagre, e por continuarem resistindo.

Sempre fui e sou apaixonado por Ranchos e marchas de rancho.

Quando os Ranchos saíam, lá estava eu pegando uma carona.

Quando os últimos saíram, chorei muito na avenida, compartilhando sua (deles) agonia.

Agora, aposentado e sexagenário, sempre canto marchas de rancho nas serestas de Niterói (a última do Itamar, belíssima, já lhe pedi a gravação).

As Secretarias Especiais da 3a. Idade (ou melhor idade), bem que poderiam investir em Ranchos, mais apropriados para os idosos, do que escolas de samba, de frevo, etc.

Vou ficando por aqui, esperando ainda viver para ver o resgate dos Ranchos.

Um abraço a todos os amantes dos Ranchos e das marchas de rancho.

Sérgio da Costa
16 de Fevereiro de 2010

 

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