Rondônia - Latifúndio contrata PMs para exterminar camponeses

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Desde meados de janeiro último circulavam notícias na imprensa de Rondônia a respeito de investigações sobre a participação direta de policiais militares na matança de camponeses e posseiros no município de Jaci Paraná, localizado a 90 quilômetros de Porto Velho – RO. O jornal Folha de Rondônia, em artigo publicado em 16 de janeiro de 2010, noticiou que "PMs estariam agindo como pistoleiros de grandes empresários e fazendeiros numa forte disputa por terras em Jaci Paraná. A formação de milícias que agem como grupos de extermínio é alvo de investigação que corre em segredo de Justiça". E ainda: "Pessoas estão desaparecendo misteriosamente na localidade. Curiosamente, os desaparecimentos são de testemunhas de algum assassinato ou desmando em que policiais militares são apontados como suspeitos".


O pistoleiro boliviano "fugiu" algemado e cercado por uma escolta de cinco policiais

Quando as primeiras informações começaram a ser divulgadas, nove assassinatos de camponeses já estavam sob investigação motivada a partir da denúncia de dois sobreviventes de uma tentativa de assassinato que, após escaparem da emboscada, prestaram denúncia reconhecendo os criminosos.

No dia 5 de fevereiro foi timidamente veiculada a notícia da prisão do latifundiário, madeireiro e empresário Adaildo Araújo da Silva, acusado como mandante do   assassinato dos camponeses Adalto da Silva Filho, Edmilson Gomes de Oliveira e Evandro Dutra Pinto em União Bandeirantes. "De acordo com a polícia, o próprio fazendeiro Adaildo Araújo da Silva, mandante do crime, estava presente na execução do sem-terra e, posteriormente, das testemunhas". [tudorondonia.com de 10 de fevereiro de 2010].

O diretor-geral da Polícia Civil, Morio Ikegawa , e o secretário estadual de Segurança, Defesa e Cidadania, Evilásio Sena, "confirmaram o envolvimento de policiais militares rondonienses em grupo de extermínio agindo como milícia para dar proteção à propriedade de um fazendeiro." [tudorondonia.com de 10 de fevereiro de 2010]

Com a prisão do latifundiário, era questão de tempo a prisão dos executores do crime e a revelação de uma rede de pistolagem e mortes de camponeses nas regiões de Jaci Paraná e Buritis.

Assassinos de aluguel

Na manhã do dia 19 de fevereiro, foram presos Claudiomar Oliveira de Assis (PM De Assis) e Paulo César Barbosa (PM Paulo César), além de Givanildo Bezerra da Silva (funcionário da PM). Todos acusados de integrar grupos de extermínio a mando de latifundiários de Jaci Paraná.

O jornal eletrônico tudorondonia.com. br de 8 de fevereiro divulgou que "segundo a polícia, o empresário Adaildo [Araújo da Silva] contratou os policiais militares Claudiomar Oliveira de Assis, mais conhecido por De Assis e Paulo César Barbosa para darem segurança particular a um plano de manejo na região do distrito de Jaci Paraná, onde existe um permanente conflito agrário envolvendo sem-terras e o fazendeiro. Os policiais militares recebiam R$ 6 mil quinzenalmente pelo serviço de proteção à propriedade particular".

Extermínio de camponeses

No dia 10 de novembro do ano passado, Osmar dos Santos Lima, 55 anos, presidente da Associação dos Produtores Rurais de Jaci Paraná, e Lucas Dias de Almeida, 29, foram assassinados a queima-roupa. Os criminosos bateram à porta da casa de Osmar e se identificaram como policiais. No momento em que Osmar abriu a porta   foi atingido por diversos disparos. Lucas Dias, que testemunhara o crime, também foi assassinado.

A página na internet reporter1.com.br revelou que "para tentar colocar a culpa num presidiário, os matadores falavam o nome do referido apenado, que teria feito juras de morte a Osmar. No entanto, o presidiário foi interrogado na Homicídios e ficou comprovado que ele estava preso no dia do crime".

O caso mais recente, investigado como ação do grupo de extermínio composto por PMs   em Jaci Paraná, foi o assassinato do posseiro Isaías Cassiano. Na madrugada do dia três de janeiro último, dois homens armados e encapuzados invadiram a casa de Isaías e o executaram com vários tiros de revólver. Os matadores arrastaram o corpo até a carroceria de uma caminhonete e desapareceram com o cadáver.

Isaías Cassiano, segundo informações da imprensa de Rondônia, teria participado da tomada de uma área de terra pertencente a um latifundiário e empresário de Porto Velho cujo nome foi omitido em todas as referências do caso. No dia 14 de janeiro, Isaías teria uma audiência no Ministério Público para apresentar denúncias e documentos que comprovariam o envolvimento de PMs em assassinatos em Jaci Paraná e região. A página na internet reporter1.com.br , em 20 de janeiro, divulgou que "Isaías confidenciou ao seu caseiro, o Baianinho, todos os crimes os quais ele denunciaria no MP. Curiosamente Baianinho também desapareceu e ninguém sabe seu paradeiro".

O reporter1 ainda acrescentou que "de acordo com o policial do Serviço de Investigações e Capturas-Sevic da Homicídios (que não quis ter nome citado), pessoas estão desaparecendo misteriosamente no distrito. Para o policial, Baianinho também foi executado como "queima de arquivo" e deram sumiço no cadáver. Os PMs apontados como suspeitos foram interrogados na Homicídios e reconhecidos por uma testemunha como autores do assassinato".

De José Gonçalves a Gilson Gonçalves: tortura e assassinatos

O motivo que levou à prisão dos policiais foi o triplo assassinato de camponeses ocorrido em União Bandeirantes – RO em 20 de novembro de 2008, noticiado na ocasião por AND que reproduziu nota da Liga dos Camponeses Pobres - LCP.

A nota dizia que "no dia 20 de novembro três camponeses indefesos foram assassinados covardemente a tiros numa emboscada numa linha em União Bandeirantes. Os responsáveis pelo crime são pistoleiros a mando de latifundiários da região e que ao que parece agiram com cobertura da polícia. Os camponeses assassinados eram Evandro Dutra Pinto, Edmilson Gomes de Oliveira e Adauto da Silva Filho".

Já em novembro de 2008, a LCP apontava o desenrolar sangrento para o conflito de terras na região devido à ação dos bandos de pistoleiros e policiais militares a soldo do latifúndio e apontava também o suposto mandante do grupo de extermínio e a participação direta de policiais em suas ações.

"Adailton é conhecido por agenciar pistoleiros e agir em conjunto com policiais na expulsão dos camponeses do acampamento Nova Conquista e de outras tomadas de terra na região. Em maio deste ano (2008) a polícia prendeu três homens com um carregamento de armas na região de Jaci Paraná que trabalhavam para Adailton . Nenhum deles está preso.

No mês passado a Polícia Federal surpreendeu vários policiais trabalhando na sede da fazenda Mutum, eles disseram que estavam lá atendendo um pedido do latifundiário "empresário" Luiz da Dipar . Ou seja, estavam atuando como mercenários. (…) O camponês Zé Vêncio foi preso no mesmo dia em sua casa num sítio próximo ao local do crime e foi levado para o presídio Urso Branco. Ele teme ser assassinado, pois Adailton Martins possui relações amigáveis com policiais de Porto Velho.

Responsabilizamos o Incra e a Ouvidoria Agrária pelo que está acontecendo na região, pois mesmo sabendo que a área em disputa é da União e que Luiz da Dipar é grileiro, nada fazem para retira-lo das terras encorajando desta forma estes assassinatos".

Passado um ano e 4 meses, o próprio diretor-geral da Polícia Civil, Morio Ikegawa , teve que reconhecer que quando do assassinato dos três camponeses em União Bandeirantes, os policiais estavam a procura de José Gonçalves Filho (Zé Vêncio ) e, não o encontrando, prenderam o camponês Adauto Silva e o torturaram para que revelasse seu paradeiro. Adauto sofreu brutais torturas, tendo suas mãos feridas por tiros. Evandro e Edmilson presenciaram a tortura do companheiro e também foram presos e assassinados. [Folha de Rondônia de 10 de fevereiro de 2010]

Em artigo de AND nº 50, em fevereiro de 2009 , noticiamos a Missão de Investigação promovida pela Associação Internacional de Advogados do Povo – IAPL em Rondônia, que visitou   José Gonçalves Filho , mais conhecido como "Zé Vêncio " no famigerado Presídio Urso Branco em Porto Velho – RO. Menos de um ano depois, na edição nº 61, de janeiro de 2010, noticiamos a tortura e assassinato de Gilson Gonçalves, filho de Zé Vêncio , dirigente da LCP. Gilson Gonçalves foi assassinado junto Élcio Machado, também dirigente da LCP, segundo denúncias dos camponeses de Buritis – RO veiculadas na imprensa nacional e internacional, a mando do latifundiário Dilson Caldato .

A "fuga" providencial de um pistoleiro

O quarto integrante acusado de fazer parte do grupo de extermínio, o boliviano Samuel Ynuma Vaca, foi preso pela polícia no distrito de Extrema e consegue fugir de forma cinematográfica debaixo do nariz de seus captores.

"Segundo o diretor-geral da Polícia Civil, Morio Ikegawa , o boliviano, após dar várias informações aos policiais que o escoltavam, disse que iria mostrar a arma que teria utilizado para participar da chacina. No local indicado, uma linha já na fronteira com a Bolívia, Vaca teria dito que as algemas estavam muito apertadas, causando-lhes hematomas nos pulsos, e pediu que fossem afrouxadas. Conforme a narração do delegado Morio , quando os policiais afrouxaram as algemas, o boliviano teria investido contra eles a cotoveladas, conseguindo desvencilhar-se da escolta e fugindo para o mato, não sendo mais localizado". [tudorondonia.com de 8 de fevereiro de 2010]

Os fatos são inegáveis. O reconhecimento por parte do próprio Estado de grupos de extermínio comandados pelo latifúndio, mais que revelar um lampejo democrático, demonstra a profunda divisão entre as classes dominantes no estado de Rondônia.   Basta saber se uma vez estando o mandante e os integrantes dos grupos de extermínio   "nas mãos da justiça", eles responderão pelos crimes cometidos contra os camponeses.

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