Eduardo Paes ataca no carnaval de rua do Rio

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"Choque de ordem": roubos, prisões e revolta

No carnaval do Rio de Janeiro, os blocos de rua são uma das poucas opções para quem não tem condições de pagar para assistir o luxuoso desfile das escolas de samba do grupo especial — onde os ingressos atingem a faixa de dois mil reais. Ali, misturam-se foliões e trabalhadores pobres, que há décadas aproveitam o carnaval para complementar a renda do mês vendendo bebidas e alimentos. Este ano, o "choque de ordem" fechou o cerco nas ruas da cidade para reprimir ambos, uns criminalizados por trabalharem e outros por urinarem nas calçadas. Vale lembrar que a gerência municipal disponibilizou 4 mil banheiros químicos para o carnaval, sendo que em blocos, como o tradicional Carmelitas de Santa Tereza, que reuniu quinze mil foliões, haviam meros 20 sanitários. No desfile do mais popular de todos os blocos, O Cordão do Bola Preta, mais de 1,5 milhão de pessoas se engalfinharam para utilizar os 115 banheiros químicos disponibilizados pela prefeitura. Na ocasião, 30 pessoas foram presas por urinar na rua.

No total, em todo o carnaval do Rio, 302 pessoas foram presas por urinar nas ruas da cidade. Elas foram enquadradas no artigo 233 do código penal — ato obsceno — podendo ser condenadas a um ano de prisão.

— Não aguentei. Sei que não é nada certo, mas fiquei quase uma hora na fila do banheiro. Se esperasse mais ia urinar nas calças. Tinha mais gente esperando na fila do que atrás do bloco. Se você curte o carnaval na rua, tem que se sujeitar a isso. Um absurdo. Eles não querem saber. Saem te algemando e te arrastando como se você tivesse matado alguém. Foi uma covardia. Agora estou impedido de prestar um concurso público. Estou estudando há meses. Só saí da prisão porque minha família pagou minha fiança. Quem não tem alguém pra pagar fica preso — disse Daniel Saddi, de 26 anos, morador da Tijuca preso por urinar na rua durante o desfile do bloco Azeitona sem Caroço , no bairro do Leblon.

Outros que também foram duramente perseguidos durante o carnaval — como já acontece ao longo do ano — foram os vendedores ambulantes. Para esses, o carnaval não trouxe alegria alguma. No Centro da cidade, onde 360 guardas foram designados por Eduardo Paes para reprimir camelôs, dezenas de trabalhadores tiveram suas mercadorias roubadas pelo "choque de ordem".

Camelôs resistem

Na sexta-feira de carnaval, camelôs já se organizavam para reagir. Nos arredores do sambódromo, cerca de cem trabalhadores atacaram uma equipe do "choque de ordem" deixando um dos agentes gravemente ferido. Neste dia, que abriu o carnaval 2010, um total de 2.103 itens foram roubados dos vendedores ambulantes em todos os locais de folia pela cidade.

Antes do carnaval, a repressão já tomava níveis insultuosos. Nas praias da cidade, no dia 23 de janeiro, o "choque de ordem" apreendeu 230 cadeiras de praia, 130 guarda-sóis, 90 cadeiras de plástico, 25 isopores e 10 mesas de plástico. O material foi roubado de camelôs, muitos deles, como o senhor Moacyr Pereira, de 63 anos, que há décadas depende do trabalho informal praiano para sobreviver.

— Trabalho há 28 anos aqui em Copacabana. Nunca achei que seriamos tratados assim por ninguém, muito menos pelos governos, que deveriam cuidar da gente. Agora, estou passando dificuldade, pois não vou me sujeitar a passar vergonha na praia sendo roubado e humilhado, como aconteceu com muitos colegas meus. Prefiro parar de trabalhar. Pelo menos enquanto estiver essa pouca-vergonha que o nosso prefeito está fazendo contra o trabalhador — protesta Moacyr.

Além disso, na terça-feira que fechou o carnaval, 12 flanelinhas foram presos pelo "choque de ordem" no tradicional bairro da Lapa e, no mesmo dia, um depósito na Rua da Alfândega, Centro da cidade, com mais de 25 mil itens que pertenciam a camelôs foi saqueado por agentes da prefeitura, que com o apoio do monopólio dos meios de comunicação e sem nenhuma perícia, declaram tudo como material pirata.

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