Copa do Mundo mostra a quem serviu a 'libertação' da África do Sul

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No último mês de janeiro o governo da África do Sul, confiado a negros prontos a colaborar com os velhos brancos racistas, exploradores e imperialistas, anunciou uma série de medidas para "melhorar a segurança" na Copa do Mundo de futebol que será realizada no país nos meses de junho e julho deste ano. Serão comprados 40 helicópteros equipados com câmeras e metralhadoras, e nada menos do que 300 mil homens, entre policiais e soldados, serão mobilizados para a missão de manter as massas sul-africanas na rédea curta.

O equivalente a R$ 400 milhões em recursos do povo serão repassados a firmas estrangeiras especializadas em fabricar equipamentos para a repressão. No fim das contas, são os trabalhadores pagando pelo reforço das políticas fascistas dirigidas a eles próprios, e pela perpetuação do apartheid sul-africano, que jamais deixou de existir. Trata-se de uma espécie de "versão apartheid" do choque de ordem de Cabral e Eduardo Paes, ofensiva de militarização, repressão aos pobres e ocupação das favelas que o governador do Rio de Janeiro e o prefeito carioca vêm levando a cabo na capital fluminense. As empresas do setor de "segurança privada", que já faturam US$ 5 bilhões por ano na África do Sul e têm um efetivo duas vezes maior que o da própria polícia, vislumbram agora perspectivas de lucrarem ainda mais com o incremento da repressão.

O mote para desencadear de vez a grande operação de controle das massas sul-africanas durante a próxima Copa do Mundo foi o ataque sofrido pelo ônibus da seleção de futebol do Togo em Angola, em janeiro passado, quando a delegação togolesa estava a caminho de disputar a Copa Africana de Nações. Foi a desculpa da qual ansiava o "presidente" da África do Sul, Jacob Zuma, para avançar com uma verdadeira declaração de guerra contra as classes populares do país. O povo sul-africano, aliás, vem sendo desrespeitado e mesmo humilhado por empresas transnacionais. Uma firma britânica de segurança colocou à venda coletes à prova de facadas para os ricos que pretendem ir à Copa, e anunciou ainda que vai abrir um estande no aeroporto de Johannesburgo para negociar sua mercadoria infame, o que causou indignação entre os pobres do país-sede do evento.

Os trabalhadores da África do Sul já deram mostras de que não estão dispostos a embarcar no oba-oba festivo do campeonato caça-níquel que a Fifa e a gerência do país querem lhes impor, tudo enquanto se tenta maquiar as profundas contradições de classe, a miséria e a segregação nas quais a semicolônia sul-africana permanece mergulhada. Em meados do ano passado, os operários que trabalham na construção da infra-estrutura exigida pela Fifa para a realização da Copa do Mundo se levantaram em uma grande greve. Na mesma época, as massas da África do Sul levaram a cabo a maior onda de mobilizações e protestos dos últimos anos. Mais de 150 mil trabalhadores do serviço público cruzaram os braços.

Nos bairros populares, a indignação com o oportunismo e a corrupção do Congresso Nacional Africano, partido de Nelson Mandela e de Zuma, fomenta a rebelião. Mandela chegou a pedir votos para Zuma prometendo que seu correligionário "acabaria com a pobreza", mas o desemprego é reinante, e os salários de fome pagos aos negros do país aumentaram apenas 37,3% desde 1994, enquanto a renda já muito maior da elite branca deu um salto de 83,5%. Sintoma de a quem serviu a "libertação" do país. A gerência do Congresso Nacional Africano investe bilhões de dólares para armar a polícia e contratar mercenários anti-povo a fim de garantir a tranquilidade das transnacionais e dos magnatas que exploram o filão do turismo.

Em meados de março, os trabalhadores ligados ao transporte de vans levantaram-se em uma vigorosa jornada de lutas contra os ataques do governo, que quer varrê-los das ruas para a chegada do circo da Copa do Mundo e abrir caminho para as grandes empresas privadas de transporte coletivo. "Nossa atividade dá emprego a motoristas, mecânicos, frentistas e outros. Devido à Copa, o governo quer acabar com tudo", disse um motorista de van a um repórter brasileiro que já está na África do Sul para cobrir o campeonato mundial de seleções de futebol. Este mesmo repórter, a serviço do jornal Folha de S. Paulo, relatou que um motorista "mais exaltado" queria depredar o estádio onde acontecerá o jogo de abertura.

Os promotores do evento estão particularmente apavorados com a série de greves que estão se desenhando em função do escandaloso aumento de 25% da energia elétrica autorizado pela gerência Zuma. Fartos de tanta precariedade, os trabalhadores avolumam os protestos contra o fato de o país estar realizando obras suntuosas para a Copa (como o hotel de luxo que está sendo levantado especialmente para receber a seleção brasileira) enquanto o povo não tem sequer saneamento básico minimamente satisfatório. As massas já atacaram "prédios públicos", os da burocracia semicolonial, casas de políticos eleitoreiros e negócios de comerciantes estrangeiros .

A gerência sul-africana e a Fifa estão tão desnorteadas a ponto de o vice-presidente do país, Kgalema Motanthe, ter tido a desfaçatez de pedir o fim dos protestos do povo exatamente na data em que se completaram 50 anos do massacre de Shaperville, episódio em que, no dia 21 de março de 1960, 69 negros foram mortos a tiros de metralhadora pela polícia dos brancos quando protestavam contra a Lei do Passe, invenção dos brancos racistas que lhes obrigava a andarem com uma caderneta onde constavam os lugares que poderiam frequentar.

É lá como cá. As perspectivas não são diferentes para os trabalhadores brasileiros quanto à realização em nosso país da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. O que se preconiza, ao contrário da celebração esportiva que se alardeia, é mais e mais repressão e controle social. Enfim: enquanto os gerentes do velho Estado vão preparando o terreno para a festa dos ricos, vão também reforçando as políticas fascistas para tentarem, em vão, manter o povo pobre no cabresto.

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