Demagogia de proteção à mãe terra

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O aquecimento global que está afetando o planeta vem se manifestando com uma série de eventos naturais e cobrando muitas vidas, particularmente dos mais pobres que vivem em áreas mais instáveis e inseguras no mundo. Um olhar atento ao redor do globo, às causas do atual comportamento do planeta, sem dúvida, nos leva a questionar o sistema capitalista mundial, porque este sistema de morte não só sustenta a exploração de bilhões de seres humanos, como também saqueia e devasta o planeta, na medida em que é cada vez mais clara a sua finitude e insustentabilidade.


Evo Morales visita Parque Nacional Madidi onde PDVSA e YPFB exprorarão petróleo boliviano

Estes argumentos são adicionados à longa lista de razões que temos para varrer o sistema capitalista da face da terra, mais cedo ou mais tarde.

Infelizmente, este tema que é uma preocupação cada vez maior nas discussões sobre o cenário do mundo contemporâneo, está servindo para um bando de oportunistas que se auto-intitularam "revolucionários" ou "socialistas do século XXI", liderados por Evo Morales da Bolívia e Hugo Chávez da Venezuela, mostrarem uma ambição de protagonismo e cinicamente se atribuindo um suposto papel de defensores do planeta e da "mãe terra".

Em dezembro de 2009, a denominada Cúpula das Mudanças Climáticas em Copenhague resultou num fracasso retumbante, pois os países imperialistas, sob nenhuma circunstância, aceitaram retrair o ritmo de suas economias para preservar um pouco o espoliado equilíbrio natural do mundo. Entretanto os governos das semicolônias aproveitaram a aparente fragilidade do planeta para negociar ou lutar por mais financiamentos em supostas lutas contra as alterações climáticas, sob a aberrante fórmula de fetiche capitalista dos bônus de redução da emissão de gases de efeito estufa.

Neste contexto, o staff de assessores de imagem de Evo Morales, caracterizado pelo uso e imitação caricaturesca das táticas comunicacionais de Joseph Goebbels, nazista que comandava a máquina midiática de Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial, aproveitou a oportunidade para o marketing político e se atribuiu a ridícula tarefa de transformar Morales em um suposto líder de "estatura internacional".

Na mencionada Cúpula, Morales, ostentando posturas histriônicas, começou com um discurso hipócrita de luta contra o capitalismo, que expressa apenas da boca para fora, enquanto em território boliviano foi dada a tarefa de fortalecer prática, teórica e politicamente o capitalismo burocrático. E como de costume, se dirigiu da Cúpula ao Forum Alternativo de Mudanças Climáticas, desenvolvido por ativistas da "esquerda caviar" e suas organizações não-governamentais (ONGs), que atacam também retoricamente os países imperialistas com o único objetivo de barganhar financiamento de suas atividades inofensivas, que jamais questionaram de forma contudente e honesta o imperialismo ou mesmo o extrativismo.

Como é sabido, a Cúpula de Mudanças Climáticas não chegou a qualquer acordo, o que não surpreende, uma vez que as principais potências imperialistas estão evitando há tempos os compromissos de redução de gases de efeito estufa, embora sejam geradores da maior emissão destes gases planeta. Portanto, nem sequer assinaram o Protocolo de Quioto sobre as Mudanças Climáticas e se limitam apenas insensatamente a financiar as atividades de atenuação realizadas por países semicoloniais.

Imediatamente, o oportunista Evo Morales aproveitou para convocar a Conferência Mundial dos Povos sobre as Mudanças Climáticas e os Direitos da Mãe Terra , que decorrerá entre 20 e 22 de abril de 2010 em Cochabamba, como também não deixou de dar opiniões pitorescas sobre o filme Avatar, de James Cameron, no sentido de qual seria sua opinião sobre a luta de um povo contra o sistema capitalista.

O o portunismo de Morales é evidenciado por contrastar a retórica com a prática. Por isso, se formos aos fatos, podemos constatar que o governo de Evo Morales aprofundou o capitalismo burocrático em toda Bolívia, permitindo o desenvolvimento de práticas de exploração florestal na Amazônia boliviana que, além dos principais predadores dos ecossistemas amazônicos, estabelecem relações semifeudais nas madeireiras e na vasta cadeia do comércio de madeira, permitindo aos madeireiros maiores lucros que os auferidos por traficantes de drogas.

O Estado boliviano, sob a gerência de Evo Morales, além da retórica, tem enfatizado políticas entreguistas às transnacionais de petróleo e mineração, a tal ponto que mais de 80% do Produto Interno Bruto da Bolívia consiste na extração de hidrocarbonetos e minerais, o que significa corte indiscriminado de árvores, contaminação dos rios em áreas protegidas e outras áreas frágeis, onde o Estado boliviano explora recursos naturais em contratos de risco com empresas transnacionais.

Assim, no Chaco boliviano, na fronteira com Paraguai e Argentina, continua promovendo as explorações de petróleo na área protegida de Aguarague, ecossistema de floresta seca, o que garante a sustentabilidade da água em uma região que está constantemente atingida pela seca. No entanto, as empresas exploradoras de hidrocarbonetos não só consomem enormes quantidades de água, mas também poluem rios drasticamente, sem que as autoridades ambientais da Bolívia fiscalizem ou tomem medidas para preservar esta área que deveria ser "protegida", na qual coexistem biodiversidade e populações indígenas guarani, wenhayek e tapiete.

Da mesma forma, a concessão de minério de ferro de "El Mutún" está localizada perto de um parque natural na região de Chiquitanía, no leste boliviano, que põe em perigo este frágil ecossistema de grande biodiversidade.

Mas uma das melhores provas de cinismo e demagogia de Morales é a soma de projetos extrativistas que deseja aplicar no Parque Nacional Madidi, situado na Amazônia boliviana. Esta área protegida tem mais de 1,8 milhão de hectares e estima-se que tenha cerca de 5 mil espécies de plantas, 1.400 espécies de vertebrados, 300 espécies de peixes, que fazem com que seja a área natural com maior riqueza de espécies no mundo. Além disso se sabe, por estudos antropológicos, que dentro da selva virgem do parque habitam grupos indígenas não contatados.

Em Madidi, a gerência de Evo Morales está permitindo explorações sísmicas em busca de petróleo, com base num contrato entre Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB) e Petróleos de Venezuela Sociedad Anónima (PDVSA). Este governo não pretende controlar a exploração indiscriminada das florestas e por isso a mascara. Por outro lado, efetua uma série de negociações para a construção de estradas, no âmbito do acordo entre os 12 países da América do Sul chamado Iniciativa para a Integração da Infra-Estrutura Regional da América do Sul (IIRSA), que afetará drasticamente estes ecossistemas, e também ameaçou construir uma usina de açúcar em San Buenaventura, nas imediações do parque.

Da mesma forma, a gerência de Morales dissimula o esgotamento definitivo de todas as fontes de água no sudoeste de Potosí pela Empresa Minera San Cristóbal — de propriedade da transnacional japonesa Sumitomo, o maior empreendimento de mineração a céu aberto na Bolívia, que sozinho é responsável por 2% do Produto Interno Bruto do país — em detrimento destes ecossistemas, próximos à Reserva Eduardo Abaroa e da sustentabilidade da produção de pequenos camponeses, que estão sendo excluídos do acesso à água.

Esta lista de fatos, entre outras coisas, nos mostram claramente que estamos lidando com um indivíduo, Evo Morales, um governo e um Estado que não se preocupam de maneira alguma com o que pode acontecer à " Mãe Terra" , ou aos povos indígenas, ou aos camponeses, aos quais utiliza como escudo ou pretexto para exigir mais dinheiro ou mais empréstimos da chamada Cooperação Internacional, da qual o Estado boliviano vergonhosamente depende, pois, além do palavrório demagógico — supostamente contra o capitalismo — mais de 62% do investimento público na Bolívia é financiado pela "Cooperação Internacional".

Quando alguns ativistas ambientais denunciaram a ambiguidade do discurso em defesa da Pachamama (Mãe Terra), o ataque discursivo ao sistema capitalista e os fatos que demonstram o estado de espírito pró-capitalista e imperialista, a gerência de Evo Morales reagiu com repressão e abusos, estigmatizando aqueles que lutam pela defesa da natureza, contra a evidente depredação capitalista. Para isso, acusaram os ativistas de se oporem a que o Estado boliviano receba fundos suficientes para cobrir uma série de bônus assistencialistas utilizados pela gerência boliviana para a cooptação das massas, como bônus para os idosos, curiosamente chamado de "Renda Dignidade", o bônus para alunos de cursos básicos chamado "Juancito Pinto" e o bônus às mães grávidas chamado "Juana Azurduy", bônus que supostamente estão destinados a redistribuir a riqueza na Bolívia, situação absurda devida às quantias ridículas que se repartem em um contexto político de permanentes processos eleitorais, no qual fica claro que estes bônus são utilizados como prebendas que buscam atrair apenas fidelidades eleitorais.

Evo Morales durante muitos anos tem se destacado demagogicamente sobre as massas bolivianas com um discurso contrário ao neoliberalismo, que a rigor não é um discurso contrário ao sistema capitalista, pois todas suas medidas de extração, que incidem sobre a velha política semicolonial, sob um manto neo-estatista, são também funcionais e sustentam a fusão de interesses semifeudais e imperialistas, sintetizados no capitalismo burocrático, que destrói a natureza e os oprimidos da terra, proletários, camponeses e povos indígenas.

Sua pregação mentirosa responde a um marketing político goebbeliano para soar como um líder mundial, que supostamente defende a natureza e os povos indígenas, mas é apenas um simples "encantador de serpentes", que simultaneamente aspira ganhar o "Prêmio Nobel da Paz" — com o qual muitos genocidas já foram condecorados — para tentar frear o ímpeto revolucionário dos povos do mundo, através de uma conversa fútil e inútil para pegar ingênuos.

Assim, esses fatos mostram que a tarefa obrigatória de demolir definitivamente o capitalismo também passa por expor aqueles oportunistas que, disfarçados de anti-capitalistas, só servem para esconder ambições pessoais, sem minimamente afetar o desenvolvimento do capitalismo. Esses agentes secretos do imperialismo são os que servem melhor ao fortalecimento do capitalismo burocrático, através de seus cantos de sereia pseudo-revolucionários, porque obviamente, como eles se apresentam como heróis do povo e da ecologia, servem de fato ao sistema capitalista, reforçando seu aprofundamento e destruição do planeta, além de toda a hipocrisia e retórica que transbordam.

Certamente, a Conferência sobre Mudanças Climáticas convocada por Evo Morales pode ser um excelente espaço para que os povos do mundo desmascarem os oportunistas que saltam a reboque "da mudança climática" para obter ganhos políticos e que possam por na ordem do dia a luta por sua emancipação.

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