Camponeses realizam seminário no Nordeste - A produção nas terras da Revolução Agrária

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Nos dias 06 e 07 de março de 2010 foi realizado o "I Seminário de Produção da Área Revolucionária José Ricardo", Lagoa dos Gatos/PE.

Após o Corte Popular (divisão da fazenda em lotes, entregues a cada família) na Área Revolucionária1 José Ricardo, concluído em abril do ano passado, se verificou um aumento imediato da produção na área. (ver quadro)

Estimulados pelo progresso obtido — fruto de sua luta e trabalho — os camponeses perceberam que podem avançar ainda mais.

O Programa agrário

Os debates acerca do I Plano de Produção se deram como parte da discussão sobre como fazer avançar mais a Revolução Agrária na Área José Ricardo, através da aplicação dos pilares fundamentais do Programa Agrário e de Defesa dos Direitos do Povo que são:

1 Tomar e cortar todas as terras do latifúndio;

2 Desenvolver as forças produtivas e impulsionar novas relações de produção;

3 Construir nas áreas tomadas os embriões do Novo Poder.

Já tendo cumprido o primeiro ponto com o Corte Popular em 2009, os camponeses concentram agora esforços para desenvolver os passos seguintes.

Quadro de Produção 2009/2010 na área José Ricardo 

Principais Produtos Produção 2009 Meta para Inverno/2010
Macaxeira 63 Toneladas 100 Ton.
Mandioca (brava) 75 Ton. 89 Ton.
Batata 71 Ton. 109 Ton.
Milho 15,2 Ton. + 600 sacos em espiga 36,4 Ton. + 38 sacos em espiga
Feijão 9 Ton. 21,8 Ton.
Alface 28.650 pés 114.600 pés
Coentro 9,6 T + 380 kg de sementes 41 Ton.
Quiabo 78 Ton. 126 Ton.

Os preparativos do Seminário

O Comitê de Defesa da Revolução Agrária — CDRA e a Escola Popular elaboraram um documento preparatório do Seminário, que foi debatido com todos da área e cada família respondeu um "Questionário da Produção 2009/2010", cujos resultados globais seriam apresentados no Seminário. Assim o CDRA pôde debater amplamente as idéias do Plano de Produção. Os debates preparatórios remexeram com a área e várias propostas surgiram, como a possibilidade de organizar a compra de insumos e herbicidas para todos da área de forma centralizada, já que assim os custos reduziriam em até 45%.

A luta pela produção

Participaram do Seminário lideranças das Áreas de Peri-peri e Santa Luzia, além de dezenas de camponeses da área José Ricardo. Professores e estudantes da Universidade Federal de Alagoas, acompanhados de duas estudantes de Serviço Social da Universidade de Valência (Espanha), bem como de Pernambuco, prestigiaram o evento e deram contribuições importantes aos debates.

Na abertura do Seminário, um dirigente da Liga dos Camponeses Pobres do Nordeste destacou os avanços da Revolução Agrária na região, como a recente tomada de um latifúndio no Ceará. O dirigente ainda frisou a luta política travada no seio do movimento camponês após a declarada capitulação da direção do MST, expressa na entrevista de João Pedro Stédile ao jornal Zero Hora/RS quando afirmou que "a ocupação não interessa mais".

— A LCP, erguendo alto a bandeira da revolução agrária conclama todos os camponeses pobres sem terra ou com pouca terra, incluindo as bases combativas que ainda se encontram sob a direção do MST a se lançarem à luta pela completa destruição do latifúndio — convocou.

Romper os grilhões da "reforma agrária"

O agrônomo e professor da UFAL, Cícero Avião, em sua exposição, apresentou uma pesquisa sobre os assentamentos rurais que mostrava dados alarmantes: a maioria deles, após alguns anos da conquista da terra, se encontram abandonados, sem produção próspera, e em vários casos, as famílias que inicialmente lutaram por aquele pedaço de terra já não se encontravam mais nas áreas.

Na pesquisa foram elencados uma série de fatores como causa do fracasso destes assentamentos, entre os quais:

1o endividamento das famílias com os créditos oferecidos pelo governo;

2 os assentados não recebem apoio técnico adequado;


3a falta de organização cooperada das famílias camponesas. Este último foi o fator apontado pelo Prof. Cícero como o principal, já que sem organização coletiva os camponeses se isolam na pequena produção individual e não conseguem superar dificuldades como o baixo desenvolvimento técnico da produção e sua consequente baixa produtividade, a exploração do atravessador, entre outros.

Os argumentos expostos explicam em parte a causa do fracasso da "reforma agrária" de Luiz Inácio e seus antecessores na gerência do Estado burguês-latifundiário, quando os pouquíssimos projetos que saem do papel terminam na ruína para grande parte das famílias camponesas.

O professor Cícero ainda ressaltou a importância do planejamento de cada parcela, da criação de animais, tanto para o consumo e venda, como para a utilização do esterco para fertilização do solo.

A área revolucionária deve preservar a área de mata, importante para não deixar o solo descoberto, protegendo-o das chuvas torrenciais do inverno que causam a erosão do solo e também do forte sol do verão, que pode matar os microorganismos do solo, responsáveis pela decomposição da matéria orgânica. Além disso, essas áreas constituem sempre reserva de alimentos (caça) e madeira, além de ser vital para a preservação da água — destacou o professor.

Desenvolver o trabalho cooperado

No segundo dia o Seminário debateu a importância do trabalho cooperado e a organização dos Grupos de Ajuda Mútua. Fernando Barbosa — integrante do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos — abordou os aspectos ideológicos e políticos do trabalho cooperado.

Se só pensarmos em nós mesmos e em nossos filhos, se quisermos crescer individualmente sem nos importar com os demais companheiros, ou seja, se nos basearmos pelo individualismo, só construiremos novos 'Cordeirinhos' [referência ao coronel Cordeirinho, antigo proprietário da fazenda] . Ao contrário, se queremos uma nova sociedade, devemos cultivar a solidariedade, a ajuda mútua não só na produção, mas em todos os aspectos da vida na área, como a educação das crianças e dos jovens, a construção de obras que beneficiarão a todos, o apoio à outras áreas em luta e conflito com o latifúndio — explicou Fernando .

O camponês encontra novas soluções

— Tenho bichos para dar de comer todos os dias e não tenho filhos para me ajudar, então não posso participar do grupo de ajuda mútua todos os dias, mas sempre que tem algum trabalho coletivo na área gosto de participar — disse sr. Jairo, abrindo o debate.

— Trabalho com horta e neste sol não posso ficar nem um dia sem irrigar porque senão a alface amarela, o coentro murcha... mas no inverno não preciso aguar por causa da chuva, então dá pra entrar num grupo de produção — animou-se sr. João Alves.

O sr. "Ciço", que faz parte do primeiro grupo de ajuda mútua da área José Ricardo, contou sobre o trabalho da semana:

— Foi muito animado e todos trabalharam igual, deu uma animação maior e rendeu bem mais.

Éder, jovem que também está neste grupo, problematizou:

— Foi muito bom e vai dar certo, mas vimos que alternar as áreas cultivadas todos os dias da semana fica difícil, porque demora a voltarmos na primeira parcela de terra trabalhada; estamos vendo como vamos fazer — disse pensativo.

Maria falou:

— Eu estava trabalhando com costura e pensei mesmo só em mim, em ganhar mais, mas aí vi que não ia dar conta de tanto trabalho sozinha. Chamei outras companheiras e formamos um grupo, o trabalho avançou bem mais e foi outra coisa! — relatou animada.

A experiência aprimora o plano

As falas se sucederam e revelaram pontos importantes que ainda não estavam tão claros no documento inicial do CDRA sobre o Plano de Produção. O exemplo de sr. João serviu para demonstrar que nem todos poderão se incorporar em grupos de troca de trabalho no verão, tendo que esperar mesmo pelo inverno. Já o sr. Jairo, que cuida de sua criação, fez ver que a ajuda mútua não é só troca de trabalho, mas também aqueles realizados voluntariamente para melhorias na parcela de algum companheiro (como drenar brejos, ou construir cercas), trabalho que somente uma família não consegue fazer, ou mesmo mutirões para cuidado e melhorias gerais da área. Surgiram a partir deste debate e relatos outras idéias, como a ajuda mútua para a colheita e lavação de batatas, transporte das mercadorias e comercialização.

A presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lagoa dos Gatos, conhecida por todos como "Zefinha", reforçou a defesa da implementação do trabalho cooperado e alertando de que "não será fácil, pois nunca houve em Lagoa dos Gatos um trabalho organizado desta forma, mas, era importante persistir em realizá-lo."

Surgem os primeiros Grupos de Ajuda Mútua

Após o Seminário, três Grupos de Ajuda Mútua (GAM) foram organizados, estes discutiram e definiram a organização do trabalho.

O primeiro grupo definiu que o trabalho coletivo será, de modo geral, de dois dias na semana (um em cada parcela), nos outros dias cada membro poderá avançar o trabalho na sua própria parcela ou trabalhar ‘alugado' para garantir sua alimentação semanal.

Outro grupo definiu os dias (toda 2ª e 6ª feiras) para os trabalhos no Grupo de Ajuda Mútua; o terceiro grupo definiu que antes do inverno só poderão trocar um dia de trabalho na semana, já que a irrigação diária os prende à sua parcela, mas no inverno será possível dedicar mais dias de trabalho mútuo.

Assim, os camponeses assimilaram o conceito geral da ajuda mútua, mais desenvolvido por elas no próprio Seminário, e estão criando à sua maneira, de forma rica e flexível, seus primeiros GAMs. Tais grupos não se configuram como "coletivos" artificiais e impostos aos camponeses, como existe de costume em movimentos oportunistas, mas são formas adequadas à sua condição e necessidade.

Um plano de produção para o inverno2

Terminado o Seminário, o Plano de Produção para o Inverno da AR José Ricardo foi aprovado pela Assembléia do Poder Popular, lançando metas que desafiam todos da área a cumpri-lo, aumentando a produção e impulsionando a Revolução Agrária. Na conclusão do plano será realizado um 2º Seminário, para avaliar os resultados e definir os planos para o verão.


Pentecoste - Ceará
Revolução Agrária toma 3 mil hectares para camponeses


Pentecoste: camponeses já construiram seus barracos e se preparam para iniciar a produção

No dia 18 de fevereiro, cerca de 60 famílias organizadas pela Liga dos Camponeses Pobres do Nordeste tomaram um latifúndio de cerca de 3 mil hectares em Pentecoste — CE.

Em comunicado, os camponeses contam que as terras estavam abandonadas e só produziam "mato e miséria".

As famílias ocuparam as estruturas da fazenda e construíram seus barracos já se preparando para a chegada das "águas" e início da produção. O comunicado dos camponeses relata que as famílias conquistaram a terra e "sonham em logo poder cortá-la".


Despejo criminoso de camponeses em Peri-peri

No dia 18 de março as famílias que haviam tomado o latifúndio Peri-peri foram despejadas em ação truculenta e ilegal. A ação foi dirigida, segundo nota da LCP, pelo deputado e proprietário-herdeiro Eduardo da Fonte que teria enviado um irmão seu para comandar o despejo.

A nota da LCP denuncia a polícia que fez "vistas grossas" à presença de pistoleiros ostensivamente armados que agrediram e humilharam vários camponeses.

A LCP denuncia que "sem negociação nenhuma, a polícia e os pistoleiros escoltaram o trator na destruição das lavouras de batata, macaxeira, milho, feijão, maracujá e verduras frescas, todas produzidas com o suor e trabalho dos camponeses, e das quais tiravam sua renda semanal com a venda na feira da cidade".

Há denúncias de que bandos de pistoleiros seguem ameaçando os camponeses e moradores da região. "Disparam tiros todas as noites, não permitem ninguém atravessar o caminho por dentro da fazenda e destruíram o campo onde os jovens da comunidade se reuniam para jogar bola aos domingos" — cita a nota da LCP.

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1 Nas áreas organizadas pela Liga dos Camponeses Pobres não se utiliza a denominação "assentamento", largamente utilizada por outras correntes do movimento camponês. A denominação Área Revolucionária não é somente uma diferenciação da nomenclatura, ela diz respeito às novas formas de organização da vida e da produção das massas camponesas após a tomada do latifúndio com a aplicação do Programa Agrário e de Defesa dos Direitos do Povo.

2 O inverno, na denominação dos camponeses nordestinos, corresponde ao período das chuvas.

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