17 de maio: Trinta anos de Guerra Popular no Peru

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17 de maio de 1980 - inicia-se no Peru a guerra popular dirigida pelo PCP — Partido Comunista do Peru, tratado pelo monopólio de imprensa e pela reação por "Sendero Luminoso"1. Hoje, passados 30 anos, prossegue intensa campanha afirmando que a guerra popular teria se encerrado em 2000 e que a partir da prisão, em setembro de 1992, do Dr. Abimael Guzman Reynoso (o Presidente Gonzalo), e de grande parte do seu Comitê Central, esta direção teria pedido conversações com Fujimori para um acordo de paz. Porém, isto se deve unicamente a que as ações armadas, que nunca deixaram de ocorrer, voltaram a assumir grande envergadura. Para buscarmos compreender este processo ainda tão oculto e seu real significado, AND publica o artigo de José Antonio Fonseca, do Núcleo de Estudos do Marxismo-leninismo-maoísmo, recentemente enviado à nossa redação.

A Guerra Popular no Peru segue combatendo heróica e invencível


Formação guerrilheira na serra peruana

Durante as eleições gerais de 1980, no povoado de Chusqui, estado de Ayacucho, uma coluna de guerrilheiros realizou agitação e propaganda revolucionária num local de votação. Após denunciar a farsa eleitoral, queimaram as urnas e se retiraram. Esta era a declaração pública de guerra ao Estado peruano pelo Partido Comunista do Peru - PCP, dando início à guerra popular, o desencadear de um longo processo que produziu grandes voltas e reviravoltas no destino das massas do Peru, mas também um grande alento e convocatória aos comunistas, revolucionários e povos oprimidos de todo o mundo. Passados apenas quatro anos da derrota da Grande Revolução Cultural e do início da restauração capitalista na China, as chamas da Guerra Popular nos Andes fizeram estremecer as hostes imperialistas e da reação em todo mundo.

O monopólio da imprensa tratou de ocultar o processo revolucionário peruano, da mesma forma que faz hoje com a guerra popular na Índia, sempre tergiversando sobre os mais monstruosos crimes de guerra cometidos pelas forças armadas do Estado. Afinal, qual a razão de haver tantos livros, de ter surgido verdadeiros batalhões de especialistas "senderólogos"2 para a tarefa de desinformar e confundir campanhas de mentiras? Nada disso foi capaz de ocultar de todo o processo revolucionário mais profundo da história da América Latina e muito menos aniquilá-lo como sonhava toda a reação.

As ações falam por si

No segundo semestre de 2009, os veículos do monopólio da imprensa peruano noticiaram pelo menos 58 ações do Exército Guerrilheiro Popular — EGP, dirigido pelo PCP.

Em julho, o EGP realizou um ampla campanha de agitação e propaganda armada nos departamentos de Ayacucho e Cusco.

Em agosto o EGP desferiu contundentes ataques contra diferentes bases militares nos departamentos de Ayacucho e Junin executando 11 militares. Nesse mesmo mês o EGP fixou dezenas de bandeiras vermelhas com a foice e o martelo ao longo de dez quilômetros da rodovia Fernando Belaúnde Terry, entre Santo Domingo de Anda e San Francisco.

Em setembro no distrito de Santo Domingo de Acobamba, departamento de Junin, uma companhia do EGP emboscou uma patrulha do exército reacionário ferindo três militares. Quando a reação enviou reforços, os guerrilheiros atacaram e derrubaram um helicóptero MI-17, matando dois militares e ferindo quatro oficiais. Os combatentes do EGP tomaram armamentos e farta munição.

Já em outubro unidades do EGP atacaram uma base militar na serra São Judas, na região do vale dos rios Apurímac e Ene (VRAE), tomaram as instalações de uma rádio de Huanta (Ayacucho) e difundiram o conteúdo de um boletim do PCP. Houve ainda ataques contra bases militares em Vizcatán.

Em novembro, em Lima, combatentes do EGP hastearam bandeiras vermelhas com a foice e o martelo. Em Cerro Tinkuya, no VRAE, um ataque do EGP matou um soldado e feriu quatro sargentos.

No mês de dezembro, foram realizadas ações em celebração ao aniversário de nascimento de Mao Tsetung em distritos de Alto Huallaga e no povoado de Huancas, departamento de Apurímac, com comícios e pichações.

Estas ações confirmam incontestavelmente que a Guerra Popular segue firme e forte, derrotando seguidas operações de cerco e aniquilamento do Estado peruano que já não contam mais com apenas a presença de especialistas israelenses e assessores militares ianques, mas de contingentes de marines estacionados em Ayacucho sob o pretexto da luta contra o narcotráfico.

 

Guerra popular e contrarrevolução

Quando as urnas eleitorais arderam em Chusqui, o Estado peruano chegou a subestimar o PCP. O governo pró-ianque da Acción Popular chegou a dizer que "bastariam 60 dias para as forças policias liquidarem o bando de delinquentes subversivos." Passaram-se dois anos e o governo, amedrontado com o crescimento da guerra popular, ordenou a intervenção das forças armadas.

Em meados dos anos de 1980 o PCP atuava em 22 dentre os 24 estados do país. Até 1985 o EGP levara a cabo mais de 20 mil ações. Em 1986 esse número já superava 30 mil.

Nos dias 18 e 19 de junho de 1986, Alan García ordenou o bombardeio por terra, mar e ar dos presídios políticos de Lurigancho, Callao e na ilha de Frontón, assassinando cerca de 300 prisioneiros de guerra e membros do Partido Comunista do Peru. Uma Resolução do PCP proclama o 19 de junho como o Dia da heroicidade, reconhecido por vários partidos em todos os continentes.

Em 1988 as ações armadas já ultrapassam 50 mil. Nesse ano, em meio à guerra, o PCP realiza o seu I Congresso estabelecendo um grande salto, cimentando sua base de unidade partidária.

No final dos anos de 1980 é desencadeada uma ofensiva contra o PCP e suas bases de apoio, promovendo massacres de camponeses no departamento de Ayacucho nos povoados de Accomarca, assassinando 69 camponeses, e em Cayara, assassinando mais de 40 camponeses. O exército peruano e a imprensa da burguesia divulgaram amplamente essas matanças como sendo "obra do Sendero". Em resposta a estes banhos de sangue o PCP realizou uma série de ações recuperando áreas onde o exército reacionário fizera estas operações.

Em 1990/91, a contra-ofensiva da reação, sob direção mais concentrada dos ianques através do Departamento de Estado do USA e da Cia, localiza e prende o Dr. Abimael Guzmán e grande parte do Comitê Central do PCP. O Dr. Abimael, apresentado à imprensa internacional numa jaula, com uniforme de presidiário, com o objetivo de desmoralizá-lo e humilhá-lo, reage com um vigoroso discurso exortando os comunistas e o povo peruano a prosseguirem com a guerra popular.

A ele, que desde então encontra-se preso e incomunicável, foi atribuída a autoria das "Cartas de Paz", apresentadas por Fujimori desde a tribuna da Assembléia Geral da ONU, e das posições de capitulação da guerra, por um acordo de paz e "reconciliação nacional". Mas a falta de comprovação cabal desses fatos, bem como as negativas sucessivas do Estado peruano em apresentá-lo publicamente, só servem para comprovar as reiteradas denúncias de que tudo não passa de uma maquinação.

Sob o efeito desses acontecimentos, uma parte dos prisioneiros de guerra e da direção histórica do PCP caiu no jogo do inimigo, difundindo a capitulação. Isto fica patente na publicação do livro " De punho e letra " pelos defensores dos acordos de paz (os "acordistas"). Este livro, cuja autoria é atribuída a Abimael Guzman (sem que ele tenha assumido isso publicamente), foi organizado por uma das lideranças do PCP, declaradamente a acordista Mirian, e é mais uma tentativa dos acordistas de utilizarem o Presidente Gonzalo e associá-lo à Linha Oportunista de Direita — LOD, do partido.

Toda essa patranha é uma tentativa de frear o avanço da guerra popular diante da impossibilidade de derrotar um processo revolucionário por meios convencionais, dada sua força e solidez ideológica. Esta tem sido a estratégia contra-insurgente do imperialismo ianque frente aos processos revolucionários dirigidos por partidos maoístas, tomando como exemplo o Nepal, onde obtiveram grandes resultados com a capitulação da direção do Partido Comunista do Nepal (Maoísta) após dez anos de guerra popular.

Enfrentando mil dificuldades e persistindo na aplicação de sua base de unidade partidária, o PCP se recobrou desse golpes profundos. A heróica guerra popular jamais deixou de combater e conjurar os planos de cerco e aniquilamento lançados pelas forças da contrarrevolução.


Como compreender a Revolução Peruana
e a guerra popular

José Antonio Fonseca
Núcleo de Estudos do Marxismo-leninismo-maoísmo-Brasil

 

Em torno da correta avaliação e balanço da Guerra Popular no Peru residem os problemas cruciais e principais desafios para o movimento comunista internacional na atualidade, particularmente quanto à compreensão e aplicação do maoísmo, tomando-o a partir de seu centro, o problema do poder, o poder para o proletariado em diferentes tipos de revolução, através de uma força armada dirigida pelo partido comunista. Poder conquistado e defendido com Guerra Popular.

Por isso nos deteremos sobre esta questão crucial para o desenvolvimento ou não de qualquer processo revolucionário no mundo, o problema da ideologia que o guia, expondo ainda que sinteticamente o significado e importância do Pensamento Gonzalo como farol e guia da guerra popular e seu papel para a compreensão do maoísmo no Peru e em todo mundo.

 

Reconstituição e Guerra Popular

Há 30 anos o povo peruano, dirigido pelo Partido Comunista do Peru, enfrenta uma duríssima repressão, incluindo o genocídio, massacres nos cárceres, guerra psicológica e tergiversação dos objetivos e o caráter da guerra dirigida pelo PCP. Nestes anos o principal marco da contra-revolução foi a detenção de grande parte do comitê central do PCP e sua chefatura, o Presidente Gonzalo, em 1992. Sob sua direção reconstituiu-se o partido guiado pelo marxismo-leninismo-maoísmo, traçou-se a linha política geral da Revolução de Nova Democracia, iniciou-se e desenvolveu-se a guerra popular até levá-la ao equilíbrio estratégico3 em 1991.

Com o duro golpe recebido em 1992 a guerra popular sofreu um recuo, com quedas de comitês inteiros do partido, refluxo das ações na capital e no campo sob seguidas campanhas de arrasamento pelas forças armadas reacionárias com todo o poder enfeixado em suas mãos. As áreas e bases de apoio da revolução viram-se reduzidas drasticamente. Mas em meio da ofensiva mais feroz da contrarrevolução, debaixo das campanhas de guerra psicológica de uma verdadeira "operação capitulação", o partido veio se recompondo, sempre mantendo a guerra como centro de sua atividade sob o guia do marxismo-leninismo-maoísmo pensamento Gonzalo.

A importância do Presidente Gonzalo para a revolução peruana ficara demonstrada ainda antes da guerra e com ela ficou evidente. Por isto mesmo, desde sua detenção, é foco de uma polêmica no Peru e internacionalmente a respeito de seu papel na Guerra Popular e das atuais tentativas de desbaratá-la.

No centro desta polêmica se encontram as conhecidas "Cartas de Paz", propondo acordo com o velho Estado peruano para pôr fim à Guerra Popular. O Presidente Gonzalo, por sua vez, completamente isolado e à mercê de todo tipo de patranhas montadas pelos serviços de inteligência (SIN do Peru e CIA do USA), com exceção do seu famoso "discurso da jaula"4 quinze dias após seu encarceramento, jamais pôde se manifestar publicamente, sequer a qualquer organismo minimamente confiável.


Abimael Gusmán no discurso da jaula

 

A reconstituição do PCP

Abimael Guzmán Reynoso ingressou no partido no fim da década de 1950 e no começo dos anos de 1960 deu início ao desenvolvimento da Fração Vermelha no Comitê Regional de Ayacucho, aplicando decididamente a definição de fração feita por Lenin: um grupo de homens unidos por uma comunidade de idéias, com o objetivo fundamental de influir sobre o Partido para aplicar os princípios da forma mais pura possível.

Nestes anos o Presidente Mao Tsetung, chefatura da Revolução Chinesa, conduzia também uma decidida luta contra o revisionismo contemporâneo (principalmente da direção do PCUS após a morte de Stalin), conhecida como a "Grande Polêmica" no interior do Movimento Comunista Internacional.

É assim que no Peru o Presidente Gonzalo e os revolucionários peruanos colocaram-se a imperiosa tarefa de retomar o rumo do partido e convertê-lo em um verdadeiro partido comunista levantando a bandeira de sua reconstituição.

O centro da luta era a retomada do caráter e programa adotados pelo Partido em sua fundação — conquista histórica da classe operária e do povo peruano — voltando a centrar o trabalho de massas entre os camponeses, operários da construção, intelectuais e massas pobres dos bairros e favelas, sendo de grande transcendência a I Convenção Regional de Camponeses de Ayacucho em 1969, onde se estabeleceu o programa agrário.

Neste processo de luta ideológica o PCP será um dos poucos casos na América Latina em que se conseguiu expulsar a minoria revisionista de suas fileiras.

O processo de reconstituição no PCP se consolidou ideológica, política e organicamente, saindo fortalecido após cada luta de linhas que resultava em uma nova unidade sobre novas bases. Este processo perdura por quase dezessete anos, culminando no final de 1979 e início de 1980.

No terreno ideológico, a luta de linhas impulsionada pela Fração Vermelha contra o oportunismo se desenvolveu sobre a base da defesa da ideologia do proletariado, que até o ano de 1966 se condensava em marxismo-leninismo-pensamento Mao Tsetung, aprofundando-se em 1979 com a consigna "Desfraldar, defender e aplicar o marxismo-leninismo-pensamento Mao Tsetung" até que, em 1981, com o início da guerra popular se propôs marchar "Para o maoísmo!" Em 1982 o PCP passa a defender o maoísmo como parte integrante e superior do desenvolvimento da ideologia do proletariado internacional.

Novo impulso ao MCI

Na década de 1980 os partidos revisionistas justificavam sua linha oportunista de direita, de eterna "acumulação de forças", argumentando que não havia condições objetivas para fazer a revolução devido à ausência da "retaguarda estratégica mundial" representada pelo bloco socialista. Desmentindo este discurso com fatos, os comunistas peruanos iniciam junto ao povo a Guerra Popular em 1980.

Naqueles idos alguns partidos comunistas que haviam assumido o pensamento Mao Tsetung se batiam por desenvolver a luta armada revolucionária como guerra popular, tal o caso do Partido Comunista das Filipinas, do Partido Comunista da Turquia (ML) e diferentes frações derivadas do Partido Comunista da Índia (ML) após a derrota do Levantamento de Naxalbari. Porém, com a contundência e o desfraldar vigoroso do maoísmo pela Guerra Popular no Peru, o PCP se constituirá no mais importante impulsionador e reagrupador do movimento comunista internacional. Pela intervenção do PCP, a iniciativa de partidos comunistas que se definiam pelo pensamento Mao Tsetung de criar o Movimento Revolucionário Internacionalista - MRI (1984) dará um novo salto pela sua definição por desfraldar, defender e aplicar o maoísmo.

Como o próprio MRI irá registrar em 1993 com a declaração Viva o maoísmo, a experiência peruana, em sua luta por desenvolver a Guerra Popular, foi um dos fatos mais importantes para a compreensão da profundidade do maoísmo, mesmo para aqueles partidos cuja guerra popular já se encontrava em curso.

 

A guerra popular e a "curva no caminho"

A Guerra Popular no Peru, segundo os documentos do PCP, percorreu onze anos na defensiva estratégica (de 1980 a 1991), quando no ano de 1991 entrou na etapa de equilíbrio estratégico. Neste período o PCP vinha construindo uma nova política, nova economia e nova cultura em mais da metade do território peruano através da edificação do Estado de Nova Democracia, sustentado nos comitês populares nas bases de apoio.

Este tremendo golpe fez as classes dominantes e o imperialismo passarem ao regime fascista declarado, através de Fujimori, eleito com um furibundo discurso anti-neoliberalismo, mas que após um ano de governo promove um "autogolpe". Este episódio marca uma nova fase na revolução e na guerra, dando início a uma das mais sangrentas escaladas repressivas e crimes de guerra contra as massas e a direção do PCP, com novos massacres de presos políticos e prisioneiros de guerra.

Com a prisão da maior parte do comitê central e do Presidente Gonzalo neste período, surgiu o que ele mesmo chamará uma "curva no caminho". Foi o famoso discurso na jaula, em 24 de setembro de 1992, no qual o Presidente Gonzalo exorta os revolucionários a persistir na Guerra Popular, insistindo que a revolução é uma necessidade histórica, que é o dever dos comunistas superar a "curva no caminho", prosseguindo a guerra popular.

 

O significado internacional

Um correto balanço desses 30 anos deve ser ainda objeto do movimento comunista internacional, pois só pode ser feito a partir de uma clara posição de classe, a dizer, partindo da ideologia do proletariado em sua mais alta etapa de desenvolvimento, o maoísmo; compreendendo sua trajetória como unidade desde as bases que permitiram o surgimento e estrondoso desenvolvimento da guerra popular até atingir o equilíbrio estratégico e toda a luta por conjurar a ofensiva da contrarrevolução através do prosseguimento da guerra popular.

Fazendo um paralelo do processo peruano com o nepalês no tocante aos seus desemboques, é necessário destacar algumas semelhanças e diferenças.

Em ambos apareceram uma linha oportunista de direita a partir do surgimento de uma nova situação: no caso do PCP, a prisão da maioria do seu comitê central, quando parte desta direção advoga que a revolução mundial entrou em refluxo geral e que não há direção proletária para continuar a guerra. No caso do Nepal, a direção do PCN(M) passa a defender a existência de correlação de forças internacional e regional desfavoráveis para o triunfo da revolução. A similitude é que em ambos processos uma linha oportunista de direita propôs negociações para terminar com a guerra popular. A diferença é que no caso do Nepal a principal liderança do partido encabeça a LOD, enquanto no Peru nunca foi provado que o Presidente Gonzalo fizesse parte da mesma, além da LOD ser instrumentalizada pelos serviços de inteligência do inimigo e encabeçada pela maioria da direção encarcerada. Outra diferença importante e que pode ser reveladora do caráter e essência da linha ideológico-política de cada um é o fato de que no Peru a Guerra Popular prosseguiu combatendo e derrotando a linha oportunista de direita e a reação, enquanto que no Nepal a capitulação da direção empantanou a revolução e nenhuma força divergente logrou, pelo menos até o momento, retomar a guerra popular.

O que os trinta anos de Guerra Popular no Peru e o Pensamento Gonzalo deram ao processo revolucionário internacional? O principal do Pensamento Gonzalo é a compreensão do maoísmo como o desenvolvimento do marxismo-leninismo e sua elevação à uma nova, terceira e superior etapa. Revela e comprova a universalidade do maoísmo e o aplica à especificidade do Peru, como pensamento guia da Revolução Peruana e que a certa altura deveniu-se em pensamento Gonzalo.

Recordemos que foi com a defesa e todo trabalho de sistematização da obra de Lenin feitas pelo camarada Stalin que se sintetizou e arvorou o leninismo como segunda etapa do marxismo. Nenhuma nova etapa do marxismo foi produzida por encomenda, senão pelo conhecimento da verdade, na concretude da luta de classes e do processo revolucionário de cada país e da revolução proletária mundial em seu conjunto. Ou seja, de que o universal somente pode existir através da particularidade que, por sua vez, como resultado de sua aplicação produz novas verdades universais. Isso faz parte da teoria marxista do conhecimento segundo a qual sem síntese não há salto, não é possível o salto de qualidade.

Todo processo revolucionário aporta e enriquece o marxismo, mas um salto de qualidade depende do momento em que se desenvolve a luta de classes e a complexidade de problemas que se apresentam, bem como da profundidade do processo revolucionário determinado e solidez da vanguarda que o dirige. E isto se verifica quando o mesmo se dá, como uma unidade, nas suas três partes constitutivas. Não é só o caso do leninismo e do maoísmo, mas o próprio surgimento do marxismo se deu a partir das três correntes do pensamento que a humanidade mais desenvolvera, a saber: a economia política inglesa, o pensamento socialista francês e a filosofia clássica alemã, e ao mesmo tempo na luta contra elas. Como ciência, o marxismo necessita se desenvolver para responder aos problemas concretos da realidade social.

É necessário dizer, mesmo que de passagem, que isso é diferente do que alega o presidente do Partido Comunista Revolucionário do Estados Unidos, Bob Avakian, falando da necessidade de "nova síntese" como condição para "fomentar uma nova onda da revolução proletária mundial", ou do que propõe Prachanda, do Partido Comunista Unificado do Nepal (maoísta), com o seu "socialismo do século XXI". Na verdade, tais proposições incubam a defesa de uma superação do maoísmo.

Coube ao PCP, tendo à frente o Presidente Gonzalo, colher na vasta obra do Presidente Mao a sistematização e síntese em suas três partes constitutivas, o maoísmo, enquanto nova, terceira e superior etapa do marxismo. Desde o IX Congresso do PCCh (1969), e nos anos de 1970, muitos falaram em maoísmo e de sua condição de terceira etapa do marxismo, porém somente com o Pensamento Gonzalo e a Revolução Peruana é que se tem uma síntese completa do maoísmo. Todos os processos anteriores (mesmo aqueles que se propunham "maoístas") só alcançaram fazer um reconhecimento parcial da significação da grande obra do Presidente Mao, não a compreendendo como um conjunto integral e harmonioso de idéias, seu caráter universal, reconhecendo-a em geral como aplicável apenas para os países dominados.

Portanto, esta é a questão na qual se encontra o centro da polêmica do movimento comunista internacional, a de compreender e assumir cabalmente o maoísmo como nova, terceira e superior etapa do marxismo, do que é inseparável o combate a todo tipo de revisionismo e oportunismo e sua validade e necessidade para guiar a segunda grande onda da revolução proletária mundial na atualidade.

Coube ao Presidente Gonzalo resolver a necessidade de aplicar de forma criadora o maoísmo à realidade peruana. Primeiramente como pensamento guia e, logo, ratificado no I Congresso realizado após 8 anos de Guerra Popular, como Pensamento Gonzalo, que é o aspecto principal da ideologia que sustenta a linha política geral da revolução peruana, sistematizando-a em seu centro: a linha militar como guerra popular prolongada aplicada à realidade do Peru. Assim, sintetizou os aportes da Revolução Chinesa e do Presidente Mao, inclusive elementos que se acham dispersos em sua obra teórica, e desenvolveu conceitos fundamentais como da construção de forma concêntrica dos três instrumentos da revolução — partido comunista, exército popular revolucionário e a frente única revolucionária, em que se destaca o partido como o principal e centro desta construção; da necessidade do partido militarizado e da chefatura como centralização da liderança revolucionária. Põe em relevo e desenvolve a questão da luta de duas linhas e a necessidade do seu correto manejo como força impulsionadora para a forja de um autêntico partido comunista. Ao desenvolver o marco conceitual do capitalismo burocrático, toca na pedra angular da revolução nos países coloniais/semicoloniais, a correta análise de classes dessas sociedades, da qual decorre a linha política geral, a estratégia e tática, bem como dos métodos e formas de luta para o desenvolvimento e triunfo da revolução de nova democracia ininterrupta ao socialismo.

Tomando dos grandes chefes do proletariado internacional a abordagem de grandes períodos históricos, particularmente de Lenin e Mao, que os sintetiza como restauração e contrarrestauração, desenvolve um enfoque extraordinário do processo da revolução proletária mundial, caracterizando-o em três grandes etapas: a da defensiva estratégica, do equilíbrio estratégico e da ofensiva estratégica. Segundo este, a revolução proletária mundial, arrancando desde o lançamento do Manifesto do Partido Comunista (1848), passando pela Comuna de Paris (1871), triunfando com a Revolução Russa (1917), desenvolvendo, sob direção da Internacional Comunista, a etapa de defensiva estratégica até a II Grande Guerra Mundial, atingindo a etapa de equilíbrio entre proletariado e burguesia, entre socialismo e imperialismo, com o triunfo da grande Revolução Chinesa. Com a Grande Revolução Cultural Proletária na China (1966) se desenvolveu o equilíbrio estratégico dando respostas a grandes questões pendentes para o marxismo e apontando perspectivas brilhantes para a revolução. Ainda que com sua derrota em 1976, encerrando sua primeira grande onda, isto ocorreu com a revolução proletária mundial atingindo e legando aos revolucionários um patamar muito elevado.

Com a Revolução Nicaraguense e principalmente a peruana dá-se início a uma segunda grande onda da revolução proletária mundial que abre a época da ofensiva estratégica. Para impulsioná-la e sustentá-la o Pensamento Gonzalo aponta a tarefa de constituir e/ou reconstituir partidos comunistas militarizados.

Na passagem dos 30 anos do início da Guerra Popular no Peru, destacamos a necessidade de todos os revolucionários e comunistas no mundo estudarem e aprofundarem a luta em torno de seu significado e balanço, partindo de seu centro, o maoísmo, e de sua compreensão, que nos é dada pelo Pensamento Gonzalo.

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Notas

1 Sendero Luminoso - Esta denominação foi dada ao PCP e ao Exército Guerrilheiro Popular que dirige, pela imprensa reacionária, bem como pelas "autoridades" do Estado peruano e foi retirada de uma consigna que os maoístas proferiam na fase preparatória da guerra popular: "Por el sendero luminoso de Mariátegui!", aludindo a retomar as contribuições que o grande revolucionário marxista-leninista peruano José Carlos Mariátegui aportara para a revolução peruana.

2 Senderólogos - Matilha de pseudo-intelectuais, pseudo-escritores, "analistas" e "investigadores" peruanos e estrangeiros que se autodenominam "especialistas em "antropologia, sociologia e violentologia". Estes, através de todos os meios de comunicação, utilizando-se de argumentos distorcidos, fabricados pela reação, tentam difamar a Guerra Popular no Peru, servindo deste modo aos objetivos do imperialismo, principalmente o ianque, com artigos, livros e reportagens policialescas.

Estes senderólogos atuam como assessores da CIA e das forças armadas na guerra psicológica contrainsurgente desde o início da Guerra Popular e a maioria deles saiu das fileiras da Izquierda Unida: frente de partidos e organizações políticas que se reivindicam de esquerda, entre as quais um amontoado de partidos "comunistas" revisionistas, e ongueiros. Muitos deles tornaram-se membros de governos no Peru.

A verdade é que o "Sendero Luminoso" só existe nas mentes apodrecidas destes falsos "especialistas" mercenários, como:

Raúl González autor de: "Ayacucho: pelos caminhos do Sendero", "Alto Huallaga e o Sendero Luminoso", e mais uma dezena de títulos;

Carlos Tapia autor de: "Os militares e o Sendero Luminoso. Duas estratégias e um fim", entre outros;

Gustavo Gorriti autor de: "O Sendero Luminoso: Uma História da Guerra milenar no Peru", etc.;

Fernando Rospigliosi autor de: "O Sendero Luminoso no Peru: Regresso ao Passado", entre outros;

Alberto Bolívar Ocampo autor de : "Insurgência e contrainsurgência no Peru, 1980-1990"...

3 Equilíbrio Estratégico - Conceito da Guerra Popular que consiste na segunda etapa estratégica da mesma, a de que a revolução tendo à frente o partido comunista e seu exército guerrilheiro já acumularam forças tal que configura uma nova situação na correlação de forças entre revolução e contrarrevolução e entre as duas colinas em confrontação. As outras duas etapas são respectivamente: a primeira da Defensiva Estratégica e a terceira e última da Ofensiva Estratégica.

4 Discurso da jaula - Pronunciamento feito pelo Presidente Gonzalo quando da sua apresentação à imprensa nacional e internacional em 24 de setembro de 1992, num pátio de dependências da polícia, numa grande jaula e vestido de uniforme de listras, numa tentativa de Fujimori e Montezinos de humilhá-lo e ridicularizá-lo. O contundente discurso proferido por um altivo e combativo Presidente Gonzalo frente uma verdadeira matilha sucumbiu os intentos da reação e ecoou mundo afora num chamamento ao prosseguimento da guerra.

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