Encontro de gerações do movimento camponês combativo

A- A A+

Desde as Ligas Camponesas e Trombas e Formoso à Liga dos Camponeses Pobres

Encontro de gerações do movimento camponês combativo

José Ricardo Prieto | Mário Lúcio de Paula


Em emocionante solenidade Dirce, Walter, Clodomir, Alípio e Elio
recebem homenagem da Liga dos Camponeses Pobres

Em abril último celebrou-se, em Goiânia, a reunião ampliada da Comissão Nacional da Liga dos Camponeses Pobres. Membros das coordenações regionais e convidados debateram durante dois dias a situação política nacional e internacional, a questão agrária e a aplicação do programa agrário revolucionário para uma transformação radical do campo, os relatórios das atividades da LCP nas diversas regiões onde atua e os ajustes táticos necessários para o avanço da Revolução Agrária.

AND participou dessa importante reunião como convidado e teve a oportunidade de presenciar um encontro de gerações do movimento camponês revolucionário do Brasil. Diferentemente das reportagens que costumamos publicar, dessa vez daremos a palavra àqueles que conduziram a homenagem.

Com a palavra, José Carlos, representando a Comissão Nacional da LCP:

Companheiras e companheiros, boa noite. Após a composição da mesa com as coordenadoras e coordenadores da Liga dos Camponeses Pobres das mais diversas regiões de nosso país, gostaríamos de convidar os homenageados:

Clodomir de Morais, Alípio de Freitas, Elio Cabral, Walter Valadares e Dirce Machado.

Companheiras e companheiros, membros da Comissão Nacional da Liga dos Camponeses Pobres e demais membros de coordenações regionais, ativistas e apoiadores do movimento camponês combativo, convidados presentes à Reunião Ampliada da Comissão Nacional e à esta sessão de homenagens:

Ao dar início a um ato de significação histórica para nossa luta, convidamos a todos para, com grande atenção e respeito, concentrando o acúmulo de mais de 15 anos de luta sem trégua, prestar, de forma solene, nossa sincera homenagem àqueles que por longos e difíceis anos ergueram a bandeira da luta pela terra em nosso país, a gloriosa bandeira do movimento camponês revolucionário, e de pé cantar o hino dos trabalhadores de todo o mundo, A Internacional.

Prontamente todos se puseram de pé e cantaram em uníssono o hino do proletariado, de forma solene e com punhos erguidos.

Nesse momento, reatamos um elo histórico de muitas décadas, desde quando, ao lado de inúmeros companheiros e companheiras já falecidos, sendo muitos assassinados, Clodomir de Morais, Alípio de Freitas, Dirce Machado, Elio Cabral, Alexina Crespo, Elixabeth Teixeira, Manoel Conceição, Walter Valadares e tantos outros expoentes heróicos da luta pela destruição do latifúndio, ergueram esta bandeira vermelha que guiou centenas de milhares de camponeses em nosso país.

A Liga dos Camponeses Pobres celebra agora não somente o reencontro desses velhos combatentes, mas o encontro de gerações que trilham o mesmo caminho irrenunciável da luta pela terra, por uma verdadeira democracia e contra o imperialismo.

Com esta homenagem a estas companheiras e companheiros, a Comissão Nacional da Liga dos Camponeses Pobres quer ao mesmo tempo prestar seu tributo a todas e todos que lutaram, à todas e todos que hoje seguem defendendo a nossa luta.

Um a um os homenageados foram anunciados e traços das biografias foram lidos para que todos os presentes conhecessem a sua importante trajetória e contribuição para a luta (ver quadros).

Após a apresentação dos homenageados, cada um recebeu das mãos de um coordenador da LCP um 'diploma' simbólico, como homenagem e uma cópia do juramento da Liga dos Camponeses Pobres, que sintetiza os princípios que regem a sua organização desde o seu primeiro congresso. Então os homenageados tomaram a palavra, emocionando todos os presentes.

Elio Cabral agradeceu a distinção, e dedicou a homenagem aos companheiros tombados na luta contra aqueles que classificou como "gorilas" do regime militar-fascista.

Como presidente da Associação de Anistiados Políticos não posso deixar de mencionar essa questão: aqueles que torturaram, esses assassinos, "gorilas" do regime militar não podem ficar impunes, eles tem que pagar. Eu já lutei e enfrentei uma vez e tenho disposição para fazer tudo novamente. Não vamos ceder. O caminho é esse mesmo, a "reforma agrária na lei ou na marra", a Revolução Agrária como vocês dizem. Sem isso, é impossível alcançar o que queremos.

O professor Clodomir de Morais relembrou diversos companheiros, dirigentes e ativistas das Ligas Camponesas.

— Essa homenagem serve a cada um desses companheiros que lutaram e entregaram suas vidas na luta pela terra. É uma satisfação rever aqui companheiros tão importantes, companheiros que iniciaram esse caminho que hoje vocês estão fazendo. As mesmas bandeiras pelas quais lutávamos há 50 anos, são exatamente as mesmas defendidas tão bem por vocês aqui hoje. Isso não significa que a luta tenha parado 50 anos, mas as pendências são as mesmas, e o caminho para a sua solução é esse, dessa Revolução Agrária que vocês defendem. Essa era e é a nossa bandeira.

Alípio de Freitas fez sua saudação:

— Fiquei muito emocionado em ouvir novamente A Internacional. Ela tem um significado muito importante para mim e para todos aqueles companheiros ex-presos políticos. Sempre que algum companheiro chegava da tortura, ou quando chegava um novo companheiro preso, cantávamos A Internacional , e isso nos fortalecia, nos dava a certeza da invencibilidade da nossa luta. Assim derrotamos os torturadores. Queria dedicar também essa homenagem aos companheiros, companheiros que eu gostaria que estivessem aqui, e infelizmente não o podem pois tiveram suas vidas cortadas, ceifadas pelos fascistas. Companheiros valorosos. Queria dizer também que estou com vocês, essa é a luta. Temos que persistir, alguns dias são nossos, outros são do inimigo, mas todos haverão de ser nossos, a vitória há de vir. É assim. Os momentos que restam de minha vida, e pretendo que sejam uns 20 anos ou mais, pretendo me dedicar a esta luta, quero que saibam que podem contar comigo.

Firme e combativa, Dirce Machado emocionou todos com suas palavras.

Essa homenagem não é só para mim, é para todos os companheiros que lutaram. Quando fui para o Formoso, enfrentamos uma vida dura, mas não nos descolamos do povo. Vivemos, lutamos, trabalhamos com eles. Os companheiros na luta noite e dia. E as mulheres não ficaram nem um pouco atrás. Fizemos piquete, comemos guariroba pura, cozinhávamos para os companheiros no mutirão com a espingarda pendurada nas costas, prontas para a luta. Meu companheiro, tenho muito orgulho dele, era um quadro camponês, o primeiro camponês a fazer parte do Comitê Central do PCB. Foi uma luta muito dura que levamos até a vitória, graças a resistência daquelas bravas massas. Dedico essa homenagem a eles, que lutaram comigo.

Ao final, foi projetado em um telão um vídeo com uma mensagem de Anacleto Julião e Alexina Crespo com uma saudação à reunião ampliada da Comissão Nacional da LCP.

Anacleto Julião

Em primeiro lugar eu gostaria de desejar todo êxito à reunião do movimento da Liga dos Camponeses Pobres e dizer para aqueles companheiros que lutaram ou aqueles das gerações mais jovens como a nossa que acompanharam a luta de pais e avós nas Ligas Camponesas é de fundamental importância, e para o país e nosso povo, principalmente o povo camponês, resgatar a história de luta do campesinato brasileiro. O movimento que vocês fazem hoje com a Liga dos Camponeses Pobres já começa a tomar corpo em todo o nosso país. A unidade operário-camponesa sem dúvida levará a transformações sociais, políticas e econômicas para nosso país. Desejo a vocês êxitos e contem conosco porque nós seguimos a mesma luta que Julião e minha mãe Alexina.

Alexina Crespo

Pode ser pouca coisa o que eu vou dizer, mas é de coração. Nós temos que seguir a luta. "Luta ou morte, venceremos!", "Patria o muerte, venceremos!". São palavras dos guerrilheiros de Cuba. A gente conviveu lá muitos anos. Anacleto falou agora. Eu não sei falar, não tenho essa facilidade de discursar, eu faço minhas as palavras dele.

Eu desejo que vocês multipliquem, centupliquem essa organização de vocês para todo o Brasil e, enquanto eu puder ajudar, enquanto eu tiver um alentosinho vou seguir lutando. Não sei como: falando, falando, falando, e até quem sabe uns murros, também posso dar.

Outros que também não puderam estar presentes por motivos diversos foram homenageados. O dirigente camponês maranhense Manoel Conceição, ex-militante da Ação Popular marxista-leninista e do Partido Comunista do Brasil — PCdoB; Elizabeth Teixeira, dirigente das Ligas Camponesas; o camponês Sula e sua esposa, Maria, integrantes da resistência de Cachoeirinha no Norte de Minas em 1967. Coordenadores da LCP receberam simbolicamente as homenagens pelos ausentes e ficaram incumbidos de entregá-las pessoalmente a cada um deles.

Um professor da Escola Popular recitou uma poesia de Vinícius de Moraes, intitulada Os homens da terra , cujas últimas estrofes soam como prenúncio de um momento vindouro.

Queremos paz, não a guerra
Senhores Donos de Terra …
Mas se ouvidos não prestais
Às grandes vozes gerais
Que ecoam de serra em serra
Então vos daremos guerra
Não há santo que vos valha:
Não a foice contra a espada
Não o fogo contra a pedra
Não o fuzil contra a enxada:
— Granada contra granada!
— Metralha contra metralha!
E a nossa guerra é sagrada
A nossa guerra não falha!

Todos de pé saudaram os homenageados com uma estrondosa salva de palmas e, em uníssono, cantaram o hino Conquistar a Terra, encerrando assim a homenagem aos combatentes das Ligas Camponesas e de Trombas e Formoso.

Walter Valadares de Castro

Nasceu em 1935, na cidade de João Pinheiro, Minas Gerais. Aos 16 anos ingressou no Partido Comunista do Brasil. Foi dirigente da União da Juventude Comunista e secretário em diversos Comitês de direção do Partido Comunista além da Comissão de Trabalhos Especiais do Comitê Central (encarregada da montagem e funcionamento da estrutura para entrada e saída de quadros do país, montagem e realização do Congresso do Partido, instruções sobre segurança em tempos de repressão e início de preparação para a luta armada).

Em 1954, aos 20 anos, dirigiu-se a Trombas, com o objetivo de auxiliar a organização dos camponeses e construir o partido comunista na região. Partiu de Goiânia levando armas, munição, papel e um mimeógrafo para rodar os volantes de propaganda da luta camponesa.

Walter Valadares teve importante participação nessa luta e prosseguiu com sua intensa atividade de dirigente comunista até ser preso pelo gerenciamento militar.

Hoje, prossegue apoiando energicamente a luta dos trabalhadores do campo e da cidade.

Clodomir Santos de Morais

Nasceu na Bahia. Formou-se em Direito, no Recife - PE. Foi um dos fundadores das Ligas Camponesas, no final dos anos de 1950, junto a Francisco Julião. Foi perseguido pelo regime militar-fascista, preso e torturado. Por 15 anos, Clodomir Morais, que teve seus direitos políticos cassados, conheceu o exílio. No entanto, durante todo esse período, foi conselheiro regional da ONU para a América Latina em assuntos da reforma agrária e desenvolvimento rural. Ajudou a formular p rojetos de reforma agrária em vários países, tendo sido Conselheiro Regional da América Latina, para Organização e Capacitação Camponesa para Reforma Agrária.

Desenvolveu atividades nas universidades de Rostock e Berlim, na Alemanha, onde concluiu seu doutorado em sociologia. Em Wiconsin-USA, como em várias universidades de países da América Latina, trabalhou como professor conferencista.

A partir de sua experiência de militante, desenvolveu e ministra cursos de capacitação aplicados em quatro continentes, constituindo-se em grande instrumento para a organização dos movimentos populares. É autor de mais de vinte livros lançados dentro e fora do Brasil.

Dirce Machado

Nasceu em uma fazenda em Rio Verde — sudoeste Goiás, em 1934. Desde muito jovem nutria forte admiração pelos comunistas. Sua casa, uma simples moradia camponesa, serviu como aparelho do Partido Comunista do Brasil - PCB na região.

No final dos anos de 1950 mudou-se com seu companheiro, também militante comunista, para a região de Trombas e Formoso, com a tarefa de construir o partido na região e preparar a resistência armada dos posseiros em luta pela terra.

Além de dedicar-se às tarefas gerais de organização do Partido Comunista, Dirce desenvolveu um trabalho especial juntos às mulheres construindo um combativo comitê feminino. Construiu uma escola para alfabetizar adultos e crianças.

Devido à sua destacada militância, chegou a integrar a direção do Partido Comunista do Brasil — PCB. Procurada e perseguida pelo regime militar fascista, foi presa e torturada junto de seu marido e resistiu bravamente.

Solta, regressou à região de Trombas e Formoso prosseguindo o trabalho de construção do Partido Comunista, oferecendo inestimáveis contribuições para a causa da revolução em nosso país.

Elio Cabral de Souza

Nasceu na cidade de Mineiros, em Goiás. Teve ativa militância estudantil participando na linha de frente das lutas contra a implantação dos acordos MEC — USAID, plano do imperialismo para a destruição do ensino no Brasil.

Participou das Ligas Camponesas em Goiás e integrou um de seus dispositivos armados no sul da Bahia.

Trabalhou junto do educador Paulo Freire e foi designado por ele para fazer adaptações em seu método de alfabetização de adultos para o campo. Perseguido político, foi preso e brutalmente torturado nas selas do regime militar-fascista em 1972.

Atualmente é auditor fiscal aposentado da Secretaria da Fazenda de Goiás, Vice-Presidente do Sindicato dos Auditores Fiscais e Conselheiro da AFEGO (Associação dos Funcionários do Fisco do Estado de Goiás). Também é um dos fundadores da Associação dos Anistiados Políticos do Estado de Goiás, da qual é Presidente.

Alípio de Freitas

Português de nascença, tornou-se brasileiro, acolhido pelo povo maranhense desde sua chegada ao nosso país em 1958, quando ainda era o "padre" Alípio.

Em 1962 participa do Congresso Mundial da Paz, em Moscou, período em que rompeu definitivamente com a igreja e ingressa definitivamente nas Ligas Camponesas. Foi secretário de organização das Ligas, ocupando essa função até 1964 e responsável pela sua Organização Política, com o objetivo de formar quadros ideológico-políticos marxistas-leninistas. Além dessa importante tarefa, Alípio foi editor do jornal das Ligas Camponesas, A Liga.

Com o golpe militar-fascista de 1º de abril de 1964, passa a viver na clandestinidade. Vai para Cuba, onde junto a outros companheiros planeja o reingresso ao Brasil para o prosseguimento da luta revolucionária. É preso em 1970 no Rio de Janeiro, e passa quase 10 anos encarcerado. Resistiu com bravura às mais atrozes torturas.

No início dos anos de 1980, participou em projetos de cooperativas agrícolas em Moçambique, àquela época sob a direção revolucionária da Frelimo — Frente de Libertação de Moçambique.

Em 1984, devido às contradições com as posições de grande parte daqueles que retornaram ao país com a Anistia renegando o prosseguimento da luta revolucionária, Alípio regressou a Portugal, voltou a lecionar em uma Universidade daquele país e retomou sua militância nos movimentos populares de Portugal e do Brasil. É Membro e fundador de duas associações luso-brasileiras: a Casa do Brasil de Lisboa e a Casa Grande. É membro e fundador da Associação José Afonso. É membro do TMI — Tribunal Mundial do Iraque, que denuncia em várias capitais européias os crimes cometidos pelos ianques e seus sequazes contra o povo iraquiano. Faz também parte de duas associações em defesa do povo palestino, além da ativa participação na Associação Abril, organização que procura manter vivos os ideais da revolução do 25 de abril de 1974 em Portugal. Recentemente organizou a Associação Cultural Lisboa, com o objetivo de formar uma rede da cultura popular portuguesa.

LEIA TAMBÉM

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja