Temporais viram pretexto para ofensiva anti-povo

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Desde que caiu a primeira casa durante os temporais que castigaram a cidade do Rio de Janeiro e a região metropolitana da capital fluminense no início de abril, as classes dominantes enxergaram nas tragédias uma ótima oportunidade para fazer propaganda a favor de uma das suas velhas reivindicações, a de enxotar os pobres dos morros da cidade.


Morro do Bumba, em Niterói, onde um deslizamento matou
centenas de pessoas e deixou outras tantas desabrigadas

"O mais importante é a vida". Foi o que se ouviu da pobre gente cercada pelos repórteres do monopólio dos meios de comunicação ao longo de toda a semana do dia 5 ao dia 11 de abril, e também da seguinte, quando começaram as demolições promovidas pelas gerências mancomunadas de Paes e Sergio Cabral. A óbvia constatação colhida pelos jornalistas da boca de muitos moradores dos morros da cidade, a de que no fim das contas o que mais vale é permanecer vivo, foi apresentada pela Rede Globo como capitulação daquela gente ante aos tratores que chegariam para derrubar suas casas alegadamente por estarem em áreas de risco, mas verdadeiramente atendendo às demandas da grande burguesia e da especulação imobiliária.

Em 12 de abril, quando começaram a ser veiculadas as imagens de casas de trabalhadores vindo abaixo por ação das máquinas do Estado, o telejornal matinal da Globo abriu os trabalhos do dia com seu apresentador suspirando de satisfação. "Finalmente" foi a palavra utilizada por Renato Machado para introduzir a notícia sobre o início das demolições forçadas.

À noite, no famigerado Jornal Nacional, a Globo foi buscar uma senhora que tinha a casa já inabitável e que se dispôs a dizer o que a emissora tanto queria ouvir. Ela disse: "saio com todo prazer". A frase foi editada de forma a parecer que este é o sentimento de todas as pessoas que estão nas áreas de risco, não exatamente o risco de suas casas caírem em função do mal tempo, mas sim o risco de ter tudo demolido por parte das gerências estadual e municipais.

Tudo em meio a uma agressiva campanha de ódio de classe promovida pela imprensa monopolista, que busca criminalizar todos aqueles que erguem suas casas em lugares que incomodam as classes dominantes, tentando, sordidamente, transformar trabalhadores em busca de alguma dignidade para suas famílias em foras-da-lei.

O maior risco para as massas

Em vários pontos do Rio, de São Gonçalo e de Niterói, o que se via não era o povo calado, cabisbaixo, resignado com a tragédia e com a política de despejo indiscriminado. No pé do morro do Bumba, local onde aconteceu o maior número de mortes em razão de deslizamentos de terra, vários moradores já não suportavam mais a presença dos jornalistas da Globo e que tais, que como urubus sobrevoando a carniça se esmeravam para fazer sensacionalismo entre os escombros, além de açular as autoridades contra as classes populares, cobrando a destruição de todas as casas pobres da região.

Em Vargem Grande e Vargem Pequena, moradores fecharam ruas e atearam fogo em pneus para protestar contra a operação de despejo do povo. Isso não foi noticiado pelo monopólio da imprensa encabeçado pela Globo, que começou a exibir inserções nos intervalos comerciais entre seus programas exortando os pobres a irem embora, repetindo que "é melhor estar desabrigado do que estar soterrado". Tampouco virou notícia no horário nobre da TV ou nas páginas dos jornalões a observação do advogado Nilo Batista sobre a catástrofe que assolou Niterói: " se o Lula e o Sérgio Cabral tivessem aplicado em detecção de riscos e contenção de encostas o dinheiro que gastaram para matar pobres no Rio, talvez pudessem ter evitado a tragédia do Bumba".

Preferiram repercutir a reivindicação oportunista do monopólio das empreiteiras que opera no Brasil, cujas empresas se aproveitaram de maneira atroz da tragédia vivida pelas massas fluminenses para reforçar sua demanda pela manutenção do IPI reduzido para materiais de construção, com empreiteiros se fazendo de amigos do povo ao dizer que tijolo e cimento mais baratos são a solução para construir mais casas para os desabrigados. No dia 15 de abril, o ministro da Fazenda de Luiz Inácio, Guido Mantega, anunciou que atenderia a demanda.

O povo conhece bem as razões pelas quais habitam as chamadas "áreas de risco". As classes populares sabem que estão ali por causa das políticas fascistas de segregação urbana, da expulsão dos pobres da terra firme, coisa que as classes dominantes e seus gerentes empoleirados no velho Estado vêm promovendo há décadas nas grandes cidades (destruição de cortiços, escorraçamento de famílias que ocupam prédios abandonados via infames "reintegrações de posse", sucateamento da malha de transportes das regiões metropolitanas e concentração de terras nas regiões rurais nas mãos de latifundiários).

O povo sabe bem que entre as obras do PAC nas favelas no Rio não houve uma contenção de encosta sequer, só projetos de maquiagem e embelezamento, tudo de cunho eleitoreiro. O povo de Niterói acabou de assistir ao longo de vários meses grandes obras de recapeamento da orla rica da cidade, onde já quase não havia buracos, enquanto para os bairros pobres sobrava apenas a repressão da polícia.

Repressão de pronta-entrega

Mesmo assim, só faltou mesmo a Rede Globo dizer que os trabalhadores que moram nos morros estão pedindo para sair. Foi dito que a Defesa Civil está "descobrindo" casas que não estavam nas áreas condenadas. É um sinal de que a expulsão de famílias das áreas mais centrais da cidade tende a alcançar muito mais do que as quatro mil moradias que já foram juradas de destruição por Paes e Cabral, transformando-se realmente em "remoção total", ampla e sem rigor científico, compensada por uma mesada miserável denominada "aluguel social". E para conseguir este dito "benefício", os desabrigados e desalojados vêm enfrentando filas, burocracia e humilhação.

No Bumba, houve revolta entre o povo desabrigado na manhã do dia 13 de abril quando chegou a notícia de que a prefeitura mudara o local de cadastro do tal "aluguel social". Isso após cerca de 100 moradores terem passado toda a madrugada na fila para o preenchimento do cadastro a fim de receber os trocados do Estado. Por volta das 11h, funcionários da secretaria de Ação Social chegaram e foram dizendo que as fichas só poderiam a partir daquele momento ser preenchidas nos abrigos da cidade ou nos Centros de Referência de Assistência Social. Cabral foi sonoramente vaiado quando apareceu por lá.

Quando dezenas de pessoas organizaram uma manifestação no pé do morro do Estado, segunda área mais castigada pelos deslizamentos em Niterói, para protestar contra a falta de socorro e exigindo o religamento da energia elétrica, logo se espalhou a notícia de que se tratava de um "arrastão", e os gerentes de turno mostraram agilidade incomum para enviar várias viaturas da polícia, e até um helicóptero para a região. Com as gerências dos vários níveis de administração do velho Estado é assim: a repressão é ##i delivery## , de pronta-entrega, mas o auxílio ao povo em dificuldades não tem previsão de chegada.

São os gerentes deste Estado em escombros, incapaz de prestar a mínima assistência ao povo, que ora veiculam convocatórias para que os moradores "colaborem" com os infames despejos em massa que vêm sendo levados a cabo depois das chuvas. Pedem que o povo obedeça aos bombeiros e à defesa civil. Este povo solidário, que se mobilizou e chegou para ajudar os seus em meio à lama e ao lixo muito antes do que qualquer agente oficial, não aceita receber ordens das "autoridades".

Sobre a expulsão dos pobres dos morros do Rio, os detratores do povo e porta-vozes das elites reacionárias tergiversam. Os jornais da Globo dizem que "a palavra 'remoção' foi ligada no passado ao autoritarismo, mas agora não. Agora é proteção da vida humana". Dizem que "a palavra 'remoção', que antes nem sequer era dita, agora representa a solução". Tendo em vista a natureza fascista das políticas de sempre e da escalada anti-povo ora em curso, só se for alguma espécie de "solução final" contra as classes populares da cidade e do estado do Rio de Janeiro.

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