Reforma da saúde ianque: tiro pela culatra

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Apesar dos milhões e milhões de dólares que rolaram das maletas dos lobistas para o bolso dos congressistas ianques (tanto democratas como republicanos) nos dias que antecederam a votação pela "reforma" do sistema da saúde pública, a verdade é que realmente nada aconteceu de novo e de proveitoso para a grande parte da população estadunidense desassistida pelo atendimento médico governamental. O que foi aprovado acabou não passando de uma imensa e enganosa "colcha de retalhos", onde os maiores beneficiados foram mesmo os tubarões das indústrias médico-farmacêuticas.

A vitória apertadíssima (diferença de apenas 7 votos) do governo, quando uma grande parte dos deputados do próprio governo votou contra a proposta de Obama, veio confirmar o que já se sabia: os representantes do povo do USA no poder legislativo (assim como no executivo e no judiciário) na verdade somente representam os interesses dos grandes planos de saúde e do poderoso monopólio das indústrias farmacêuticas, irmãs siamesas inseparáveis e que sempre fizeram da saúde pública um dos mais rendosos negócios do imperialismo ianque.

Muita gente aplaudiu a aprovação do plano de "reforma" da saúde do presidente Obama, não percebendo que entre vários outros aspectos negativos a legislação aprovada vai continuar enriquecendo os monopólios das seguradoras de saúde, sem garantir atendimento de qualidade a preço razoável para a população. Além de que o Medicare (que é o sistema de saúde pública do governo federal) terá sua verba cortada nos próximos anos em 500 bilhões de dólares, para poder subsidiar as empresas que monopolizam o rendoso negócio da saúde, e que com essa dinheirama toda terão poder financeiro e político para bloquear futuras reformas. Como a maioria das novas regras só começarão valer em 2014, cerca de 23 milhões de pessoas ainda vão ficar sem plano de saúde por 9 anos, o que significa um cálculo médio de 23 mil mortes por ano por falta de assistência médica.

Milhões de famílias de renda média, incluídos trabalhadores com emprego estável, serão pressionados a comprar planos de saúde custando até 10% da sua renda, mas que cobrirão somente 70% das suas despesas médicas. Quem se der ao luxo de ficar doente vai se arruinar financeiramente, como já acontece hoje para grande parte da população sem plano de saúde.

As famílias que já têm convênios através das empresas em que trabalham (muitas vezes conquistados através de árduas lutas sindicais) vão pagar impostos extras e terão seus planos bloqueados, apesar dos aumentos de custo e redução de cobertura.

As próprias empresas de saúde "ajudaram" a redigir as leis que foram agora aprovadas, fazendo com que as regulamentações que proíbem a recusa por parte das seguradoras de coberturas para pessoas com doenças preexistentes perdessem força nos últimos meses. Idosos podem ter que pagar até três vezes mais que os mais jovens, e empresas com mulheres trabalhadoras, em sua maioria podem ter elevado o valor de suas mensalidades até 2017. Até as escassas cláusulas que foram apresentadas como sendo uma melhoria, como por exemplo, novos controles e fiscalização sobre a indústria da saúde, vão ser anuladas pelas concessões dadas no último momento às empresas e pela ampliação dos poderes do monopólio da indústria farmacêutica.

O sistema de saúde ianque é caro, ineficaz e socialmente injusto. O custo anual " per capita " de 7.500 dólares é duas vezes o da Alemanha. Desde 2000, os médicos, hospitais e farmácias tiveram um aumento de 70%, o que o próprio Obama reconhece como "inflacão da saúde". A indústria da saúde já abocanha uma grande e crescente parte do Produto Interno Bruto ianque (16%), caminhando nos próximos 15 anos para 25%, na hipótese do plano do governo fracassar.

Os lucros atuais da indústria da saúde acusam um índice de retorno um pouco abaixo dos bancos e financeiras de Wall Street, e que apesar da lucratividade absurda os serviços não são correspondidos por eficiência e honestidade, tanto que cerca de 100 mil pessoas morrem por ano em hospitais, como resultado de infecções e quase outro tanto morrem por tratamento incorreto. O governo não tem controle efetivo sobre o sistema de saúde e os executivos da indústria farmacêutica, médicos e administradores de hospitais eles mesmo estabelecem seus próprios salários e vantagens extras. O USA amarga um vergonhoso 37º lugar na classificação internacional de sistemas de saúde.

Por não contar com serviços de cobertura universal como em vigor em outros países ricos, no USA cada indivíduo tem que adquirir seu próprio seguro de saúde. A maioria dos estadunidenses consegue cobertura através de seus empregadores, isto somente quando estão empregados. Perdeu o emprego, perdeu o seguro. Pelos termos da maioria dos planos de saúde, os participantes fazem pagamentos regulares, mas frequentemente tem que pagar parte do custo do seu tratamento antes que a seguradora pague as despesas, e o custo com a assistência médica para cada pessoa está aumentando drasticamente.

Em virtude dessa situação, metade de todos os casos de falência pessoal (muito comum na pátria ianque) é em parte resultado da feroz taxa de desemprego atual, acompanhado das brutais contas do serviço médico. Como um todo o USA gastou, em 2007, cerca de 2 trilhões e 200 milhões de dólares (16,2% do PIB) em servicos de saúde, quase o dobro da média de outros países desenvolvidos.

Cerca de 50 milhões de estadunidenses (equivalente à população da Argentina) não possuem seguro e dezenas de outros milhões podem ser considerados "sub-segurados". Tudo isso leva o sistema de saúde ianque aparecer em último lugar numa lista que classifica a assistência sanitária em países ricos, perdendo inclusive para a pequenina Cuba, que não consta da lista de países desenvolvidos.

A presidente da organização internacional de saúde Commonwealth Foundation, Karen Davis, foi taxativa ao indicar que o USA tem o sistema de saúde mais caro do mundo, obtendo sistematicamente um rendimento mais baixo que o de outros países, e que não dá cobertura de saúde universal a seus cidadãos. Afirma ainda ela que "nosso fracasso em assegurar um atendimento médico para todos e em estimular vínculos estáveis e de longo prazo entre médicos e pacientes se evidencia em nosso desempenho pobre em termos de qualidade, acesso, eficiência, igualdade e resultados de saúde".

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