Um tempo para não esquecer

A- A A+

"Quando era estudante, sempre pensava: por que na história da Europa existem tantos detalhes e passagens e na do Brasil não tem nada de excepcional, é tudo certinho? Alguma coisa devia estar errada... Quando entrei para a faculdade comecei a ver documentos e vi que eles continham informações que não batiam inclusive com o que os historiadores publicavam. Antes eu me considerava apenas um professor de história, agora, com esse trabalho, já posso me considerar um historiador." Essas são palavras do professor Rubim Santos Leão de Aquino, autor do livro Um tempo para não esquecer 1964-1985, que traz uma das mais completas (senão a mais completa) listas dos torturadores do regime militar-fascista no Brasil.

— Nasci no Rio de Janeiro em 2 de março de 1929. Sou filho de militar. Meu pai, Rubens Monteiro Leão Aquino, chegou a marechal do Exército. Minha mãe, Maria Antonieta Santos de Aquino, era dona de casa — conta o professor Aquino logo no começo da entrevista.

O jovem Aquino participava de toda movimentação política e por onde passou, buscou integrar as manifestações populares.

— Me recordo que em 1942, quando o Brasil declarou guerra à Alemanha, eu vivia em Curitiba. Foi convocada uma passeata para quebrar os estabelecimentos alemães e italianos. Durante o protesto, meu pai me pegou pelo pescoço e me tirou da passeata. Ele ralhou comigo: "quer me complicar rapaz?" Essa foi a primeira manifestação que participei — comenta.

Anos depois, já no Rio, conhece e se apaixona por Sara Mota Lima, militante comunista e filha do conhecido dirigente do PCB, Pedro Mota Lima.

— Ela era uma militante ativa, atuava no PCB principalmente na área cultural, junto com o Mário Lago, o Jararaca, José Vasconcelos e outros — conta.

Graças à insistência de Sara, Aquino decide ingressar na universidade.

— Ela chegou pra mim um dia com o papel de inscrição da Faculdade Nacional de Filosofia. Lá havia o pré-vestibular à noite e o vestibular seria em dezembro. A Sara olhou pra mim e disse: "Agora é você quem decide". Em 1958 eu fui fazer o cursinho e em 1959 passei no vestibular — recorda.

Na universidade, Aquino enfrenta o que ele mesmo chama de "anos turbulentos", de greves e agitações.

— Na faculdade comecei a participar de algumas coisas. Entrei na diretoria do Centro de Estudos de História, do qual fui presidente e secretário. Nossa turma colaria grau em 1962, mas só se formou em 63, pois estouraram inúmeras greves naquele período. A faculdade Nacional de Filosofia, que hoje é a UFRJ, era um caldeirão político — lembra.

Após terminar a faculdade, Aquino começa a lecionar.

— Era impressionante como os alunos sempre confiaram muito em mim, sempre chegavam e desabafavam comigo. Uma vez um aluno chegou e falou: "Fui convidado para militar no MR81. O que o senhor acha?". Nessas ocasiões eu respondia: "sou contra a ditadura, mas não estou em organização nenhuma" — lembra.

— Um ex-aluno, que ficou muito amigo meu, era da ALN. Ele ligava aqui para casa e dizia: "Professor, aquele apartamento que o senhor queria '16 por 17' está disponível". Aquilo era uma senha, um horário em um lugar para nos encontrarmos — recorda o professor, acrescentando — tive ligação informal com ALN, mas não militava em nenhuma organização clandestina pois tinha 6 filhos para criar àquela época.

Mas seu trabalho e convicções levaram à militância.

— Militei na Resistência Armada Nacionalista — RAN, formado por antigos militantes do Movimento de Resistência Militar Nacionalista, que participaram do Caparaó , cujo lema era o da Conjuração Mineira (Liberdade ainda que tardia). Eu trabalhava com a parte da revista da organização e continuava trabalhando muito dando aulas — conta.

— A gente formava uma equipe de história "barra pesada". De uma maneira ou de outra mandávamos bala na sala de aula. Isso também era algo perigosíssimo porque o SNI infiltrava agente em todo canto. Tive um exemplo concreto disso no curso Platão em Ipanema, onde lecionava. Uma aluna chegou pra mim e disse que o pai era oficial da aeronáutica falecido e os amigos dele, que se reuniam com sua mãe, ofereceram dinheiro para que ela dissesse o que os professores falavam e o que os colegas de classe comentavam. Ela perguntou minha opinião e eu respondi: "Olha, se você apoia o regime vai ser uma infiltrada, uma espiã. Agora, se você acha que isso violenta seus princípios, não aceite." àquela época tinha muito disso — disse, relatando outro caso:

— Eu dava aulas em salas grandes, com mais de 200 alunos, um dia um aluno, que desconfio ser um provocador, pergunta: "Professor, nós estamos em uma democracia?". Eu pensei bem, estávamos em 1972, em pleno governo Médici. Se eu dissesse que sim, o aluno mais politizado iria me achar um idiota. Se dissesse que não, acabaria preso. Então eu disse: "Não sei, se você leu no jornal, o senador Filinto Müller , ele falou que não estamos em uma democracia. Eu não vou contestar o senador". Dar aulas de história não era fácil naqueles anos, toda equipe de história foi presa no regime militar — afirma o professor Aquino.

Assim, o professor Aquino narra sua prisão e conta sobre a tortura:

— Eu fui preso em maio de 1973, fui o último do meu coletivo a ser preso. Os que foram presos antes de mim foram muito torturados, receberam choque elétrico, apanharam muito, todo tipo de tortura psicológica. Eu sofri relativamente pouco, peguei a geladeira2, ouvia os gritos de companheiros sendo torturados — recorda.

Em sua prisão, Aquino passou primeiro pelo DOI-CODI e depois foi levado para o Batalhão de Carros de Combate, na Avenida Brasil.

— Foi uma época terrível da história do nosso país. Eu repetiria com gosto tudo que fiz, menos a experiência de ser preso. Mas não me arrependo de nada — assevera.

— Em 1978, o regime militar estava em crise e eu ingressei no Comitê Brasileiro pela Anistia — CBA, na comissão de mortos e desaparecidos. Fizemos o levantamento dos companheiros presos, mortos em combate ou aquilo que se criou a partir de 1973 que eram os "desaparecidos políticos". Mas quando foi aprovada a lei da Anistia, o CBA praticamente esvaziou, então em 1985 foi criado o grupo Tortura Nunca Mais, no qual ingressei como secretário e depois fui vice-presidente — destaca.

— Um dos trabalhos mais importantes que desenvolvemos foi o registro biográfico dos companheiros que tombaram no período do regime militar. Junto a esse trabalho enviávamos um ofício para a prefeitura para que um logradouro público recebesse o nome de um companheiro. Mais de 100 endereços no Rio de Janeiro hoje têm nomes de companheiros tombados na luta — garante.

Nesse meio tempo, em 1979, Aquino vai ao congresso da Anistia em Salvador-BA. De lá ele trouxe a carta de uma sobrevivente da guerrilha do Araguaia e já no Rio tentou encontrá-la durante uma semana. Desse modo ele conheceu Regilena , uma das sobreviventes da guerrilha do Araguaia, que viria a se tornar sua companheira. Durante a guerrilha Regilena foi casada com Jaime Petit , outro combatente do Araguaia e militante do PCdoB . Jaime foi assassinado pelas tropas do exército no Araguaia e teve sua cabeça cortada pelos militares. O Araguaia, inclusive, é objeto de estudo do professor Rubim Aquino que já prepara o material para elaboração de um novo livro sobre o tema.

— Em todos esses anos essa tem sido a minha vida. Estudar, pesquisar, trabalhar, lutar. Em todo meu percurso eu continuei trabalhando, lecionando e escrevendo livros. Dei aulas em cursinhos até novembro de 2009. Ainda trabalho junto à coordenação, na área de humanas, de outro colégio. Já há uns quatro anos, eu e o Frederico Falcão, que também é professor de história, participamos de um programa na rádio Bandeirantes, o Faixa Livre, em que a gente discute um tema de história do Brasil. Quando eu lancei este o livro Um tempo para não esquecer , cinco ouvintes foram até lá — conta.

Trabalho árduo e incessante

O livro Um tempo para não esquecer 1964-1985 é fruto de um longo processo, detalhado, com levantamentos feitos desde anos 1970.

— Passei todos esses anos pesquisando, lendo, confrontando denúncias verbais de companheiros torturados e testemunhas com informações do diário oficial, página por página. As denúncias verbais eram válidas, mas imprecisas. Eu tive que ler o diário oficial de 1962 a 1974. Foi um trabalho detalhado feito com colegas do CBA. Procurávamos os nomes dos torturadores, porque, quando eles eram designados para o DOI-CODI, ou era por decreto do presidente da república, ou por portarias do ministério. Dessa forma fui completando a lista. No livro quase não há gente da Aeronáutica ou da Marinha. No entanto, o órgão de repressão dos mais terríveis foi o Centro de Informações da Marinha, o Cenimar . Portanto faltam dados — atesta.

— Não foram todos militares que cometeram esses crimes hediondos, mas aqui se trata de uma organização corporativa, é um retrocesso dizer que a tortura e o assassinato de presos políticos é coisa só de sádicos degenerados. A tortura era institucionalizada. Antes mesmo do golpe, militares brasileiros já iam fazer treinamentos em fortes militares do USA e na região do canal do Panamá, como a Escola das Américas, cursos com a Cia e outros. Recebiam aulas e aprendiam a contraguerrilha urbana, contraguerrilha rural, ACISO [Ação Cívico Social], ações de militares fardados que fazem alguma coisa social, parecem simpáticos e não como repressores, e o chamado "método científico de interrogatório", ou seja, tortura. A tortura no Brasil chegou a 310 tipos, uns inventados no Brasil mesmo, e exportados para outros centros de tortura estrangeiros, como a cadeira do diabo3 — afirma.

— E agora me vem esse parecer fajuto do Supremo Tribunal Federal, cujo relator Eros Grau, que foi militante do PCB e inclusive foi torturado pelo regime militar dizendo que não há como punir os torturadores porque "houve um contrato" com a anistia que não pode ser rompido. Ora, anistia só se pode dar a quem foi punido, e nenhum militar foi punido. Nenhum deles assume que cometeu qualquer crime, diferente dos companheiros que participaram de combates, assumiram. No livro eu cito vários compromissos internacionais feitos pelo Estado Brasileiro que invalidam a argumentação dos defensores dessa posição fajuta. Dentre esses compromissos, em 1913, já antes da primeira Guerra, o Brasil dizia que o Estado deveria dar um tratamento condigno às pessoas que estavam sob o seu poder. Esse, e outros compromissos assumidos pelo Estado brasileiro foram desrespeitados. Os militares cometeram quatro crimes hediondos contra a humanidade: prisão ilegal, tortura, assassinato e ocultação de cadáver — alega.

— Estamos falando de justiça, não de vingança. Como eu, vários companheiros foram julgados e acusados de crime contra o Estado. Os torturadores têm que ser julgados por seus crimes contra a humanidade. Eles violaram a liberdade, a segurança, a vida, tudo isso foi ignorado por eles. Mas nós não podemos ignorar a história. Se pegarmos os casos do Chile, da Argentina e outros, onde os militares e torturadores estão sendo julgados e condenados, percebe-se claramente uma demarcação entre os da esquerda e os da direita. Aqui no Brasil, a coisa anda complicada. Aqui, quem era de esquerda 'direitizou' e quem era de direita vem agora dizer que é de esquerda — constata.

— Da minha parte, eu prossigo com a pesquisa, é um processo que não pode parar. Sobretudo a partir de 1973, quando houve um assassinato seletivo de companheiros. Hoje eu já levantei mais uns cinco nomes de torturadores e alguns outros centros secretos de tortura — garante.

O professor Rubim Santos Leão de Aquino é autor de uma série de livros, entre eles Futebol, uma paixão nacional, O samba enredo visita a História do Brasil, O samba-de-enredo e os movimentos sociais, Pernambuco em chamas, entre outros. Seu livro mais conhecido é: A história das sociedades e já está na 50ª edição.

________________________
Notas

1 - Movimento Revolucionário 8 de Outubro.

2 - Câmara de tortura que se constitui de um quarto pequeno com uma pequena porta. Seu interior é todo pintado de preto e não há luz. A temperatura é extremamente fria. Em certos momentos, os torturadores mudavam bruscamente a temperatura para extremamente quente. O torturado perdia a noção do tempo, não era alimentado ou recebia água, ficava exposto a sons altos e contínuos como de uma moeda rodando sobre uma mesa, buzinas de carros, sons de gritos ou de outros presos sendo torturados.

3 - Era uma cadeira comum, revestida com uma chapa de metal ligada a eletrodos. O preso torturado era amarrado a essa cadeira e na maioria das vezes era molhado pelos torturadores para que a corrente elétrica percorresse todo o corpo do torturado.

LEIA TAMBÉM

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja