Eleições na Colômbia - Mantém-se política genocida e vende-pátria

A- A A+

As eleições na Colômbia de 20 de junho ratificaram a continuação do sistema repressivo, corrupto e vende-pátria de Álvaro Uribe, através do candidato de seu próprio partido, Juan Manuel Santos. Ele, que também foi peça chave na gerência de Uribe dentro do esquema  repressivo do Plano de Segurança Democrática, continuou e aprofundou o chamado Plano Colômbia.

http://www.anovademocracia.com.br/67/16-a.jpg

Este foi o processo eleitoral mais desprestigiado dos últimos tempos na América Latina, quando as abstenções superaram os 50% no primeiro turno, num universo de 30 milhões de eleitores. Esse quadro só aumentou, atingindo 55% no segundo turno disputado entre Santos e Antanas Mockus. Deve-se ainda levar em conta que o exército colombiano fez uma convocação pública para que a população participasse da contenda eleitoral, especialmente no sul do país, onde as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) haviam propagandeado o boicote às eleições.

Quem é Juan Manuel Santos?

Juan Manuel Santos é um economista formado na Universidade de Kansas, USA, com Mestrado em Economia e Desenvolvimento Econômico da London School of Economics (Inglaterra) e Mestre em Administração Pública pela Universidade de Harvard (USA), o que deixa claro que sua formação se deu fundamentalmente no USA e não na Colômbia.

Ele provém de uma família das classes dominantes que historicamente ocupou cargos importantes do poder na Colômbia. A família Santos, além de estar ligada à política, é proprietária do influente jornal colombiano El Tiempo. Em 1972 Santos fez parte da Federação Nacional de Cafeicultores da Colômbia, isso  em um país onde o café é um dos principais produtos primários de exportação. Já em 1981 ele assumiu o cargo de subdiretor do El Tiempo.

Sua vida política foi marcada pelo transfúgio1 e pelo oportunismo. Ele já ocupou cadeiras como ministro do Comércio Exterior durante o gerenciamento César Gaviria, em 1991 e entre 1995 e 1997 dirigiu o Partido Liberal Colombiano, considerado partido das "elites". Entre 2000 e 2002 foi ministro da Fazenda e Crédito Público, no final do mandato do Andres Pastrana, época em que aplicou as políticas de fome contra o povo colombiano, além de ser o grande defensor das políticas macroeconômicas ditadas pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional - FMI.

Apesar de ter ocupado cargos de grande importância nos governos do Partido Liberal, retira-se dele em 2004 quando decidiu apoiar o governo de Álvaro Uribe Vélez, para quem é criado no ano 2005 o Partido Social de Unidade Nacional (ou Partido de la U, como é chamado por seus correligionários).

Em 2006, Uribe o nomeia como seu ministro da Defesa Nacional, cadeira que ocupou até maio de 2009. Durante seu mandato ministerial fez com que as forças armadas e policiais da Colômbia trabalhassem em estreita colaboração com os agentes ianques, podendo dessa forma reprimir as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, como foi o caso da chamada "Operação Fênix", em março de 2008, quando as forças repressivas do Estado da Colômbia penetraram no território equatoriano assassinaram o líder das FARC, Raúl Reyes, um cidadão equatoriano e quatro mexicanos que também estavam no acampamento. Também durante o seu mandato no ministério, foi levada a cabo a chamada "Operação Jaque", através da qual foi libertada a ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt.

O escândalo dos "falsos positivos"

Quando Santos exercia o cargo de ministro da Defesa durante o governo de Álvaro Uribe Vélez, se desatou o escândalo dos chamados "falsos positivos", referente a determinados aspectos da aplicação da chamada política de "segurança democrática", sobretudo aqueles ligados à permissividade e cumplicidade com condutas criminosas, tais como a descoberta de valas comuns com os corpos de pessoas desaparecidas reportados como baixas em combate pelo exército. Esta  prática foi utilizada de forma sistemática em diferentes partes da Colômbia e está associada com mais de mil desaparecimentos forçados denunciados. Assim também, tratava da utilização voluntária, por parte dos militares e civis, da Diretiva 29, assinada pelo ex-ministro da Defesa Camilo Ospina, que outorgava incentivos econômicos (recompensas) pelas informações ou entrega de membros de grupos armados ilegais.

Com o maior cinismo, admitiu publicamente a existência de execuções extrajudiciais na Colômbia pelas Forças Armadas sob o seu comando utilizando como bote expiatório o general Mario Montoya, comandante das Forças Militares que renunciou ao seu cargo. Quanto aos chamados "falsos positivos", civis inocentes assassinados para serem apresentados como integrantes de bandos terroristas e dados como baixas em combate, disse que "nunca quis encobrir coisa alguma, exatamente o contrário. Estamos abertos a todas as investigações de todas as informações".

No entanto, este personagem não foi julgado, nem processado por ter interferência direta na falta de cobertura no inquérito, e muito menos tem sido investigado qual é a sua responsabilidade política sobre esses fatos.

Candidato à presidência da Colômbia

Santos foi candidato graças ao fato de que a Corte Constitucional da Colômbia determinou que o referendo de reeleição, por meio do qual Uribe tentou permanecer no poder, foi declarado inconstitucional.

Além disso, durante a campanha, o candidato Juan Manuel Santos foi atacado pelos governos de Rafael Correa (Equador) e Hugo Chávez (Venezuela), com insultos, ameaças de guerra e campanhas para que não votassem nele. Tais reações foram provocadas por algumas frases de Santos, que disse que se sentia orgulhoso de haver ordenado o bombardeio contra o acampamento das FARC, em território equatoriano, quando era ministro da defesa. Embora esta possessão irregular, típica de mercenários, tenha gerado a crise diplomática da Colômbia com Equador e Venezuela de 2008, em 2009 reavivou os acordos militares paroquiais entre a Colômbia e o USA.

A corrupção e os desvios de Santos

Em 2006, durante o período que foi ministro da Defesa, Santos esteve envolvido no escândalo milionário da Ferrostaal, um negócio de 28 milhões de euros para a construção de um navio de patrulha para a marinha colombiana, onde foram negociados subornos de aproximadamente 840 mil euros que estão sendo investigados pela justiça alemã.

Há também o escândalo do navio Gloria, carro-chefe da marinha da Colômbia, onde foi encontrado um grande carregamento de cocaína. Cabe perguntar: qual a  responsabilidade do Ministério da Defesa neste caso? Como sempre não houve maiores esclarecimentos sobre este assunto.

Na Colômbia, ligações de Santos com o narcotráfico são bastante conhecidas, como o caso do Diego Rojas Girón, fiscal a serviço do narcotrárico em Cali, ou com Jorge Tulio Rodríguez, ex-prefeito de Ibagué, ligado aos conhecidos narcotraficantes Eduardo Restrepo e Wilber Varela, cuja área de atuação é o norte do Vale do Cauca e que comprou o Bloco Tolima, força paramilitar que opera nessa região.

Além disso, Santos esteve envolvido na compra de helicópteros Sikorsky UH-60 Black Hawk, listada como as maiores perdas econômicas sofridas pelos cofres públicos da Colômbia. Nesse caso, ele supostamente comprou helicópteros baratos, aparentemente em bom estado e com "poucas horas de vôo" do governo ianque quando, no entanto, os motores e restante da maquinaria eram completamente obsoletos.

Artífice das bases ianques na Colômbia

Não é segredo para ninguém que os grandes passos para se estabelecerem bases militares com presença ianque no território colombiano teve como um período crucial 2006-2009, período em que Santos atuou como ministro da Defesa. Na verdade, cinicamente, dizia Santos em 2008: "Não haverá base na Colômbia. Isto já está descartado. Está descartado pelo USA e por nossa parte". Frases hipócritas, com as quais pretendeu desviar as atenções sobre acordo entre o governo Uribe e o USA cuja finalidade é aprofundar a sua intervenção militar na América do Sul e vigiar de perto os interesses hegemônicos do imperialismo ianque. Além das desculpas infantis, como a de que "não se tratam de bases do USA, mas só bases colombianas", ainda que de fato tremulem bandeiras colombianas nessas bases militares, isso  com certeza não impede que os interesses do USA se anteponham a qualquer outro interesse.

Com todo esse frondoso prontuário do presidente eleito da Colômbia, não há dúvida de que a máfia uribista e seus planos repressivos, corruptos e vende-pátria, especialmente servis ao imperialismo ianque, foram de certa forma reforçados, apesar de que a abstenção eleitoral de 55% expresse que a Colômbia conta com um vasto setor de massas bastante esclarecidas que darão duro combate aos planos do novo peão do imperialismo que se hospedará na Casa de Nariño2.

______________________
Notas
1 Transfúgio: ato do trânsfuga,  desertor. Soldado ou militar que, em tempo de guerra, deserta das fileiras do exército de seu país e passa a servir no exército inimigo. Mais precisamente descrito pelo dicionário Houaiss: aquele que deixa o partido político a que estava filiado para filiar-se a outro.
2 Casa de Nariño: ou Palácio de Nariño. É a sede do governo da Colômbia.

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja