9.633 moradias serão derrubadas por Paes e Cabral

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"Estão nos atacando por todos os lados"

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Vila das Torres: construção de prédios foi cancelada mas remoções são mantidas

Desde as chuvas que causaram um rastro de destruição no Rio de Janeiro no dia 5 de abril, que os gerenciamentos de turno municipal, estadual e federal, de forma coordenada ampliam sua política fascista de expulsão de moradores de favela, feita sob o epíteto de "remoção". Logo após o temporal, a gerência Paes ordenou a remoção completa do morro dos Prazeres, mas os moradores se organizaram e seguem resistindo, defendendo sua moradia e sua história.

Até o final do ano, as gerências Paes e Cabral, ambos do PMDB, pretendem destruir 2.215 casas na Barra da Tijuca; 1.290 em Guaratiba; 944 em Bangu; 769 em Santa Cruz; 714 em Jacarepaguá; 561 na Tijuca; 552 no Méier; 552 na Pavuna; 391 em Campo Grande; 361 em Vigário Geral; 357 no Jacarezinho; 254 em Madureira; 250 no complexo da Maré; 208 em Paquetá; 122 na Lagoa; 111 em Anchieta e 110 em São Cristóvão, num total de 9.633 moradias, o equivalente a uma área de 2.344.091 metros quadrados. Com isso, aproximadamente 50 mil pessoas perderão suas casas em troca do famigerado aluguel social de R$ 400,00, ou de serem  realocados em bairros extremamente afastados.

Vila das Torres

Dentre as favelas ameaçadas está a Vila das Torres, no Parque Madureira, subúrbio do Rio, onde Eduardo Paes anunciou a construção de um conjunto habitacional com 500 apartamentos e um parque, em um espaço de 112 mil metros quadrados, como parte do "plano de revitalização do bairro de Madureira". Porém, a construção dos prédios foi cancelada e, mesmo assim, as remoções seguem programadas para os próximos meses. De acordo com moradores, a indenização oferecida pela prefeitura, após breve avaliação das 833 casas da Vila das Torres, nem se aproxima do real valor das moradias.

— Eles não querem nem saber se a comunidade quer sair ou não. Já disseram que vão tirar todo mundo e estão pagando pelas nossas casas um terço do que elas valem. A minha casa tem dois quartos e avaliaram ela em 13 mil reais. Com esse valor só me resta ir morar em uma área de risco. Isso porque minha família vive aqui desde 1885. Teve moradia avaliada em 2 mil reais, o que não dá pra pagar nem seis meses de aluguel. Essa avaliação é feita em uma breve conversa do morador com um cara da prefeitura, que além de não ser engenheiro, proibi o morador de levar um advogado, sob a ameaça de não pagar nada. Se não for indenizado, o morador tem que se contentar em ir lá pra um condomínio da Caixa Econômica Federal em Realengo, que é muito longe daqui — disse Heraldo, da associação de moradores, na reunião dos representantes das favelas ameaçadas de remoção, dia 18 de maio, na Pastoral de Favelas.

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Moradora da Vila Autódromo contra olimpíadas

O Prefeito Eduardo Paes afirmou no evento de lançamento do Projeto, que os moradores do local, já cadastrados, não seriam deslocados e as desapropriações seriam negociadas de forma digna, mas agora se percebe que era tudo mentira. Para você ter ideia, as casas que vão ser demolidas estão tendo suas portas pichadas com um triângulo por funcionários da prefeitura, que nem o Hitler fazia, quando pichava a porta das casas dos judeus com uma estrela de Davi. completa.

São João Batista

Outra favela ameaçada é a São João Batista, ou Estradinha Tabajaras de Botafogo, que fica nos fundos do cemitério São João Batista, em Botafogo, na zona Sul do Rio. São aproximadamente 30 moradias nos planos de demolição.

— O prefeito está fazendo terror psicológico, trazendo entulho das obras no cemitério para cá, ameaçando os moradores, colocando os PMs da UPP pra vigiar a gente. Já tem até um boato de que ele vai cortar luz, água, telefone e coleta de lixo aqui pra nos intimidar. Aqui nunca foi área de risco. A verdade é que a Santa Casa, que manda no cemitério, quer construir um crematório e o prefeito inventou essa história de área e risco pra favorecer a Santa Casa, que na certa colocou um dinheiro na mão dele. Esse é o maior golpe que as favelas do Rio já receberam. Eu acho que se o povo não resistir vai ficar todo mundo sem casa. Esse negócio de ficar se reunindo com deputado e vereador em ano de eleição não vai resolver nada. O negócio é ir pra rua — afirmou um morador da favela São João Batista que pediu para não ser identificado por temer perseguições.

No dia 12 de junho, o pior aconteceu. Um pequeno deslizamento de terra, sem feridos nem mortos, destruiu alguns túmulos do cemitério. No dia seguinte o monopólio dos meios de comunicação exigia, em uníssono, a remoção da favela São João Batista.

Os moradores dizem estar convictos de que a resistência é o único caminho para garantir a permanência das famílias.

— Não vamos sair de casa. Não vamos permitir esse descaso de um prefeito ditador. Estão nos atacando por todos os lados. Meu vizinho foi roubado semana passada pelo choque de ordem e perdeu seu trailer na praia. Agora ele não tem trabalho, correndo o risco de ficar sem ter onde morar. Não tem como ficar sem fazer nada — conclui o morador da Estradinha.

Vila Autódromo

A luta dos moradores da Vila Autódromo contra as políticas do gerenciamento Eduardo Paes é mais antiga. De 1993 a 2000, quando era sub-prefeito da Barra da Tijuca — bairro nobre do Rio de Janeiro — Paes já tentava expulsar os 4 mil moradores da favela, que ocupam cerca de mil moradias em 354 lotes fracionados. Mas a luta dos moradores impediu que esse crime fosse cometido e a Vila Autódromo permanece firme em seu lugar. Em artigo de Marcelo Salles inditulado "2016: jogos ou negócios olímpicos" ele cita: "desde a década de 1990, quando tiveram início as tentativas de despejo. No processo movido pela Prefeitura em 1993, quando Eduardo Paes era sub-prefeito da Barra, a acusação é de que a Vila causava 'dano estético' à paisagem."

Contudo, após o anúncio do início das obras para as olimpíadas de 2016, o prefeito retomou seus planos de expulsão dos moradores do bairro pobre vizinho ao Autódromo Internacional Nelson Piquet, conhecido como autódromo de Jacarepaguá. Com isso, os moradores da Vila Autódromo já começaram a se reunir em assembleias e reuniões com representantes de outras favelas ameaçadas por Eduardo Paes. Muitos desses moradores conhecem bem a antiga política dos gerenciamentos de turno de remoção de casas e expulsão de trabalhadores nas favelas do Rio. Dentre eles está o presidente da associação de moradores, Altair Antunes Guimarães, de 55 anos.

— Eu vivia na Ilha dos Caiçaras, que era uma comunidade que tinha perto da Lagoa Rodrigo de Freitas, mas tiraram a gente de lá em 1969, quando eu tinha 14 anos. Depois tive que ir pra Cidade de Deus, que na época tinha acabado de ser criada justamente para abrigar o povo que eles expulsavam da zona sul. Depois, fui expulso da CDD no meio da década de 90 para a construção da Linha Amarela, na época em que o Conde era prefeito. Aí vim para a Vila Autódromo e, mais uma vez, querem me tirar daqui. Aqui não tem tráfico, não tem milícia, não fazemos mal a ninguém. Não temos asfalto nem saneamento. O governo não se lembrou de nos colocar no PAC porque somos poucos, não rendemos muitos votos. Desde 1993, que existe na 4ª Vara de Fazenda Pública uma ação civil pública movida pela prefeitura contra nós. Essa guerra é antiga e nós vamos ganhá-la — aposta Altair.

Os moradores da Vila das Torres, da favela São João Batista e da Vila Autódromo — assim como de vários outros bairros pobres, como o Laboriaux, na Rocinha, zona sul; o Cantinho do Céu e o Pantanal, no Rio Comprido, zona norte; e o Parque Columbia, em Acari — estão se reunindo periodicamente em assembleias locais e reuniões ampliadas e, assim como no morro dos Prazeres, mostram-se organizados para resistir às remoções e defender seu irretorquível direito à moradia.

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