Acirra-se a luta de classes na China

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"Os chineses parecem ter pego gosto por greve". Foi assim, com uma frase que soa meio a lamento, meio a menosprezo, e com um tanto de ódio de classe, que o jornal O Globo começou a notícia sobre a greve de operários que estourou em uma fábrica da transnacional de carros Toyota no último dia 17 de junho, uma sexta-feira, na cidade chinesa de Tianjin.

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Trabalhadores da Honda paralisam a fábrica em protesto por melhores salários

O que o órgão semioficial da reação no Brasil chama pejorativamente de "gosto por greve", com seu léxico de direita e passando ao largo da imensa e incontestável tradição revolucionária do povo chinês, é na verdade a maneira pela qual os inimigos das massas se referem ao recrudescimento da luta de classes da China. E o medo dos patrões ante o fervor com que vem crescendo os levantes por lá fez com que os 1.300 trabalhadores da subsidiária da montadora japonesa precisassem de apenas três dias de mobilização para arrancar da direção da empresa 13% de aumento dos seus salários.

Esta vitoriosa greve se seguiu a uma outra, também exitosa, na outra fábrica da Toyota em Tianjin, quando a direção da empresa também se curvou às exigências dos grevistas. Outra transnacional japonesa de automóveis que vem enfrentando novas dificuldades em sua empreitada – facilitada pela gerência revisionista de Pequim – para explorar o povo chinês é a Honda, cujas fábricas na China foram paralisadas por três greves no intervalo de um mês na fábrica de componentes de carros de Foshan, na província industrial-exportadora de Guangdong.

A primeira eclodiu no dia 17 de maio, terminou com um acordo entre a direção pelega do sindicato e os patrões, mas foi sucedida por uma nova mobilização uma semana depois, quando a direção anunciou um aumento miserável de 55 yuans, ante à reivindicação dos operários de receber pelo menos 800 yuans a mais por mês. A greve se estendeu por dez dias e terminou com a volta temporária ao trabalho após o anúncio de um aumento insatisfatório de 32% nos salários de fome, mas com a aceitação da diretoria em "analisar" uma lista de nada menos do que 147 exigências dos operários, entre as quais a substituição dos fantoches que comandam a seção local do sindicato controlado pela gerência dita "comunista" por representantes escolhidos no chão das fábricas.

Operários marcham unidos para enfrentar pressões

Naquela ocasião, os operários avisaram: a única "solução" possível para a Honda seria o acatamento de todas as demandas colocadas na mesa do patrão. Caso contrário, nova greve. Dito e feito. Em meados de junho, diante do fato de que a empresa, em vez de ceder, esmerava-se no divisionismo e trabalhava na sabotagem do movimento operário em Foshan, os trabalhadores voltaram a fazer emperrar a maquinaria do capital opressor, realizando retumbantes marchas dentro da fábrica para fortalecer a união e elevar a moral de cada um dos companheiros, a fim de que ninguém cedesse à chantagem e toda sorte de pressões dos patrões pelo fim da greve, e obrigando a Honda a parar a produção de automóveis em toda a China.

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Tianjin: greve vitoriosa na fábrica da Toyota

A altivez dos operários em luta contra a Honda – a maioria jovens com idades entre 20 e 25 anos – encheu de ânimo o conjunto da classe operária chinesa, que vive o inferno da mais selvagem exploração capitalista após ter vivido a experiência do socialismo sob a direção do presidente Mao Tsetung, e encheu de temor o patronato local e os gerentes da exploração via transnacionais. As notícias sobre os inquebrantáveis operários de Foshan levou a uma onda de modestos aumentos de salários em vários setores-chave do capitalismo chinês, em uma tentativa desesperada da burguesia para aplacar o grande levante que se anuncia. Na famigerada fábrica de componentes eletrônicos, onde as condições de semiescravatura são tão brutais que levou a uma sequência de suicídios entre os trabalhadores, os patrões ora tentam adiar a insurreição maquiando as condições de vida dos operários, como quem atira migalhas aos porcos. O povo chinês dá mostras de que não aceita mais à humilhação, nem tampouco à chantagem da demissão!

Desde os levantes de 2002, quando trabalhadores se insurgiram contra as demissões e contra a precarização subsequente a sucessivas privatizações de estatais, não se via na China tamanho vigor das massas contra seus algozes.

Superprodução e mercado interno

Sem desmerecer o movimento do proletariado chinês em seu processo de aprendizagem, no qual a greve tem sido uma grande escola, é importante salientar que a elevação do patamar salarial dos trabalhadores na china é positivo para o gerenciamento do Estado chinês na medida em que a crise econômica que afetou as economias ocidentais tiveram grave repercussão na China pelo encolhimento das encomendas, o que provocou uma crise de superprodução de sua quinquilharia. Com salários altamente reprimidos pela super exploração das empresas estrangeiras que operam em seu território o gerenciamento do Estado chinês que no início do ano havia pedido aos  governos locais que aumentassem o valor do salário mínimo entre 10% e 15% , de certo modo, faz vistas grossas ao movimento grevista já que o mesmo com a conquista de aumentos de até 45% provoca de imediato uma ampliação do mercado interno. Ameniza, assim, sua crise de superprodução com a reorientação de parte da produção, antes destinada à exportação, para o mercado consumidor interno. Por outro lado esta situação cria ainda uma contradição no seio do capitalismo já que a elevação dos níveis salariais na China provoca a redução de seus lucros que só poderá ser compensada com a elevação do preço das mercadorias das transnacionais ianques e japonesas, principalmente, além de redefinir o padrão de escravidão assalariada no mundo inteiro.   

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