A gerência antioperária e anti-indígena de Evo Morales

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Quando os discursos, as aparências, as promessas se tornam convincentes de tanto se repetir, vão se transformando num senso comum. Diante desta situação adversa do caminho popular, não resta outra alternativa que lutar e resistir sem desanimar, pois o tempo, no desenrolar das coisas, no fragor das lutas, cumprirá seu papel e se encarregará cedo ou tarde de revelar as dimensões da mentira.

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Marcha indígena completa uma semana sem que Morales atenda suas reivindicações

A gerência de Evo Morales já tem mais de quatro anos e, assim como as frases altissonantes, a demagogia pseudo-popular continua sendo seu selo distintivo. Cada vez mais suas palavras perdem apoio e respaldo popular com a simples e implacável comparação dos discursos com a posição política reacionária que tal governo tem mostrado.

Quatro anos foi o tempo necessário para ficar em total e absoluta evidência que o autodenominado governo dos movimentos sociais e dos povos indígenas originários é uma completa farsa, pois agora termina enfrentando, reprimindo e difamando precisamente àqueles que tinha como seus aliados, especificamente, o movimento operário, camponês, indígena e o magistério.

Neste enfrentamento aberto às genuínas bases populares da Bolívia por parte do maquinário estatal, Morales inclusive teve a desfaçatez de não se distanciar um só milímetro de seu perfil demagógico. Sem nenhuma vergonha, apelou ao insulto de taxar operários e professores de ultradireitistas, quando a única coisa que faziam era lutar por melhores condições de trabalho e salário. Taxou de pró-imperialistas as organizações indígenas, de vendidos à agência de cooperação ianque Usaid, no momento em que essas organizações se mobilizaram para exigir a interrupção do extermínio depredador na Amazônia e nas alturas andinas, onde a gerência de Morales alenta projetos que só favorecem a interesses imperialistas, como a construção de estradas, instalação de projetos de mineração, projetos extrativistas de hidrocarbonetos em áreas naturais vulneráveis aos impactos desenvolvimentistas, entre outros empreendimentos, que não favorecem nem sequer um milímetro a economia nacional boliviana, pois respondem à velha lógica reacionária de enclaves.

Para situar estes acontecimentos, recordemos que no primeiro semestre de 2010, tanto os operários como os professores das escolas urbanas da Bolívia se mobilizaram por melhores salários, mas também com a intenção de protestar contra um projeto de Lei de Pensões, que mais uma vez manipula e põe em risco a viabilidade das futuras pensões e aposentadorias da população assalariada do país, bem como de uma Lei do Trabalho, cujos conteúdos são contrários aos interesses dos trabalhadores. Já os trabalhadores colocaram em questão a aparente bonança mostrada pelas cifras macroeconômicas das fontes oficiais do Ministério da Economia, que através de "ajustes" nos parâmetros de medida do processo inflacionário, conseguiram maquiar uma realidade inflacionária que, ocultada pelos números oficiais, é duramente percebida nos bolsos dos mais pobres.

Diante das mobilizações, paralisações de operários e greves de professores, a gerência boliviana apropriando-se discursivamente do rótulo de governo revolucionário e de "autoridade" que indica "o que é revolucionário e o que não é", chamou os operários fabris e os professores urbanos de conservadores, por terem desmascarado a farsa da manipulação das cifras macroeconômicas e por exigir com veemência melhores condições trabalhistas, foram acusados pelo governo de seguir o jogo da ultradireita resguardada em Santa Cruz.

Ao observar a firmeza dos operários e professores, a gerência retrocedeu para logo investir com seu inveterado modus operandi de confrontar massas contra massas. Desta forma, tratou de se infiltrar na direção do magistério, introduzindo candidatos sindicais de mãos atadas com prebendas outorgadas pelo partido oficialista, o Movimento Al Socialismo (MAS), e paralelamente utilizando a Ministra do Trabalho, ex-trabalhadora fabril, que iniciou uma ridícula campanha de desprestígio na qual acusava os dirigentes operários de pressioná-la para que ela, a ministra, desse a eles uma porcentagem dos milhares de dólares que recebe com esse cargo de alta hierarquia, apesar de demonstrar inaptidão e incompetência evidentes.

Tal contenda terminou momentaneamente com o retrocesso do governo ao conceder certa melhoria salarial a operários e professores, adiando a aprovação das Leis de Pensões e de Trabalho, o que demonstrou o desgaste de suas táticas de querer minar por dentro o movimento popular, do mesmo modo de confrontar massa contra massa.

Operários e professores, apesar de terem acalmado suas lutas reivindicativas, ainda se encontram em prontidão, manifestando sua absoluta desconfiança nesta gerência que tem mostrado inúmeras artimanhas por baixo da manga.

Morales, igualmente, abriu uma frente de lutas contra as organizações indígenas de terras altas e de terras baixas da Bolívia. Os motivos são dois fundamentalmente: o primeiro é a agressão permanente aos territórios indígenas com a intenção de facilitar as atividades extrativistas de minerais e hidrocarbonetos empreendidas por empresas transnacionais avalizadas por países imperialistas, e o segundo trata-se da restrição numérica da participação das organizações indígenas dentro do Congresso, agora chamado Assembleia Legislativa Plurinacional.

O primeiro é um dos problemas que põe de manifesto o caráter pró-imperialista do governo de Evo Morales, pois todos os seus esforços se concentraram em facilitar as atividades das empresas de petróleo e minério, não importando se estas contaminem águas, solos e ar em zonas cujos ecossistemas são altamente vulneráveis. Desta forma, a gerência de Morales enseja à empresa transnacional japonesa Sumitomo suas atividades na Mina San Critóbal no departamento de Potosí, a qual monopoliza a água doce para desenvolver suas atividades e, consequentemente, contamina as águas subterrâneas, atos que foram denunciados e combatidos pelos camponeses da Federação Regional Única de Trabalhadores Camponeses do Sudoeste de Potosí (FRUTCAS).

Dentro da área protegida do parque Natural Madidi, uma das áreas com maior biodiversidade no mundo, o governo boliviano facilita as explorações sísmicas da empresa petrolífera venezuelana PDVSA, proporcionando também a construção de um corredor bioceânico que em nada beneficia o desenvolvimento econômico da Bolívia. Trata-se de uma estrada nos marcos da Integração da Infraestrutura Regional da América do Sul (IIRSA) para facilitar os fluxos de capitais sem se importar com o prejuízo ao meio ambiente e as populações indígenas do lugar. Existe também a construção de uma hidrelétrica dentro desta área, que poderia provocar inundações que afetariam as já mencionadas populações indígenas que vivem ali, bem como os ecossistemas. Estas medidas vêm sendo denunciadas e combatidas pelos povos indígenas Lecos, Tacanas e Mosetenes, que fazem parte da Central de Povos Indígenas de La Paz (CPILAP). A gerência boliviana não tardou em difamar estas organizações, assinalando que respondem a uma provocação financiada pela agência de cooperação ianque Usaid. Também diante da persistência desses povos indígenas, cada um desses empreendimentos depredadores, extrativistas e pró-imperialistas foram detidos temporariamente.

Na mesma situação estão os povos indígenas e urbanos situados nos arredores de Puerto Suárez, bem próximo a uma área protegida, onde o governo disponibiliza as atividades extrativistas de matérias-primas metalúrgicas, no complexo de minério de ferro chamado "Mutún", cuja exploração foi entregue para a transnacional indiana Jindal Steel, propriedade do multimilionário Jindal, uma das 500 pessoas mais ricas do mundo, segundo a revista Forbes. O gerente Morales segue acusando os protestos indígenas de que suas lutas estão sendo apoiadas por certas organizações não governamentais com financiamento imperialista ianque.

A mobilização dos originários de terras altas, assumida pelo Conselho Nacional de Markas e Ayullus de Qollasuyo (Conamaq), contra a instalação de um empreendimento de minério de cobre na localidade de Coro Coro, no Altiplano Norte de la Paz, em benefício de capitais da China, também valeu mais um choque de Morales — autoproclamado líder indígena — com indígenas de base.

No sudoeste da Bolívia — onde se encontram as mais importantes jazidas de hidrocarbonetos da Bolívia, estão assentados os indígenas guarani nucleados na Assembleia do Povo Guarani (APG) —, também ocorreram enfrentamentos diante das atividades que depredam o débil ecossistema do Parque Nacional de Aguaragüe, que é a fonte de água para grande parte da região do Chaco da Bolívia, Paraguai e Argentina. Obviamente, Evo Morales e os seus defendem ferozmente os interesses das transnacionais petrolíferas com as quais têm assinado acordos.

Na maior parte destas mobilizações e lutas de resistência dos povos indígenas, originários e camponeses, a gerência de Evo Morales se recusa a conceder a esses povos a obrigatoriedade da consulta social para implementar as atividades extrativistas, como exige o Convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), destacada pela Declaração Universal dos Povos Indígenas, que o governo se apressou a convertê-la em lei na Bolívia, apenas para chamar atenção, e logo se consagrou na nova Constituição do Estado Plurinacional de 2009.

O segundo dos pontos em controvérsia trata do roubo do escamoteamento de assentos parlamentares aos povos indígenas dentro da Assembleia Legislativa Plurinacional. E ainda que aqui estejamos convencidos do quão néscias e cretinas  podem ser as práticas parlamentares, é necessário frisar tal incoerência, que restringe a participação das nacionalidades dentro do esquema estatal chamado demagógico e pomposamente de plurinacional, que só dispõe de 7 assentos aos 36 povos indígenas mencionados pela Constituição da Bolívia.

Todos os fatos evidenciam que o gerenciamento de Morales nem é um governo dos movimentos sociais, nem beneficia operários nem professores, nem está a favor dos indígenas, camponeses e originários da Bolívia. A conversa fiada do caráter plurinacional de seu Estado, a reivindicação de origem indígena de Morales, só tem como objetivo frear o ímpeto revolucionário das massas bolivianas, sob a suspeita de que a Bolívia e outros países da América Latina vivem processos revolucionários.

Assim, podemos dizer que toda essa parafernália faz parte de um show midiático pago e consumido pela esquerda caviar mundial, concentrada nos chamados movimentos altermundistas, aqueles que andam pregando que "outro mundo é possível", mas que na realidade querem se convencer de que "outro capitalismo é possível", como já mencionou um colega do A Nova Democracia.

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