"Às barras dos tribunais com os torturadores e financiadores do regime militar"

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Élio Cabral, goiano, alfabetizado aos 13 anos de idade em uma fazenda, formou-se advogado. Militou nas Ligas Camponesas em Goiás, integrando também o seu “dispositivo armado” no interior da Bahia nos anos de 1960. Preso político do gerenciamento militar-fascista, resistiu durante meses nas câmaras de tortura a inimagináveis sevícias. Hoje, presidente da Associação de Anistiados Políticos de Goiás, prossegue na luta em favor da libertação do povo brasileiro, exigindo justiça e punição para os torturadores, militares e civis colaboradores do regime militar. Em contundente depoimento concedido a AND, Élio Cabral fala de sua trajetória e sua luta.

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Élio Cabral e o professor Fausto Arruda
em reunião do movimento camponês, abril de 2010

AND – Como foi o início de sua militância política?

—Nasci em uma fazenda e somente aos 13 anos comecei meus estudos. Iniciei minha militância estudantil quando estudava em Jataí (GO) e participava no Grêmio Bortoloti Mosconi, em atividades literárias, teatros e festas. Posteriormente, no Colégio Liceu de Goiânia, em 1958, juntamente com outros colegas vindos também de Jataí, participei de atividades de cunho nacionalista, em defesa das riquezas do Brasil, contra a exploração imperialista. Participei da União Goiana dos Estudantes Secundaristas e fiz parte da sua diretoria por duas gestões. Foi um período de muitas lutas do movimento estudantil goiano e nacional. Naquele período, fizemos grandes manifestações contra os acordos MEC-Usaid, que pretendiam a implantação do sistema de ensino ianque nas escolas e universidades brasileiras.

AND – E qual era o ambiente político nesse período? Quais as principais lutas que o povo brasileiro travava?

— O clima era vivo, de muito movimento. Estavam em pleno vapor as lutas pelas Reformas de Base. Simpatizávamos muito com as bandeiras da reforma agrária radical. Além das lutas estudantis, nos interessávamos por tudo que dizia respeito à rebelião dos povos no Brasil e no mundo. Existia uma razoável influência da Revolução Cubana e outras lutas de libertação nacional como no Vietnã. Nós, do movimento estudantil, estávamos fortemente presentes nas lutas populares e no movimento camponês. Assim, me aproximei das Ligas Camponesas.

AND – Por que você resolveu se dedicar mais ao movimento camponês?

— Como disse, nasci em uma fazenda, sou de origem camponesa. Meus pais eram pequenos agricultores. Por essa identidade, quando vim para Goiânia estudar, passei a me dedicar ao estudo da situação do campo e da reforma agrária, estimulado pela efervescência dessa discussão na época.

AND — Em Goiás havia uma corrente no movimento camponês ligada ao Zé Porfírio e ao PCB, e outra ligada às Ligas Camponesas, encabeçada por Francisco Julião, cujo centro de atividades era o Nordeste do país. Em qual delas você participou e qual era a sua atividade?

— O PCB tinha grande influência no movimento camponês em Goiás. Participou nas lutas de Trombas e Formoso, dois municípios do norte goiano, lideradas por José Porfírio e outros líderes camponeses. Com o sucesso das Ligas Camponesas no Nordeste e a liderança política de Francisco Julião, seu fundador, as discussões sobre a reforma agrária adquiriram caráter ideológico, confrontando política e ideologicamente com a linha defendida pelo PCB.

As lideranças do movimento estudantil que participavam da União Goiana dos Estudantes Secundaristas (UGES) entendiam que o movimento das Ligas Camponesas de Julião era o mais consequente e o defendiam. Em Goiás, nos aproximamos do MRT – Movimento Revolucionário Tiradentes – criado para a sustentação política das Ligas Camponesas e de seus futuros dispositivos armados. Dessa forma, meu engajamento passou a ser organizado. Fui para o Sul da Bahia, na perspectiva de uma luta revolucionária e armada pela tomada do poder.

AND — Sua atividade revolucionária foi interrompida pela prisão nos porões do regime militar. O que você tem a dizer sobre isso?

— Quando fui preso pelos militares, minha primeira recordação é de quando cheguei à Rua Tutóia, em São Paulo, onde era a OBAN, que depois passou a sediar o DOI-CODI. Os agentes que estavam lá gritavam "Vem, vem ver! Conseguimos prender ele! Finalmente prendemos o Matheus!” (meu nome de guerra). Imediatamente, aqueles carrascos pegaram uma tomada, dois fios descascados e me deram choques. Assim foi da minha chegada até a minha saída dos cárceres militares.

Eu, como vários companheiros, resisti. Não foram todos os que aguentaram, eram coisas bestiais. Mas a ideologia é fundamental, você acreditar na sua causa. Lutei por minha causa e por ter um comportamento firme, condizente com ela.

Era necessário ter convicção de que eu estava diante de um inimigo que queria a todo tempo me destruir, mas ainda me preservar para obter informações.

Eles cometeram monstruosidades, são criminosos de guerra, criminosos contra a humanidade. É uma experiência que dói recordar em qualquer pessoa que passou por isso.

Eu fui condenado a 23 anos de detenção, mas no Supremo Tribunal Militar a minha pena caiu para sete anos e meio. Passei cinco anos e pouco e saí na condicional. Mas fiquei confinado, pois os 2 anos restantes era sem o direito de sair de Goiás. Era vigiado e, todo mês, tinha que ir ao Supremo Tribunal Militar assinar o ponto lá.

AND – E sobre a Lei da Anistia e seus desdobramentos, qual a sua opinião?

— Tem muita gente que considera isso uma vitória do movimento popular.

Foi um movimento que foi para as ruas com as mulheres, as mães e muitos intelectuais participaram. Acredito que a luta pela anistia teve muitas coisas importantes.

Então, eu não participei da elaboração, da gestação. Sei que, quando foi publicada a Lei da Anistia, teve pouca repercussão prática, a não ser a vinda daqueles que estavam fora do país, porque da cadeia quase ninguém foi solto: quase todo mundo já havia sido julgado e condenado, com as penas em andamento.

Logo que foi assinada a Lei da Anistia, em vez de se dar início a uma discussão para apuração de quem cometeu crimes, nada foi feito. Tudo se passou nos gabinetes e não houve debate público. Se a lei estava anistiando torturadores e colaboradores do regime militar, ninguém falava disso.

Nós, que lutamos contra o regime militar, não éramos criminosos. Nós combatemos um regime ilegítimo e estávamos com a razão. Nós éramos lutadores pela democracia, lutadores pela revolução, pela derrubada do regime militar.

AND — Você tem desenvolvido ultimamente um trabalho à frente da Associação de Anistiados Políticos de Goiás. Como é esse trabalho e quais são as suas bandeiras?

— Queremos a abertura dos arquivos do regime militar, o esclarecimento de mortes ainda obscuras, a localização de corpos ainda desaparecidos e buscamos formas de reverter essa situação. Os agentes do regime militar e seus colaboradores cometeram inúmeros crimes e não os admitem. Eles mataram, torturaram, defloraram, estupraram. Fizeram o diabo, coisas inomináveis. É preciso revelar todos esses fatos. Imaginem pessoas sendo manietadas, amarradas, mulheres sendo estupradas diante de seus companheiros, crianças sendo torturadas. Eram coisas bestiais e isso é um absurdo!

Eu não vou descansar enquanto não for feita justiça contra essa humilhação, este terror que foi lançado sobre companheiros e sobre nosso povo. Quem cometeu crimes como esses jamais pode ser anistiado. São crimes hediondos, contra a natureza humana, crimes de lesa-humanidade. Esses são crimes imprescritíveis e que não podem ser perdoados. Nossa luta é por levar esses criminosos às barras dos tribunais, e temos a convicção de que com nossa luta isso será feito.

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