África: os 50 anos da 'descolonização'

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A chamada "descolonização" de 17 países do continente africano, 14 deles ex-colônias francesas, completa 50 anos em 2010. As atuais gerências destas nações – muitas delas com fronteiras definidas na partilha feita entre as metrópoles em meados do século XIX, na Conferência de Berlim – planejam festas dantescas e dispendiosas para celebrar o suposto encerramento do ciclo de colonialismo europeu.

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Soldado africano saúda o presidente Nicolas Sarcozy

O cinquentenário da "descolonização" da África é de fato uma data que precisa ser lembrada junto às massas de todo o mundo e avivada junto aos povos africanos em especial, mas por motivos diversos daqueles corneteados por estes chefes festeiros, em cujo turno calhou de caírem as bodas de ouro do que chamam demagogicamente de "fim do jugo" das potências europeias.

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que os falsários que ora organizam os festejos da "descolonização" são os mesmos que seguem garantindo aos monopólios o pronto atendimento aos seus interesses nas nações africanas que esses traidores dos seus povos gerenciam a soldo para o imperialismo.

Em segundo lugar, o que se chama genérica e equivocadamente de "descolonização" da África consistiu na verdade em um amplo e negociado processo de transferência da administração da rapina estrangeira no continente, que deixou de ser feita diretamente pelos governadores nomeados sobretudo desde Paris e Londres e foi repassada para serviçais da Repartição da África recrutados entre as classes dominantes vende-pátrias locais. Trocando em miúdos, a tal "conquista da independência política" dos territórios africanos demarcados pelas potências da Europa nada mais foi do que o seu rito de passagem da condição de colônias de fato, ou "estados associados" como preferiam os messieurs que comandavam o império colonial francês, para a condição de semicolônias, não obstante os anseios e as lutas por liberdade nascidos no seio dos povos africanos.

Por fim, esta passagem de bastão do colonizador opressor para o nativo camarada da metrópole não se traduziu em qualquer abrandamento do domínio estrangeiro sobre os povos e os recursos da África, ou em qualquer melhoria das condições de vida das massas africanas vilipendiadas. Ao contrário.

O legado da partilha

Este tipo de "descolonização" da África desencadeou:

. Violentas disputas entre as frações das classes dominantes locais visando a primazia no manejo das agora semicolônias para as potências, o que a crônica da história oficialesca costuma chamar de "instabilidade política".

. Lutas territoriais fratricidas entre povos separados arbitrariamente por linhas divisórias estabelecidas segundo os interesses econômicos dos colonizadores, fato ao que os mais afeitos aos eufemismos gostam de se referir como "conflitos fronteiriços".

. Fome, miséria e genocídios deixados para trás pela devastação colonial e perpetuados pelo esforço das potências capitalistas europeias para manterem suas ex-colônias de fato em submissão econômica.

. Condições propícias ao surgimento de epidemias incontroláveis de doenças como malária, tuberculose e aids.

. A formação de toda uma "indústria da ajuda humanitária" calcada na demagogia e feita de braço importante da dominação colonial perpetuada e rebatizada, com um sem número de organizações não-governamentais ligadas ao imperialismo e "missões de paz" da ONU se fazendo, as vezes, do "olho do dono" nas semicolônias africanas.

'Comunidade Francesa' desfila em Paris

No último dia 14 de julho, os gerentes de turno (de longo turno) das ex-colônias africanas do império colonial francês que se tornaram "independentes" em 1960 – Camarões, Senegal, Togo, Madagascar, Congo, Benim, Niger, Burkina Faso, Costa do Marfim, Chade, República Centro-Africana, Gabão, Mali e Mauritânia – desfilaram em Paris lado-a-lado com o chefe de Estado da França, Nicolas Sarkozy, por ocasião das celebrações da tomada do poder pela burguesia no país em 1789. Nada mais ilustrativo de que a velha "Comunidade Francesa", cuja extinção ora é lembrada por seus 50 anos, continua existindo aos olhos da metrópole e de seus sanguinários paus-mandados na África.

Quanto aos outros países africanos que se tornaram "independentes" em 1960, a ex-colônia britânica Somália está ocupada pelas tropas da missão da União Africana no país (Amisom, na sigla em inglês), por obra e graça de ordens do USA e da ex-metrópole. Já a Nigéria, também antigo território do Império Britânico, é hoje praticamente gerenciada pela transnacional anglo-holandesa Shell, contra a qual o povo nigeriano não arreda pé da luta antiespoliação. Já o antigo Congo Belga é atualmente um lugar arrasado pelo flagelo das lutas interétnicas.

Hoje, os povos da África "descolonizada" veem com indignação as elites empoleiradas nas administrações do entreguismo estatal levando a cabo uma nova e ampla rodada de leilões das vastas extensões de terras aráveis e dos recursos naturais da África subsaariana, em uma corrida neocolonial com foco em agricultura e recursos energéticos, mas que também vem sendo protagonizada por muitos bancos metropolitanos se expandindo nas semicolônias para financiar os monopólios.

O monopólio internacional dos meios de comunicação vem noticiando esta nova corrida à África como um "boom de investimentos" que tendem a transformar o continente em um paraíso na Terra. Mas as massas africanas estão conscientes de que quando os porta-vozes dos opressores dizem que "todos os olhos estão voltados para a África", isto não representa esperança, mas sim ameaça.

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