Téo Azevedo: Cantador popular do Norte de Minas

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É muito comum as pessoas me chamarem de folclorista, pesquisador e outros adjetivos do gênero. Na verdade, não me considero nada disso. Para ser isso tudo, além do amor pela cultura, é preciso ter formação acadêmica. Sou um cantador violeiro, nascido em Alto Belo, distrito de Bocaiúva, entre os vales dos rios São Francisco e Jequitinhonha, filho de Tiófo, ‘o cantador de um braço só', possuindo apenas a escola da vida, sendo o meu aprendizado na cultura, o fruto de minha própria vivência e criação, além de minha curiosidade de conhecimento e o fato de não ter vergonha de perguntar e aprender com quem sabe mais do que eu. Portanto, não sigo nenhum critério acadêmico, mas, com o amor pela cultura e dentro de meu conhecimento, procuro trilhar o caminho da simplicidade e da honestidade, fazendo a cultura de resistência do Brasil, terra da gente.

Essas são palavras de Teófilo Azevedo Filho, ou Téo Azevedo, violeiro, pesquisador de cultura popular, autor de cordéis, produtor musical, compositor e cantor, nascido em Alto Belo, distrito de Bocaiúva, Norte de Minas, no ano de 1943.

Há 50 anos, Téo está na trincheira, em defesa da cultura popular. Trabalha desde muito cedo, sempre misturando arte e trabalho. Aos 9 anos, já engraxava sapatos e recitava versos de improviso para atrair clientes em Montes Claros, Minas Gerais. Fazendo isso com sucesso, atraiu a atenção de muitas pessoas, dentre elas um camelô pernambucano, chamado Antônio Salvino, seu "descobridor", que o levou a várias feiras pelo Nordeste, onde se apresentavam juntos. A função de Téo era se apresentar com uma jibóia enrolada no pescoço, cantando calango de improviso em quadras, também para atrair a clientela para o parceiro.

Aos 14 anos, já sozinho, chega a Belo Horizonte, onde canta repentes e vende cordéis de sua autoria nas feiras livres da cidade. "Confundido" com vadio, foi preso várias vezes. Dormiu na rua, foi pintor de pára-choques de caminhão, lutador de boxe e soldado do Exército, onde deu baixa como corneteiro, mas sempre cantando e recitando seus versos por onde quer que passasse. Fez sua primeira gravação, em acetato, no antigo Estúdio Discobel, ainda em BH. Foram tirados 30 exemplares do disco que continha a música Deus te salve casa santa (Cálix Bento). Cinco foram entregues às rádios AM da cidade e os restantes vendidos. Téo chegou a gravar 300 músicas nesse processo independente, muito difundido na época, e facilitava a aparição de novos artistas, que não tinham espaço nas gravadoras transnacionais.

Zé Côco do Riachão foi o maior
músico da história do Brasil,
ao lado de Luiz Gonzaga

Prosseguindo sua carreira, já sobrevivendo — de forma precária — exclusivamente do que produzia artisticamente, em 1968 foi escolhido o melhor compositor mineiro do ano pelo colunista Gérson Evangelista, do jornal O Debate. Em breve, passando por mil dificuldades, consegue lançar seu 1º LP, Brasil Terra da Gente, em1969. A partir daí, não parou de compor, de criar.

Produção abundante e diversificada

Segundo o jornalista e pesquisador de cultura popular Assis Ângelo, Téo Azevedo é o compositor vivo (ou em atividade) que tem mais músicas gravadas no Brasil: o número ultrapassa as 1.500 canções. Entre seus intérpretes figuram artistas de renome como Luiz Gonzaga, Sérgio Reis, Clemilda, Tião Carreiro, Zé Ramalho, Tonico e Tinoco, Cascatinha e Inhana, Zé Coco do Riachão, Caju e Castanha, Milionário e José Rico, Banda de Pífanos de Caruaru, Christian e Ralf e muitos outros. Algumas músicas suas foram gravadas também por intérpretes estrangeiros.

Téo tem também grande experiência como produtor musical, tendo produzido mais de 3 mil discos. Uma de suas maiores descobertas foi o solista de viola e rabeca, além de construtor de instrumentos de corda, Zé Côco do Riachão. Téo conta, em um cordel de sua autoria, que conheceu Zé Côco em 1979, quando precisou consertar duas violas. Desde então, se impressionou com o velho que, já em idade avançada, não tinha feito nenhuma gravação. A partir daí, passou a acompanhá-lo, tornando-o conhecido do público. Mais tarde, Zé Côco do Riachão foi considerado o melhor instrumentista de cordas do Brasil, por ocasião do lançamento de dois de seus LP's, em 1980 e 81. Segundo Téo, " Zé Côco do Riachão foi o maior músico da história do Brasil, ao lado de Luiz Gonzaga".

Procuro trilhar o caminho
da simplicidade e da honestidade,
fazendo a cultura de resistência
do Brasil, terra da gente

Téo também é autor de centenas de histórias de cordel, alguns deles estudados até no exterior, sendo, ainda, o responsável musical de um projeto da rádio Cultura FM de São Paulo, onde trechos da obra Grande sertão: veredas, do escritor Guimarães Rosa, são cantados e interpretados pelos atores Lima Duarte e Sadi Cabral, além do próprio Téo Azevedo.

Em 1978, foi a Portugal cantar e fazer palestras sobre a cultura popular brasileira.

O trabalho no Norte de Minas

Téo Azevedo é um dos idealizadores e fundadores da Associação dos Repentistas e Poetas Populares do Norte de Minas, entidade da qual foi presidente, e para a qual doou todos os direitos autorais das obras de domínio público, recolhidas e adaptadas por ele. Em seu incansável trabalho de pesquisa e elaboração artística, Téo gravou e divulgou vários ritmos da cultura do Norte de Minas, entre eles o calango, o côco de viola, o lundu, o guaiano, a chula campeira, repente, toada de Alto Belo, etc, além de idealizar várias produções televisivas locadas da região. Um dos veículos utilizados por Téo para divulgar seu trabalho foi o rádio. Ele apresentou programas durante 12 anos, sendo 3 pela Rádio Record e 9 pela Rádio Atual de São Paulo, onde, aos domingos fazia uma apresentação ao vivo, em auditório, com repentistas, violeiros, cantadores, emboladores e outros artistas populares, descobrindo novos músicos e incentivando as criações espontâneas das pessoas simples.

Em 1998, criou seu próprio selo fonográfico, o Pequizeiro, que, em dois anos de atividade, acumulou cerca de 160 títulos, de vários autores, fechando as portas por não conseguir furar o monopólio das gravadoras estrangeiras. Em 2002, lançou seu mais recente CD, Téo Azevedo, 50 anos de Cultura Popular, Cantos do Brasil Puro, pela gravadora Kuarup, que há 25 anos grava músicas de um elenco de artistas nacionais e populares de 1ª linha (vide Box). Há ainda outro a ser lançado em breve pela mesma gravadora.

Influenciando novas gerações

O sobrinho de Téo, Rodrigo Azevedo, também bebeu da mesma fonte e está despontando como grande solista de viola caipira. Fonte esta, aliás, que parece perene, pois, segundo o próprio Téo, Rodrigo faz parte da oitava geração da família que se dedica à música. O pai de Téo era conhecido como "Tiófo, o cantador de um braço só", e era famoso em todo o sertão mineiro.

Com inúmeras músicas utilizadas por outros artistas, muitos deles surgindo atualmente, Téo diz nunca ter processado alguém que tivesse se aproveitado de seus trabalhos, mesmo sem autorização. "Existe meia dúzia de (compositores) endeusados pela crítica que só cedem as músicas para os medalhões. Se um artista menos conhecido grava suas músicas, eles logo abrem processo e esfolam as pessoas". É contra a pirataria, mas acha o CD muito caro. "Um CD deveria custar, no máximo, cinco reais", diz, com a autoridade de quem produz e sabe quanto custa um Compact Disc.

Entre os dias 10 e 12 de janeiro deste ano, ocorreu a 21ª Festa de Folia de Reis de Alto Belo, promovida pela Associação Folclórica de São José de Alto Belo, onde se podia provar a culinária regional do Norte de Minas, ouvir os repentes e os cantadores e violeiros, assim como os cordelistas. Téo considerou a festa desse ano um sucesso, principalmente porque foi pouco divulgada. "Reduzimos a propaganda, porque a festa estava crescendo muito e fugindo do nosso controle, mas não adiantou nada, veio gente do mundo inteiro e pesquisadores de várias universidades, inclusive da França", diz Téo.

Com toda sua história, Téo Azevedo é um defensor intransigente da cultura popular e do Brasil. Segundo ele, faltam iniciativas para defender o país: "Até na porrada, se for preciso!"

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Músicas e lutas sociais

A situação dos trabalhadores do campo e da cidade também preocupa Téo Azevedo. No Norte de Minas tem combatido, com sua poesia, a exploração do cerrado pelos latifundiários e as carvoarias, que estão acabando com o pequi, um dos alimentos característicos da culinária e da medicina natural, além de outras mazelas sociais que assolam a região.

Neste trecho da música Justiça Social, de sua autoria em parceria com Valente, nota-se que Téo não é um artista ocupado simplesmente com música.

...O operário que trabalha sem descanso
pelo salário que recebe todo mês
vive implorando para não ser dispensado
e às vezes paga por aquilo que não fez
A sua casa é distante no subúrbio
Às vezes pega mais de uma condução
Na humildade de quem vive oprimido
Ele é quem faz o progresso da nação
O camponês não tem terra para plantar
Vem pra cidade, se transforma em bóia fria
No meu sertão, hoje tudo está mudado
O sertanejo já não tem mais alegria
Lavrar a terra, semear depois colher
Então vender por um preço aviltante
O lavrador já não tem como viver
Porque o lucro é do grande comerciante...

O trabalho da gravadora Kuarup

Ao longo de seus 25 anos de existência, o selo Kuarup tem se diferenciado bastante das outras gravadoras pela sua atuação no mercado fonográfico. Sediada no centro do Rio de Janeiro, e dirigida pelo produtor Mário de Aratanha e pela socióloga Janine Houard, a gravadora tem se especializado, desde 1977, em lançamentos de qualidade, refletindo o que há de melhor em termos da boa e autêntica música brasileira. Nesse sentido, o maior objetivo da Kuarup é mapear o país musicalmente, dando voz a sonoridades antes relegadas ao anonimato, devido, principalmente, à uniformização do gosto musical, em face do poderio dos monopólios fonográficos.

Seu acervo reúne hoje os mais importantes expoentes do choro, da música nordestina, caipira e sertaneja, do samba e da música instrumental em geral, possuindo a maior coleção de Villa Lobos em catálogo no país. Músicos como Rafael Rabello, Henrique Cazes, Altamiro Carrilho, Paulo Sérgio Santos, Joel Nascimento, Sivuca, Domiguinhos, Paulo Moura, além de Téo Azevedo e Rodrigo Azevedo, já inscreveram seus nomes na história da Kuarup. Um dos maiores sucessos do selo foi o lançamento do CD Cantoria, um encontro memorável entre os músicos Xangai, Vital Farias, Geraldo Azevedo e Elomar, que, para concluí-lo, se empenharam numa série de gravações ao vivo: o Cantoria 1 foi gravado em Salvador, e o Cantoria 2 foi o resultado de 15 espetáculos em todo o Centro-sul do país.

Recentemente, a comemoração dos 25 anos do selo veio dar origem ao álbum Cantoria Brasileira, gravado na Festa Uai, em Poços de Caldas (MG), e no Teatro do Centro de Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ). Nas duas ocasiões, um quinteto formado por Elomar, Pena Branca, Xangai, Renato Teixeira e Teca Calazans, se uniu aos músicos Natan Marques, Chico Lobo, Heraldo do Monte, Oswaldinho e Paulo Sérgio Santos, e ofereceu ao público um repertório de 17 canções do universo musical brasileiro.

Mas, a que se deve a longevidade de um selo que transita na contramão do som dito "comercial" e que compete com as grandes companhias? Primando sempre pela qualidade, Mário de Aratanha não vê na concorrência um entrave: "Se eu faço um disco, e vendo duas mil cópias, estou feliz. Quero ser livre. Quero ser pequeno, porque aí posso fazer o que eu quiser", diz.

A série de prêmios ganhos pelos discos da gravadora, dentre eles dois Grammy Latino, só fazem atestar o altíssimo nível de sua produção. Mais informações em www.kuarup.com.br.

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