Arqueologia & imperialismo ianque na Amazônia

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O saque e a pilhagem dos sítios arqueológicos amazônicos é mais um capítulo da espoliação dos recursos dessa região, que não se limita ao território brasileiro, mas tem no Brasil um importante e ilustrativo parágrafo. Trata-se da descoberta de uma América que o imperialismo ianque impede financeiramente de chegar ao conhecimento do público brasileiro, pois mostra não somente o imenso poder que algumas instituições científicas norte-americanas possuem sobre a arqueologia brasileira, como evidencia a origem de culturas que se desenvolveram na Amazônia enquanto berço de boa parte das culturas andinas (inclusive a inca) e da região norte do Brasil. A Amazônia nunca foi um vazio cultural, mas um centro difusor cujo potencial desperta a fome predatória ianque, até hoje.

O domínio norte-americano sobre a arqueologia brasileira teve a sua versão mais acabada através da arqueóloga Betty J. Meggers, do Smithsonian Institut (Washington), que já vinha realizando uma série de pesquisas no Equador durante a década de 1940, e que em 1957 publicou em co-autoria de seu marido Clifford Evans "Archaeological Investigations at the Mouth of the Amazon". Através deste livro, sustenta com muita manipulação de dados e alteração de resultados, que a riqueza cultural da cerâmica andina se difundira à Amazônia em direção ao litoral, perdendo em qualidade, com base na tese de que todas as culturas decaem ao, através de migrações e guerras constantes, se desenvolverem em áreas quentes e tropicais. Ela tem sustentado uma postura puramente ideológica que rende tributos à Buffon e ao nazismo, um regime que a viu nascer.

Os resultados de suas pesquisas foram tão significativos, que em 1965, um ano após o golpe militar brasileiro, fundou o Pronapa (Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas) com a participação de vários pesquisadores do Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Pará. Com o objetivo de, através de um método bastante padronizado e disciplinado, obter uma "visão total" do passado cultural cerâmico pré-histórico brasileiro, obteve grande financiamento do Smithsonian Institut que, com o sucesso do projeto concluído em 1970, repetiu o desafio no Pronapaba (Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas da Bacia Amazônica), envolvendo volumes de capital que ultrapassaram os milhões de dólares.

Mas todos estes históricos investimentos tiveram e ainda têm um preço: a aplicação de um paradigma que repete a tese inicial na sua publicação em 1957, e a ocultação dos dados pesquisados, em confrontação direta com o direito constitucional de acesso a todos ao estudo do patrimônio arqueológico.

A articulação do sistema imperialista norte-americano na arqueologia brasileira se dá de uma forma bastante conhecida. Dinheiro, proteção e manipulação político-institucional. Acompanhar o itinerário das pesquisas de Meggers até seu enfrentamento com a arqueóloga norte-americana Anna Roosevelt, é uma tarefa bastante esclarecedora.

Antes de tudo, Meggers nunca foi funcionária do Smithsonian Institut, mas sim seu marido. Apesar dos seus investimentos no Brasil, através deste instituto, terem chegado a cifra de milhões na década de 1970, ela sempre tem prestado serviços voluntários àquela instituição. Clifford Evans nasceu em uma família humilde, tornou-se arqueólogo por que ganhou um curso, devido ao fato de ser veterano de guerra. E é bom lembrar que as pesquisas arqueológicas de Meggers nunca se limitaram ao Brasil. Ela esteve ativa no Chile pós-73, na República Dominicana pós-65 e na Venezuela de Perez Jimenez.

Seus primeiros colaboradores no Brasil foram, ou ex-nazistas fugitivos ou pessoas muito isoladas, algumas vezes consideradas insanas pela comunidade interiorana onde viviam, "pois acreditavam que aqueles cacos eram antigos". No museu Emílio Goeldi, conheceu e fez dele o seu grande vassalo, Peter Paul Hilbert — ex-oficial espião do Reich nazista que, na década de 1930, pesquisava jazidas diamantíferas na África do Sul. No Mato Grosso, contatou com o Dr. Iesco von Putckamer, ex-fotógrafo particular de Adolf Hitler, com quem realizou vários trabalhos, como durante a escavação arqueológica em Abrigo do Sol (1978).

Porém, um dos seus mais fiéis colaboradores foi, e continua sendo, Eurico Theófilo Miller, ex-professor de desenho da Escola Técnica de Taquara (RS), que trabalhava junto a vários ex-engenheiros da indústria aeronáutica nazista.

Miller participou do Pronapa, dirigiu os trabalhos de campo arqueológicos em Abrigo do Sol (MT) e foi um dos principais colaboradores no Pronapaba, que lhe permitiu oportunidade de se estabelecer em Rondônia a partir da Segunda metade da década de 1980.

O acesso público ao material arqueológico pesquisado por Miller é sempre proibido, e muito pouco é publicado no Brasil a respeito do que ele tem feito nesta área. Nada vai a público sem a permissão de Betty Meggers. Os vários centros de pesquisa fundados por ele no Rio Grande do Sul e em Rondônia (que se tem conhecimento), encontram-se em áreas de difícil acesso, seja através da burocracia, seja através da geografia. O Marsul (Museu Arqueológico do Rio Grande do Sul) situa-se a cerca de quatro quilômetros da cidade de Taquara, numa área descampada.

A prepotência de Eurico Miller em defender o imperialismo ianque é tal, que chegou a desafiar as autoridades do executivo. Em 1982, impediu que o representante do governador do Rio Grande do Sul entrasse no Marsul, trancando o museu e afirmando "isto é território norte-americano". Em 1986, tentou fazer o mesmo, até que um destacamento da brigada militar o expulsou, "pegando-o pelo colarinho, sem que tivesse tempo de apanhar o seu casaco na cadeira onde estava sentado", conta uma testemunha.

Este acontecimento foi outro fator que o levou à Rondônia e, fazendo "amizade" com a elite local, fundar um centro de pesquisas arqueológicas e outro museu, a cerca de uma hora e meia da cidade de Porto Velho, como funcionário da Eletronorte. Em Rondônia, através da Eletro-norte e da colaboração de um homem bastante ingênuo, funcionário da Secretaria de Desenvolvimento da Amazônia Sedam, chamado Josuel Ravani, deu prosseguimento às suas atividades intensas de trabalho arqueológico, como o resgate da área da barragem de Samuel, e de vários trechos de linha de transmissão, que vão do Amapá a Roraima.

E todo o conteúdo dessas pesquisas é entregue a Betty Meggers sem publicação, e nenhum acesso é permitido. Ultimamente, diz-se que Miller está morando em Brasília, fugido de garimpeiros que o ameaçaram de morte. Mas as suas visitas à suserana Meggers são freqüentes, segundo Ravani. Em 1999, a arqueóloga Anna Roosevelt denunciou que Betty Meggers trabalha para a CIA desde muito tempo. Seria esta a origem de tanto investimento em arqueologia? Afinal, pode o Smithsonian Institut dispor tal verba a uma voluntária?


*Arqueólogo com título de Mestrado em História Ibero-americana, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS.

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