Heróis dos logradouros

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Retrato de Tiradentes e Belo Horizonte: justa homenagem ao alferes revolucionário

Transeuntes mais atentos, um simples passeio pelas ruas de nossas cidades pode remeter, por um lado, à história do povo brasileiro e, por outro, à completa anarquia das homenagens feitas nos monumentos e logradouros públicos a vários personagens da história nacional. Apesar de revelarem o caráter de classe do Estado que promove as homenagens, existe uma contradição neste processo. Os heróis dos colonialistas, dos escravocratas, dos aristocratas, dos oligarcas latifundiários e grandes burgueses, convivem com alguns poucos — mas valorosos — heróis autênticos do povo brasileiro, lutadores da causa da libertação nacional e do progresso social. Como a história é escrita pela classe dominante, não é de se estranhar que a maioria dos homenageados sejam os representantes destas classes ou aqueles que lhes prestaram bons serviços. A bravura e o heroísmo dos lutadores do povo em todas as épocas, quase sempre são olvidadas e, na verdade, as homenagens que podem ser encontradas são muito poucas se comparadas à infinidade de lutas travadas pelo povo contra os colonialistas, os escravistas, a aristocracia, as oligarquias de todos os naipes e contra o imperialismo e seus lacaios. As "modernizações" do Estado brasileiro, e suas transições pactuadas, fazem com que passem a conviver nos logradouros das cidades "heróis" e "vilões", sob a forma de homenagens acumuladas e sem ruptura, seja na passagem da colônia para o império, do império para a república, em suas várias fases (velha república, administração Vargas, administração militar, etc.).

Se existem exceções, se existem logradouros que levam o nome de genuínos heróis nacionais, estes são fruto da resistência popular e da ação do movimento de massas que, de forma localizada, pressionou os detentores do poder para que logradouros fossem batizados com o nome dos lutadores do povo. Exemplos disso é um caso de Belo Horizonte, onde havia uma rua chamada Dan Mitrioni, um torturador e agente da CIA, morto no Uruguai por guerrilheiros Tupamaros, cujas placas foram por várias vezes arrancadas das paredes até que serem substituídas por um nome aprovado pela comunidade local: José Carlos da Mata Machado, revolucionário assassinado pela policia política dos tempos da administração militar. Outro exemplo vem do Rio de Janeiro, onde moradores do conjunto habitacional Presidente Médici conseguiram trocar o nome deste para Rubens Paiva, outro participante da resistência ao regime militar assassinado nos sinistros porões de tortura existentes então.

Muitos algozes do nosso povo, entretanto, seguem tendo homenagens, em formas de bustos, estátuas, ruas, praças, avenidas e até cidades com seu nome, caso de vários municípios de São Paulo — cujos nomes são de velhos oligarcas. Em Rondônia também se encontram exemplos disso. Lá, dois de seus municípios foram, recentemente, batizados com os nomes de duas vergonhosas referências aos militares fascistas brasileiros: Médici e Andreazza

Líder da Confederação do Equador e avenida de Fortaleza

A mais importante luta do povo Nordestino pela Independência do Brasil foi a Confederação do Equador, um dos maiores movimentos revolucionários brasileiros, em prol da Independência e pela fundação da República do Brasil. Pernambuco, Ceará, Bahia, Rio Grande do Norte, Paraíba, Piauí e Maranhão formaram uma nação livre do Império de Dom Pedro I, a partir de 1823, quando aquele ditador dissolveu a Assembléia Constituinte instituída pouco tempo antes.

O movimento popular de libertação do Nordeste do jugo português, que possuía idéias separatistas, não foi uma luta rápida, já que teve início nos movimentos revolucionários de 1817. Neste ano, na cidade de Crato, Ceará, é instalada a República. À frente dela está Tristão Gonçalves Pereira de Alencar que, algum tempo depois, será o rearticulador das ações e o comandante das tropas que saem do Ceará com mais de 10 mil homens para derrotar Fidié (general comandante das tropas portuguesas) e tomar a cidade de Caxias (MA), a mais de mil quilômetros de distância.

Tristão Araripe, como passou a se chamar, substituindo o sobrenome de origem portuguesa (Gonçalves, Pereira e Alencar), herói nacional que comandou uma das mais importantes lutas contra a coroa portuguesa, sequer é lembrado na história oficial. Uma avenida no centro de Fortaleza, que leva seu nome — conforme os historiadores conscientes — renega o valor revolucionário do lutador, denominando o logradouro de Tristão Gonçalves, nome que ele mesmo rejeitou, ao adotar a alcunha de Tristão Araripe.

O ódio aos portugueses era tão consciente que todos revolucionários trocaram os sobrenomes europeus por nomes nativos. O jornalista e historiador Oswald Barroso conta que até as mulheres tinham essa mesma firmeza: "À moda dos republicanos de então, as mulheres do Iço (município cearense que enfrentou a mais sangrenta batalha contra o Exército Português, onde crianças e mulheres foram degoladas nas calçadas), juntam aos seus, nomes de animais e plantas nativas. Tornam-se Josefa Clara da Conceição Paturi, Inácia Francisca Alves da Patativa, Maria Joaquina de Jesus Jaçanã."

Barroso afirma também que Tristão Araripe "é um herói do porte de Tiradentes". Saiu do Crato com 3.500 homens (mestiços, negros e índios) e antes de chegar a Caxias contava com um contigente de quase 10 mil revoltosos. Cerca a cidade e combate durante uma semana até derrotar o exército do Rei. Volta para o Ceará e, sabendo que o império já vinha com o reforço, consegue mais uma vez arregimentar forças populares para a grande causa dos ideais libertadores.

Este feito não é lembrado pela história, mas apenas a maneira como foi derrotado: as cabeças dos líderes são colocadas à prêmio por 10 mil Cruzados, o que gerou a traição de Rodrigues Chaves. Araripe é atacado no dia 31 de outubro de 1824, na margem direita do Rio Jaguaribe. Dizem que seus seguidores o abandonaram. É fuzilado e seu corpo estendido, de braços abertos, em galhos de árvores, até secar. Os comandantes imperialistas incentivaram o povo a violarem o corpo do herói, dizendo que tratava-se de um herege, Satanás, mas o povo, pelo contrário, passou a reverenciá-lo como o "São Tristão", por muitos anos, inclusive com um marco no local onde ele tombou.

Realismo feudal

O Museu do Ipiranga, em São Paulo, reflete com muita precisão a típica mentalidade de colônia da administração pública. O prédio e os jardins, para quem não sabe, são uma réplica do Palácio de Versalhes, sede do regime feudal, em Paris, até 1889, e o projeto da estátua, não era, originalmente, uma homenagem a D. Pedro I.

O arquiteto Tommaso Gaudêncio Bezzi, autor do projeto, pretendia vendê-lo para o império russo, aproveitando a celebração de duzentos anos do falecimento do czar Pedro O Grande, aquele que deu status de potência à Rússia. Não fosse o governo brasileiro, Tommaso teria um grande prejuízo, porque a revolução bolchevique de 1917 fez ir pelos ares todo o poder das classes dominantes na Rússia, incluindo a monarquia com seus fricotes de petulância. Não havendo mais nenhum russo, ainda que exilado, disposto a incluir em seu patrimônio um monumento ao czar, o arquiteto conseguiu empurrá-lo para o governo brasileiro. No mesmo lugar, as classes dominantes paulistas receberam outra réplica, porque a do palácio francês já se encontrava ali, desde 1890.

O czar chegou durante a ampliação dos jardins, concluída em 1922, do Museu que reverencia a Independência do Brasil. E, por ali, ele ficou, certo de que também se chamava Pedro, bastando mudar o título nobiliárquico: de czar para imperador, de O Grande para Primeiro e tudo bem.

Parte da burocracia de Estado, aquela mais voltada para a administração do ensino, orientava as escolas a divulgarem a falsa história, o que, até bem pouco, era obedecido com um orgulho vitoriano.

Tiradentes

Como não pode apagar da história nacional alguns de seus mais autênticos heróis, as classes dominantes reacionárias de nosso país procuram associar as homenagens prestadas a estes lutadores com a data em que foram derrotados ou assassinados. Tiradentes é um destes. Inspirador e líder de um dos mais importantes movimentos que lutaram contra a dominação portuguesa no Brasil, a Conjuração Mineira — erroneamente denominada "inconfidência mineira" — Tiradentes só é lembrado por sua derrota, seu sacrifício. Até mesmo sua imagem é divulgada à maneira de um cristo mártir, barbudo, com a corda atada ao pescoço. Enfim, vencido.

Por tudo isso, é uma grata surpresa a existência de um prédio alto, no centro da cidade de Belo Horizonte — mais precisamente no final da Rua Rio de Janeiro, quase esquina com a Avenida dos Andradas — com o retrato de um Tiradentes (alcunha do alferes Joaquim José da Silva Xavier) jovial e altivo. Um retrato do Tiradentes revolucionário, lutador contra as injustiças do jugo colonial português. Pintada em cores vivas e de dimensões gigantescas, o painel impressiona pela beleza e imponência.

Depois de organizar as bases de um movimento que deflagraria ampla luta contra a Coroa, e que possuía até um programa de governo ligado às mais sentidas reivindicações do povo à época, no correr dos acontecimentos, Tiradentes foi traído e acabou pagando com a própria vida pelos ideais que defendeu, sem contudo nunca temer o destino a que ele e sua família foram condenados.

A homenagem prestada a esse grande personagem é mais do que justa, sendo mesmo insuficiente diante do papel destacado que cumpriu na luta contra a opressão colonial sobre o Brasil.

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