Em memória de Lauro Campos - Um senador que foi brasileiro

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Uma grave notícia surpreendeu toda a esquerda no dia 1º de fevereiro: o professor Lauro Campos havia falecido na tarde daquela segunda-feira, no Instituto do Coração — Incor, de São Paulo, onde se encontrava internado desde o dia 10 de dezembro. Já no final de outubro, Lauro Campos havia sofrido um infarto, quando foi submetido a tratamento, mas também apareceram complicações renais e no fígado.
Ao emudecer a última voz da liberdade no Senado, já se anunciava o esvaziamento daquela Casa: Lauro não se elegera na última disputa eleitoral. Desiludido com o PT, transferiu-se, ao final do mandato, para o Partido Democrático Trabalhista (PDT), do Dr. Leonel Brizola.
Homem inteiramente comprometido com os trabalhadores do campo e da cidade, com as demais classes progressistas e com o melhor do mundo acadêmico, esse intelectual combativo, em várias oportunidades, brandiu contra o imperialismo e todos os seus lacaios. Seus discursos jamais foram panfletários e, do mais curto ao mais longo, se constituíram em lições profundas de dignidade e ciência, de amor ao seu povo e ao seu país, de defesa da soberania das nações.
Lauro defendeu corajosamente a UNB, no momento em que a repressão se tornou mais difícil. Em razão de sua atuação, foi obrigado a exilar-se em Sussex, Inglaterra, onde foi professor. Sua vasta cultura — em particular, os profundos conhecimentos que dispunha em ciências econômicas — tornou possível desvendar uma a uma as intrincadas manobras dos governos títeres no Brasil pós-64, prevendo os resultados predatórios da política semifeudal e semicolonial arquitetada contra o nosso país.
Mais que um senador, Lauro Campos foi um grande mestre. As páginas de A Nova Democracia exibem com orgulho suas colaborações e passagens citadas. Seguem abaixo, intervenções de Lauro Campos durante uma mesa-redonda em que participaram os doutores Bautista Vidal e Adriano Benayon, no início de 2003, transcritas de um programa televisivo.

Ilustração: Alex Soares

Sou trabalhador da cabeça. Eu não gosto do termo intelectual, porque intelectuais são aqueles no poder, são aqueles da "ideologia". Nós usamos a cabeça para que ela ajude a mão coletiva, o braço dos trabalhadores a mudar o mundo.

Houve uma dicotomia desde o princípio: os desenvolvimentistas da Cepal contra os monetaristas do FMI. No nível da aparência, ou no nível do discurso, o FMI tinha interesse em que o Brasil continuasse primário e exportador. Uma economia pré-industrial, em que os setores predominantes fossem os setores agropecuário e extrativo, para exportar barato as matérias-primas, os alimentos para sustentar os da dieta saudável, os da dieta que obriga o emagrecimento na sauna e no exercício, enquanto nós, magros, trabalhando com técnicas precárias, nos consumiríamos e a nossa magreza seria proveniente da nossa inserção social, da dependência, da forma pela qual nos exploram. E convertem, entre outras mentiras, as exportações, como está acontecendo agora, no país que fez tudo baseado, durante os últimos oito anos, na importação.

O governo de FHC colocou como algumas de suas âncoras, a fome dos trabalhadores brasileiros, o desemprego, a redução do consumo. Mas também uma âncora importantíssima foi a cambial. O governo ajustou o poder de compra da nossa moeda, eles queriam que um real valesse dois dólares para tudo importarmos baratíssimo, e que o Brasil pudesse importar. E como nós não tínhamos recursos, não tínhamos dólar, tomamos dinheiro emprestado e a nossa dívida externa disparou, como todo mundo tomou conhecimento. Com aquilo, que era de início uma âncora que permitiu as viagens, as importações de carros, tecidos, perfumes, gravatas Hermés e outras bugigangas, nós nos esvaímos e nos endividamos. Nossa dívida externa aumentou para isso. Com as exportações subsidiadas por nós mesmos, por nosso governo traidor, nós achatamos os preços durante longo tempo, mas a nossa dívida cresceu tanto que essa mágica besta foi desmascarada.

Essas tentativas de basear o nosso modelo em dólar, câmbio, nos levaram a uma situação em que penamos durante 500 anos como país exportador, porque o Brasil sempre exportou mais do que importou. Exportou pau-brasil, ouro, café, açúcar, tudo. Se conseguíssemos seguir a diretriz do FHC, seria "exportar ou morrer". Se exportássemos tudo, ficaríamos sem nada, completamente miseráveis, e parece que então, nessa segunda etapa do governo, após a reeleição (na primeira ele exauriu nossas possibilidades de constituição de um parque industrial, de manter o volume de emprego, et.c), já dominado pela dívida externa e pela dívida pública, ele faz o contrário: ao invés de "importar é o que importa", diz "exportar ou morrer", opção entre o péssimo e o pior ainda.

O Raul Prebes (considerado fundador da Cepal) voltou do USA acompanhado do prof. Celso Furtado, em 1949, e visitaram Getúlio Vargas (Osvaldo Aranha estava presente). Getúlio, com sua experiência e esperteza, já foi ao ponto crucial, perguntando a eles:

— Quem paga a Cepal?

— Nós pertencemos à ONU, que é quem nos financia, principalmente o USA, que é o sócio majoritário. — responderam.

— Então quem paga é o USA?— disse Getúlio.

É a mesma coisa que perguntar: Pelo bolso de quem vocês pensam?

Uma outra pergunta foi a respeito da moeda e dos bancos. A Cepal, sistematicamente, ignorou o capital financeiro. Parecia que a economia latino-americana só possuía atividades produtivas. Essas atividades produtivas justificavam o investimento nacional estatal, o investimento nacional privado e o investimento estrangeiro, que formam o tripé em que se baseou a Cepal.

Então o problema era formação de capital, era investir e investir, de acordo com aqueles teóricos da Cepal.

A ladainha do desenvolvimentismo

Na década de 50, o desenvolvimentismo tomou conta das universidades. Não se estudava mais crise. A disciplina Crise acabou, porque só havia agora desenvolvimento, só subida. Acabaram com as descidas, com os colapsos, com as crises. Acabaram na ideologia, prometeram desenvolvimento eterno.

Houve, naquele momento, essa separação, essa dicotomia entre estruturalistas e desenvolvimentistas. Essa divisão visava obscurecer uma divisão mais profunda em que estava dividido o mundo. Era o capitalismo keynesiano (como diz o refundador do neoliberalismo, Friedmam: "Depois de Keynes, somos todos keynesianos"). O mundo capitalista havia adotado a tábua de salvação keynesiana. Mas capitalismo e socialismo é que dividiam o mundo.

Fizemos uma subdivisão que não implicava numa tomada de posição entre capitalismo e socialismo, entre monetaristas e estruturalistas. Essa subdivisão é mais para inglês ver, farinhas do mesmo saco.

Se o FMI tivesse essa argúcia, esse maquiavelismo, estaria colocando dificuldades de desenvolvimento e industrialização para vender facilidades, o transplante do capital que estava sobrando nas economias capitalistas cêntricas para os países subdesenvolvidos. De modo que eles diziam que, com esse tripé, com esses investimentos, todos os nossos problemas seriam sanados, inclusive a inflação.

E Getúlio Vargas perguntou aos dois de novo:

— E vocês têm muitas pesquisas sobre os bancos?

Responderam:

— Não, nós temos uma divisão de trabalho, nós estudamos a economia real, os investimentos, a produção, a produtividade. E os bancos, a especulação, o capital financeiro ficam por conta do FMI.

A parte positiva, industrial, ficaria por conta dos técnicos da Cepal, e a outra parte, que iria acabar dominando— como acontece no mundo inteiro, nós estamos sob o domínio do capital internacional, senil e em crise — estaria esperando a sua vez, respeitado pelos técnicos da Cepal, defendido e patrocinado pelo FMI.

A consciência do anti-Estado entre os colaboracionistas

A partir de 1960 o modelo desenvolvimentista da Cepal foi totalmente desmoralizado na prática. Porque o desenvolvimentismo brasileiro e latino americano, de um modo geral, se transformou no seu contrário. O que estava acontecendo, e a Cepal fazia de conta que não enxergava, é que o desenvolvimentismo, os grandes investimentos, o transplante de indústria, que foi criando no Brasil através de suas alianças com setores de partes e peças, com políticos, com comerciantes, com militares e foram criando no Brasil aquilo que o FHC chamou de anti-Estado Nacional Brasileiro. O que ele não sabia é que ele seria o primeiro presidente consciente desse anti-Estado. O Estado se voltou contra os brasileiros, de modo que os capitalistas, os banqueiros, os credores, não precisam mandar invadir o Brasil, tem os representantes deles, os srs. Fraga, srs. Malan. Os generais dos exércitos adversários já estão aqui, instalados, com o comando completo.

É um processo altamente pernicioso. Esconderam que nosso desenvolvimento positivo, afirmativo, se desenvolvia sobre o negativo: dívida externa, dívida pública, dívida social. Não contavam isso e as dívidas foram aumentando

Para pagar juros e serviços da dívida externa, por exemplo, nós temos que exportar mais. Isso começou a acontecer nos anos 60. Para exportar mais, o brasileiro precisa comer menos. Se nós vamos exportar alimentos, produtos primários, a nossa população tem que comer menos. Os neo-liberais dizem que o brasileiro consome demais, e que esse excesso de demanda é que provoca inflação. Os brasileiros têm que exportar para que os outros consumam, mas nós passamos fome. O índice de preços fica estabilizado como o europeu ou o norte-americano e nós passando fome. "Exportar ou morrer", exportar e morrer.

Já nos anos 60 exauriu-se, esgotou-se o modelo de substituição de importações, então nós já não teríamos como realizar investimentos para abastecer o mercado interno, que estava ávido por esses artigos: carro, geladeira, televisão.

Devemos introduzir nessa discussão experiências que tiveram êxito, por exemplo, o Japão. Em 1863 não existia capitalismo no Japão. Era uma sociedade inteiramente feudal, e então três senhores feudais criaram a burguesia do Japão, criaram o capitalismo no Japão, para reagir contra os ataques feitos pelo Comodoro norte-americano. Então foi um capitalismo reativo, e nós ficamos aí abrindo as portas para as nações amigas, e reabrindo, tornando a abrir e a repetir nosso erro.

A experiência japonesa é importantíssima. Lá, a tecnologia não foi importada, foram importados técnicos de alto gabarito, ganhando muito dinheiro para implantar a tecnologia no Japão. E a partir daí os japoneses aprenderam e desenvolveram por conta própria.

Técnicas para encontrar as impressões digitais de Sam

Eu vi um livro em 1957, que se chamava L'escandale de developement (O escândalo do desenvolvimento). Naquela ocasião já se percebia impressões digitais que apontavam a presença do gigante que nos impediu de desenvolver em nome do desenvolvimento.

Em 1976 apareceu um livro no Japão, que se chamava Global new deal (Novo negócio global). O autor já tinha visto, em 1976, que os tigres asiáticos já estavam exportando um valor de cerca de 65% das exportações japonesas e crescendo mais que o Japão. Ele imagina: "E se a América Latina (AL) segue os tigres asiáticos? Se isso acontece, o Japão está perdido". Ele propõe então que o Japão encontre um jeito de emprestar dinheiro para aumentar a dívida externa brasileira. Para que nós aplicássemos esse dinheiro na agricultura, na construção de estradas, na construção de prédios públicos, fazendo agricultura irrigada, e assim desviam-se os recursos que poderiam estar na pesquisa de ponta, mais importante que esses setores primários exportadores.

Os empréstimos estrangeiros, o crédito estrangeiro não é neutro. É uma arma que eles usam para criar uma espécie de Muralha da China, para impedir que os investimentos na alta tecnologia e nos desenvolvimentos concorrenciais com as mercadorias japonesas se dessem na AL.

São diversos fios, cordas e correntes com que essas relações internacionais nos amarram em nome de fornecer crédito, de aumentar nossa capacidade de investimento, quando nada disso ocorre. Veja-se, por exemplo, o que aconteceu com o Sivam. O empréstimo de 1,3 bilhões de dólares para a construção do Sivam.

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