Realidade e fantasia

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A realidade econômica e social continua a se deteriorar, sob clima de estranha e infundada euforia. Essa é fomentada não só pela mídia, interessada em desviar as atenções, mas, também, por expectativas mirabolantes alimentadas pelo presidente da República, por sua entourage e por outras pessoas, muitas empenhadas em se situar bem no governo. Os discursos sobre o combate à fome e conquistas sociais fazem contraponto a fatos concretos de natureza bem diversa. Não há harmonia tampouco entre esses discursos e a defesa das pseudo-reformas que o FMI vem fazendo implantar há anos e cuja agenda o governo cuida de acelerar. A dissonância é brutal. 

Lembra muito a fórmula usada anos a fio no México. Lá, conviveram, de um lado, a dominação econômica pelas transnacionais e pela agiotagem bancária, e, de outro, o consolo retórico dos pronunciamentos nos foros internacionais. É o que faz Lula em Porto Alegre e ao apresentar em Davos queixas semelhantes às que ali externava o seu predecessor. Cedendo o comando da economia aos concentradores estrangeiros e ao FMI, o poder do governo torna-se cada vez mais limitado, e, cedo ou tarde, ele se vê forçado a abrir mão das políticas de interesse nacional que tenciona adotar. Terá também de desfazer-se dos técnicos e políticos comprometidos com essa linha.

O que interessa é se o governo pretende manter a rota que está levando à ruína em marcha acelerada, ou se está disposto a reconhecer a independência do Brasil, arrasada pelo modelo econômico. Este usa os juros extorsivos para destruir as pequenas e médias empresas e para inviabilizar investimentos públicos, enquanto privilegia as empresas transnacionais, as quais praticamente não pagam impostos. São essas coisas que o governo demonstra querer radicalizar ainda mais. De fato, entrega a política monetária e de crédito aos bancos internacionais, e, por meio da “autonomia” para o Banco Central, propõe que a Lei garanta em definitivo a política de juros extorsivos. Estes já sugam a parte do leão da arrecadação de impostos, e o governo ainda quer aumentá-los. Recusa até mesmo qualquer correção nas defasadas alíquotas do imposto de renda. Ora, só a produção e o emprego em alta assegurariam base saudável para a elevação das receitas públicas, e isso só seria possível com o crescimento das empresas locais. Com a supressão delas o desemprego torna-se do tipo de Bangladesh.

São favorecidas apenas as multinacionais, as quais, ainda que elevassem a produção e as exportações, não trariam benefícios à economia, pois, transferem os ganhos ao exterior, por meio de despesas fictícias ou sobrefaturadas. Isso lhes permite não pagar imposto de renda, além de terem os impostos indiretos reduzidos pelos subsídios às exportações. O modelo econômico exige que se exporte ao máximo a fim de arranjar divisas para as transferências, inclusive de juros, em favor das matrizes das transnacionais. Ao mesmo tempo, leva a exportar, em proporção cada vez maior, recursos naturais com baixa transformação e sem incorporação de tecnologia nacional. Isso se traduz nas relações de troca deterioradas. A quantidade de recursos exportados tem que ser fantástica, e os fatores de produção nacionais miseravelmente remunerados.

Lula deseja erradicar a fome do Brasil. Mas, do jeito que está indo, não vai conseguir. Não, certamente, com cestas básicas nem com as bolsas-escola do príncipe da demagogia, o ministro da educação. Pois, o sistema econômico em curso causa fome. Dar de comer é algo que se faz com o gado, que, aliás, se mata à vontade. O povo brasileiro tem direito a ser gente, não gado desfrutável ao arbítrio da oligarquia mundial. Para ser gente, tem de ter oportunidades de trabalho produtivo, de crescimento educacional e tecnológico. Só o verdadeiro desenvolvimento vence a fome.

Disso parece não ter noção o presidente, pois nomeia:

1 ministro da fazenda, um ex-prefeito interiorano, credenciado somente por privatizar e por prestar fidelidade incondicional ao FMI;

2 presidente do banco central, um homem da finança internacional, cujo interesse é auferir juros, enquanto o nosso é reduzir ao mínimo essa despesa improdutiva (para isso há que emitir moeda, prover crédito barato e investir em infra-estrutura e produção, o exato contrário da política em curso);

3 ministro da indústria, comércio e desenvolvimento, um exportador de aves, radicalmente favorável ao esquema das exportações primárias e ao sistema de dominação exercido pela finança internacional.


*Adriano Benayon, Doutor em Economia pela Universidade de Hamburgo, Alemanha. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento” Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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