O blefe do governo popular

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Não vai mudar nada! Eu tenho que falar isso, porque estamos vendo agora. Esse governo começa com uma grande aliança com o capital financeiro e, ao nomear o representante dos grandes capitalistas (Meireles), passou para as mãos deles o setor de investimento. Em seguida, ataca a classe média: “descobre” que os grandes responsáveis pela miséria do país seriam os setores da classe média. 

Eu não morro de amores por juízes ou magistrados. Eles têm privilégios, mas o privilégio deles é ter dois meses de férias. E é um absurdo Lula fazer acusações sobre salários e melhores condições de trabalho. Houve um tempo em que acusavam os funcionários do Banco do Brasil de serem privilegiados, e a oposição defendia esses funcionários, porque, na realidade, eles apenas tinham o padrão compatível ao de um trabalhador.

Quem é o causador da exclusão? Aquele que concentra o capital? Não é esse homem de classe média, não é o funcionário do Banco do Brasil — ainda que ele ganhe mil, 1.500 reais — não é ele quem concentra renda, mas aquele que realiza especulação financeira; o grande capitalista, que tem o controle da produção.

O governo está tocando em quem ele pode alcançar! Então ele coloca a classe média como responsável pela miséria no país. Isso, qualquer feitor do capital sabe fazer muito bem. Como o governo não pode tocar nos grandes capitalistas, ele desvia, afirma fazer a “reforma da Previdência”. Mas vai é socializar a miséria, repetindo o que diz a grande imprensa: o maior responsável pelo “deficit” da Previdência é o funcionalismo público.

A responsabilidade pelo pretenso deficit da Previdência Social é do próprio Estado, que repassou o dinheiro dela para a Wolkswagen, a Ford, a Peugeot, por exemplo, nunca de setores da classe média que se aposentaram. O aposentado recebe mais porque contribuiu mais. O grande problema, mesmo com o novo feitor, é que teremos um maior contingente de sustentação dos capitalistas, porque o BNDS não vai mudar com o Carlos Lessa. Ao contrário, o capitalista está aperfeiçoando seu novo feitor e, possivelmente, ao final desse governo, ele terá levado a classe média a encostar na favela.

Fui deputado pelo Partido dos Trabalhadores, ajudei a coletar assinaturas para fundar o PT, que foi fundado para dizer não. Fosse para fundar um partido social-democrata, fazer negociação direta com o governo, ficaríamos no MDB, o caminho natural, e o normal seria manter essa situação de frente. O PT rachou isso.

Não discuto princípios com a corrupção. A corrupção é inerente ao sistema capitalista. Não consigo entender socialista corrupto, menos ainda vou entender comunista corrupto. Este tem que ir para o paredão; não é comunista, é um traidor.

Quando vi o papel que o PT desempenha no Legislativo... como qualquer partido social-democrata, tive uma grande decepção. Pior, nem o PTB! Nem o PTB consegue fazer o que o PT faz! O PT acha que o fim justifica o meio. Isso é muito complicado.

Vai ficar claro agora: o governo aos poucos vai deixar transparecer. Para nós é uma derrota muito grande... Muito grande ! E o tempo que nós perdemos? Vinte anos que foram pelo ralo!

Dizem: “Temos que fazer o viável para chegar ao poder”. E depois que chegam lá? Por que fez acordo? Quem faz acordo cumpre o acordo, ainda mais para quem está com a faca e o queijo na mão! Com um vice daquele, ele vai deixar de cumprir algum acordo?

Ao longo desses quatro anos que passei aqui, vi que o PT era fraco e que o PT faz negócio!

O que acontece no Rio de Janeiro? Aqui, o PT negocia. E a negociação não se limita à grana, não! É a manutenção, e o status também tem peso na negociação. Descobrir como o PT vota, é levar um grande susto. O PT votou tudo com o Sérgio Cabral. Ele se elegeu presidente da Assembléia, por três vezes, com o apoio do PT. O que rola aqui, na Assembléia Legislativa, é com o apoio do PT, que faz oposição pontual ao governo do Estado, eventualmente, mas no conjunto ele apóia.

O PT aprova as contas do Tribunal de Contas. Nunca vi um deputado petista votar contra. O julgamento das contas é, antes de tudo, um julgamento político. Não é um voto técnico — que este seria lá, no Tribunal —, é político! Como é que um tribunal chega aqui e diz que o governo do Estado não tem problema nenhum e já vai sendo aprovado? Fazemos essa denúncia que, pelo menos nestes quatro anos que estive aqui, o PT nunca fez. Ele entra como uma linha auxiliar do governo.

Sindicalismo petista e sistema eleitoral

Não operei na área sindical. Mas quando cheguei para exercer este mandato, percebi o que é o setor sindical no Rio de Janeiro; aquele que reflete todo o setor sindical no Brasil. Tenho a impressão que esse pessoal opera com um tal dinheiro que os capitalistas nunca ofereceram para os sindicatos operarem. Isso acaba com qualquer movimento, acaba com qualquer proposta. O maior enfrentamento é esse, porque não adianta o cara chegar à Presidência da República com tolerância.

O sistema eleitoral não vai resolver a situação no Brasil; todo mundo sabe que não resolve. Como o parlamentar não tem identificação com o Estado Brasileiro, nem com a sociedade brasileira, a ação do voto não diz nada, não há transferência de representação política para o parlamentar e nem para o presidente da República. E como tem partido que se diz de esquerda e faz de tudo para levar um José Sarney à Presidência do Senado! Não tem esclarecimento que justifique.

Vêm essas “lideranças carismáticas” e puxam a massa toda. A massa, em geral, quer que a gente a puxe, mas quer que a gente dê a direção, porque ela tem necessidade de se organizar. A partir do momento que ela esteja organizada, é que a gente faz o enfrentamento. Não é com as Ongs que se organiza a massa. Nós temos que entender como a população se organiza para o enfrentamento.

O favelado não é o criminoso, não, soube se organizar. As ocupações das favelas são um movimento organizado. A massa se impôs. E o calcanhar do sistema é a propriedade. Ela ocupou os melhores lugares e, ao longo do tempo, foi se enraizando e ninguém tem ousadia, nem os prefeitos de direita, tipo César Maia, pensam mais em remover as favelas. Ninguém tem a ousadia de remover o Jacarezinho. É área privada, área particular, no centro urbano, vale um dinheirão. Ninguém tem a ousadia de mexer no Vidigal, um local público; uma área tomada dos monopólios privados. Isso não é um movimento espontâneo, tudo foi organizado pelas associações que se desenvolveram. Houve um dedo muito forte do Partido Comunista, que ajudou. E esses movimentos de massas vão ser resgatados no Brasil.


*Hélio Luz foi deputado estadual pelo PT na última legislatura, não aceitando renovar sua candidatura. Foi secretário de Segurança do Governo do Estado, prestando inúmeros e corajosos depoimentos sobre a truculência e a corrupção no aparato policial.

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